Cassia
Menos m*al que o alarme do meu celular é a mesma melodia das chamadas e me salvou da vergonha de continuar na frente do Chris e da minha irmã, que com certeza vinham do fabuloso jantar deles com quem, para minha desgraça, serão meus sogros.
— Bom, pelo menos me livrei da cerimônia. Resmunguei enquanto tirava o moletom.
Um banho me fará muito bem depois deste dia horrível. Não só os meus olhos ardem por ter chorado, mas também porque papai me fez registrar informações contábeis o dia inteiro na nova plataforma.
— Cassia. Chama a minha irmã, entrando no quarto sem bater, como de costume. — Você tem um momento?
— Sim, suponho que sim. Respondo, com uma vontade tremenda de correr.
Não vou fazer isso. Os cenários mentais em que me torno uma ca*dela e a chuto ficarão apenas nas minhas fantasias. Apesar de tudo, sei que Liliana não é culpada pelas minhas desgraças.
— Sinto-me realmente envergonhada pelo que aconteceu com o vestido, mas pensei que...
— O que eu disse a você e ao Christopher é verdade: não me incomoda. Interrompo ela com um sorriso tranquilo. — Aliás, me pouparam a vergonha de ter que ir para o altar com alguém que claramente só tem olhos para você.
Minha irmã desvia o olhar, corando.
— É evidente que vocês estão juntos há muito tempo e que, assim que Christopher se divorciar de mim, você passará a ser a esposa dele. Continuou, tentando me manter estoica. — De verdade, irmã, não tenho problemas com isso.
— Então você virá ao nosso casamento simbólico? Ela pergunta, emocionada. — Me faria muito feliz...
— Receio que não. Ne*go com a cabeça. Que não me incomode o que eles fazem não significa que eu queira ir ao casamento simbólico deles. — Esta situação é horrível para mim, vou perder a minha liberdade por dois anos.
— Entendo que isso te afete. No entanto, não nos resta outra saída. Ela suspira. — Nunca te disse isso, mas agradeço o que você está fazendo por mim, irmãzinha.
Liliana se aproxima de mim com os braços estendidos para me pegar pelas mãos. Embora o que eu queira seja afastá-la, deixo que ela faça isso.
— Nunca esquecerei que você está se sacrificando por mim. Ela me promete. — Sei que será difícil viver naquela casa, mas quando você voltar a ser livre, poderá fazer o que quiser.
— Eu sei. Assinto. — E desejo que você seja feliz com Christopher.
— Você não gosta dele, não é? Pergunta, estreitando ligeiramente os olhos. — Se você gostar, vai me doer, mas eu me afastaria.
O meu coração se aperta ao ver o seu olhar cheio de dor. Claro que eu adoraria que as coisas fossem diferentes, mas eu nunca fui nem serei egoísta.
— Não, irmã. Christopher não significa nada para mim. Eu garanto a ela. — Pode ficar tranquila.
— Prometa-me que nunca vai acontecer nada entre vocês, que você vai mantê-lo longe de você. Ela me pede. — Você é realmente bonita e sei que ele poderia...
— Não, ele só vê você. Eu a assegurei. — Ele te adora. Ou acaso ele te deu motivos...?
— Não, de jeito nenhum. Interrompe-me. — Ele me ama, e os pais dele também. Dizem que lamentam muito que eu não possa ser a nora deles.
— Imagino. Murmurou, tentando esconder o meu incômodo.
Por que ela menciona essas coisas? Acaso ela quer me torturar? Ou já percebeu que estou apaixonada pelo seu noivo?
— Confio em você. Sorri. — Sei que você não vai me decepcionar.
— Não, irmã. Juro. — Não vou fazer isso.
Liliana vai para o quarto mais do que satisfeita. Embora ficar sozinha fosse o que eu queria, não me sinto mais confortável. É como se hoje todos tivessem se proposto a me enfatizar que sou uma substituta, que a verdadeira mulher que vale a pena é Liliana.
— Não. Prometi para a minha mãe que não ia implorar nem deixar que vissem que isso me afeta. Murmuro enquanto preparo a banheira. — E vou cumprir.
Ao mergulhar na água, começo a elaborar na minha mente um plano sobre o que farei quando estiver casada com Christopher. Seremos obrigados a viver na mesma propriedade, embora não necessariamente no mesmo quarto.
Esses dois anos serão eternos, mas se eu evitar o máximo possível, talvez até tenha uma opinião melhor sobre mim. Não tenho muito medo dos meus sogros. Eles nunca me trataram m*al e não têm por que fazê-lo. Afinal, a decisão de se casar comigo foi do filho dela, não minha.
Não sei como vou conseguir, mas vou sobreviver a esse casamento sem incomodar ninguém e sem continuar sofrendo. Farei o meu luto, e Christopher sairá do meu coração para sempre.
Pela primeira vez, vou me concentrar apenas em mim.
Saio do banheiro com os ânimos renovados. Embora a minha alma esteja quebrada e o meu coração em pedaços, tenho certeza de que esses dois anos passarão rápido.
No dia seguinte, no entanto, toda aquela energia positiva que ele havia conseguido vai para o lixo.
— Haverá cerimônia. Anuncia meu pai enquanto tomamos café da manhã. — Você não poderá se livrar dela.
— Por quê? Pergunto, alarmada. — Disseram que não era necessário me fazer passar por isso. Onde está Liliana? Ele tem que saber disso. Tinha o seu casamento simbólico.
— No final não poderá ser realizado, ela tem que viajar amanhã. Responde-me. — Além disso, o advogado da família Sepúlveda acaba de revelar uma nova cláusula no testamento.
— Como?
— Aparentemente, o senhor Antônio antecipou-se ao que ia acontecer. Ele suspira, deixando os talheres sobre o prato. — Não tenho a menor ideia do porquê, mas ele te considerava digna de ser a esposa de Christopher.
— O quê? Pergunto, desconcertada.
Muito poucas vezes cheguei a ver aquele homem. Era um velho amargurado e, embora nunca fosse rude comigo, o seu olhar severo bastava para me assustar. Também não vi ele demonstrar um afeto especial pela minha irmã, mas, pelo que ela contava, ele a amava muito.
— Ele apreciava Liliana, não entendo. Murmurou.
— Eu também não. Ele responde com desgosto. — Como poderia considerá-la adequada se você se parece tanto com a descarriada da sua mãe? Não, você é pior. Pelo menos ela se arrumava, embora já saibamos para quê.
— Não vou permitir que você falte com o respeito com ela. Digo com raiva, batendo na mesa. — Ela te deixou porque você nem sequer olhava para ela. Por que dói tanto?
Meu pai empalidece e sei, no fundo, que deveria ser prudente e não irritá-lo. No entanto, não posso tolerar que ele fale assim dela. Mamãe é meu ponto fraco, a única razão pela qual estou disposta a sofrer mil anos em silêncio, se for preciso.
— Você é uma insolente! Sua mãe foi uma m*aldita traidora que não...
Sem terminar a frase, joga o prato e levanta-se. Sem dizer mais nada, ele sai correndo da sala de jantar. Eu fico como uma idi*ota, contemplando o café da manhã espalhado sobre a mesa. Esse é o desastre em que ele se tornou desde que ela o deixou, e é isso mesmo que ele pretende que eu seja.
— Não, não vou dar esse gostinho para eles. Murmurei, ne*gando com a cabeça enquanto revisava o meu celular para ver se ainda tinha o contato da Silvia, a cabeleireira que atendia a mamãe.
Ao encontrá-lo, sorrio e desfaço o coque que fiz esta manhã. Uma mudança de roupa para me vingar do papai não me fará m*al.
Agito o meu cabelo e desarrumo-o um pouco, pensando no quão furioso ele ficará quando me vir arrumada igual a ela.
Levanto-me da mesa e dou meia-volta para sair da sala de jantar, sorrindo como uma boba enquanto digito o número de telefone. Mas ao me deparar com uns sapatos pretos e bem lustrados, levanto os olhos com o coração disparado.
Christopher está na minha frente e parece furioso.
— Parece que você tem um encontro. Ele diz com ironia e aquela voz grave que me arrepia a pele.
Os seus olhos cinza-claro escurecem e parecem querer me engolir viva, embora eu não saiba por quê.
— Sim. Respondo, tirando forças de não sei onde. — Tenho um compromisso.