Eu não gaguejo. Não desvio o olhar. Não tento inventar nada bonito pra disfarçar. Talvez seja o cansaço acumulado. Talvez seja o peso de tudo que venho carregando nos últimos dias. Ou talvez seja só o fato de que, naquele momento, mentir me pareceria mais errado do que qualquer outra coisa que eu já tivesse feito. — Eu tô preocupado com você, Ângela — digo, com a voz firme, até mais firme do que eu esperava. — E eu preciso conversar. De verdade. Ela me encara por alguns segundos, em silêncio. Não é o olhar doce de sempre. Não é o olhar acolhedor que eu conhecia tão bem. É um olhar atento, calculado, como se estivesse medindo cada palavra, cada respiração minha. Como se estivesse decidindo algo importante ali, naquele exato instante. Então, sem dizer nada, ela dá a volta no carro. A

