Capítulo Seis
Adam Hudson
Depois da corrida de ontem, nós jantamos e caímos exaustos na cama.
Mas eu não conseguia tirar da cabeça o olhar de Bianca para mim. Estava tão focado na corrida, e como ela não estava mais ao meu lado, esqueci completamente dela e tirei a camisa para me refrescar. De maneira alguma eu tiraria a camisa na frente dela para me exibir, acho isso muito desrespeitoso, e também não é esse o caminho que eu quero seguir com ela, pelo menos agora não.
Depois da história com a minha esposa ter acabado da pior maneira possível, eu não sabia se seria capaz de amar de novo ou ter qualquer tipo de relacionamento saudável outra vez, e isso era uma m***a total.
Na manhã seguinte, acordei com o barulho do chuveiro, e vi que ela tinha acordado antes de mim. Ela estava muito empolgada, hoje nós começaríamos oficialmente nossa viagem
—Temos que achar o Milenium Park, a placa do inicio da rota 66 fica em frente a ele – disse ela com a cara enfiada em um mapa.
Depois de entrar em algumas ruas erradas e pegar bastante trânsito, finalmente conseguimos achar e vemos que o nome da rua é Adam Street e caímos na risada. Eu estaciono o carro e nós saímos em direção ao marco inicial.
Ela abre a mochila e puxa uma câmera Polaroid, aquelas que saem a foto na hora, e diz que quer tirar um foto. Eu tento pegar a máquina da mão dela, mas ela se afasta e pede para uma mulher que ia passando tirar uma foto de nós dois juntos.
—Eu não sou muito fotogênico – digo tentando me livrar.
Mas ela finge que não me escuta e me arrasta até estarmos embaixo da placa que marca o inicio e o fim da rota 66. Ela se agarra ao meu braço para ficar bem junto a mim e dá um lindo sorriso para a mulher com a câmera fotográfica, eu tenta dar uma insinuação de um sorriso, ela faz a foto e eu tenho certeza que saí com cara de b***a.
Bianca vai até a mulher, pega a câmera e a agradece enquanto espera a foto ser impressa.
—Pronto? – diz ela indo para o carro e eu a sigo – Vamos começar nossa jornada.
Eu coloco a chave na enguinição, mas não a giro.
Estou com medo de ferrar com tudo, meu primeiro instinto é sempre de fugir e eu não quero magoar ou deixar Bianca na mão no meio de um país desconhecido. Eu pedi isso pra ela e não posso decepcioná-la.
—Confio em você – disse ela colocando a mão encima da minha – Juntos?
Eu assinto com a cabeça e giramos a chave e o carro ganha vida, ela sorri e coloca o cinto.
Percebo que é isso que eu quero, ver esse sorriso estampado o rosto dela e principalmente ser o causador dele, aperto o acelerador e começamos a nossa aventura para desbravar a “Mother Road”
***
A playlist “Canarinho” ainda tocava no som do carro, ela cantava todas as músicas e eu não entendia uma só palavra do que saia da boca dela. Eu não entendia nada de música, mas sabia reconhecer quando alguém tinha talento e ela tinha de sobra.
—“Respirando mágoas de uma outra dor, do nosso caso imoral, desse amor, desse amor marginal...”
Eu até tentava prestar atenção na estrada, mas a toda hora os meus olhos eram atraídos para os lábios dela. Por sorte não era uma estrada muito movimentada, pois estava oficialmente desativada e agora a maioria das pessoas que rodavam por pela rota 66 são os turistas, e como não era época de férias estava quase deserta.
—Você aprendeu português antes ou depois de ir para o Brasil?
—Eu já tinha uma noção da língua, mas só fiquei fluente mesmo depois que fui morar. O italiano tem origem do latim, assim como o português, fica mais fácil de aprender, tem muitas palavras que são iguais ou muito parecidas.
—E o inglês? Você fala muito bem.
—Obrigado, eu estudo inglês desde pequena, assim como o espanhol, mas eu ainda preciso melhorar muito o meu sotaque, eu não consigo falar o fonema do “th” do jeito certo de forma alguma.
—Não melhore, por favor, esse é o seu charme.
—Então você me acha charmosa? – disse ela rindo.
—Toda européia é – digo na tentativa de disfarçar meu embaraço.
Nesse trecho da rota as principais atrações são os postos de beira de estrada e Bianca quer parar a todo instante para tirar fotos.
Paramos na cidade de Normal para almoçar e depois ela insistiu em dirigir, e eu confesso que fiquei com um pouco de ciúmes do meu novo carro, mas no final acabei cedendo.
Já quando estávamos na estrada, ele me indicou a mochila no banco de trás e pediu que eu pegasse um fichário e as fotos que ela havia tirado na parte da manhã.
—Coloca essas fotos aí pra mim, por favor.
Era um fichário bem grande e era recheado com fotos. Cada divisória tinha uma bandeira, eu procurei por americana e já tinha algumas fotos, algumas eu reconheci como sendo da cidade de Nova York.
—Coloca a data nessa parte branca, tem uma caneta na mochila também.
A primeira foi a que nós tiramos juntos, a única que eu apareço, ela insistiu para tirar mais fotos comigo nos outros lugares em que paramos, mas eu recusei. Porém agora vendo o resultado gostaria de ter tirado outra para levar comigo como recordação, mas ainda tinham muita estrada pela frente e muitas chances de tira belas fotografias.
Eu fiz como ela indicou e colei as fotos uma do lado da outra e colocando a data do dia de hoje.
—Isso é bem pesado – disse me referindo ao fichário – Posso dar uma olhada.
—Claro – respondeu ela
Eu voltei para o começo e a primeira divisória tinha a bandeira da Espanha.
—Eu ganhei essa máquina no meu aniversário de quinze anos junto com uma viagem para mim e minhas amigas, para a Espanha – ela explicou.
Comecei a folhear as páginas e era engraçado ver como a Bianca de quinze anos era exatamente igual à de agora, a mesma franjinha na altura dos olhos, os lábios carnudos e bem miúda.
—Você não mudou absolutamente nada.
—É verdade, eu não sou muito dada a mudanças, se você olhar alguma foto minha de quando eu era criança, vai dizer a mesma coisa.
—Eu adoraria ver isso.
—Quando chegarmos a Springfield e eu me conectar a internet eu te mostro, sabe meu nascimento foi noticia na televisão italiana.
—Então você é algum tipo de celebridade?
—Eu te disse que meu pai era cantor, ele foi um dos maiores tenores da Itália de todos os tempos e é claro que o nascimento de sua primogênita seria noticia.
—Você era reconhecida na rua ou algo do tipo?
—Eu fui a queridinha da Itália durante a minha infância e eu adorava me exibir – ela disse rindo – Quando meu pai ia para um programa de TV, eu pedia pra ir junto e o público ia a loucura quando eu pisava no palco junto com ele.
—Você cantava com ele? – e ela confirmou – Você disse que estava procurando algo em que é boa, por que não vira cantora?
—Esse era o plano original da minha vida, as gravadoras imploravam ao meu pai que eu lançasse alguma música, mas ela não me permitiu. Disse que eu tinha que estudar e me profissionalizar antes de qualquer coisa, senão as pessoas comprariam os discos porque eram meus e não porque eram bons.
—Muito sábio da parte dele, mas agora você já cresceu, bem não literalmente é lógico, você ainda continua com um metro e meio de altura – digo para irritá-la um pouco e ela mostra a língua pra mim, isso me deixa louco – Por que não investir nisso agora?
—Depois que meu pai morreu, eu perdi completamente a vontade, além disso, hoje eu percebo que gosto demais de cantar pra fazer disso a minha profissão, a fama cobra um preço muito grande e eu sofri demais com ela, agora que eu desfruto do anonimato quero continuar assim.
Ela havia me dito que me entendia quando eu disse que não queria falar sobre o meu passado porque tinha passado por algo parecido em um nível bem maior. Algo deve ter acontecido de público na vida e tremo só de pensar, hoje em dia eu evito as ligações de amigos e parentes para evitar as perguntas de “Como vai a vida?”, quem dirá ter um país inteiro assistindo de camarote a sua desgraça. Percebo que ela ficou um pouco desconfortável com o assunto e decido mudar, começo a passar as páginas até chegar na divisória com a bandeira verde e amarela do Brasil.
A primeira foto é do Cristo redentor, seguida por outra dela, um homem e várias crianças em uma sala de aula.
—Deixe-me adivinhar, esse é o seu Argh primo?
Ela dá uma rápida olhada e confirma.
—Sim é ele mesmo, Gabriel também conhecido com Argh meu primo.
Continuei olhando em busca de saber mais sobre a vida dela, tinha fotos em todos os lugares do mundo, mas, com exceção das fotos que ela tirou no Brasil, sempre era ela sozinha nos pontos turísticos.
—Você tem irmãos?
—Minha mãe acabou de ter gêmeos, mas eu não os conheço ainda.
—Então ela voltou a se casar depois da morte do seu pai.
—Na verdade eles se separaram quando eu tinha quinze anos e eu fui morar com o meu pai.
Ela me disse enquanto corríamos que odiava a mãe, isso me surpreendeu bastante, eu cresci com uma mãe muito amorosa e encontrar uma pessoa que afirmava odiar a mãe era irreal e agora ela dizia que a mãe teve filhos e ela não foi conhecê-los. Mas eu não iria perguntar o que havia acontecido, iria respeitá-la assim como ela fez comigo.
—E você tem irmãos?
—Tenho só um, o Ryan ele é três anos mais velho, mas nós éramos inseparáveis, ele está esperando o primeiro filho com a esposa agora, ela pode ter o bebêa qualquer momento.
Eu estava muito feliz por o meu irmão, ele havia achado a mulher da vida dele e agora eles estava começando uma família, eu queria estar junto a ele nesse momento para acompanhar o nascimento do meu primeiro sobrinho.
Quando chegamos a Springfield já esta perto do por do sol. Novamente nos hospedamos no mesmo quarto como já estava ficando de costume e saímos para correr, hoje está uma noite mais fria, mas mesmo que não estivesse eu não iria tirar a camisa de jeito nenhum.
— O filme do drive - in vai começar as nove e meia, então devemos ir ao Cozy Dog lá pelas oito e meia - diz Bianca quando voltamos para o quarto.
—Você tem um roteiro de onde nós vamos em cada cidade?
—Mais ou menos, eu pesquisei um pouco e quero ir seguindo sem pensar demais e parar onde me chamar mais atenção. Mashá alguns pontos que são indispensáveis e se nessa cidade tem um lugar famoso por os filmes é lógico que eu vou, vem cá deixa eu te mostrar minha versão criança.
Ela veio até minha cama e se sentou ao meu lado e colocou um vídeo no Youtube, uma mini Bianca cantava ao lado de um homem em programa de TV. Nesse época ela devia ter uns sete anos, a pequena Bianca já era encantadora, a franjinha, que parecia ser sua marca registrada já estava lá, e junto com as bochechas rosadas a fazia adorável.
—Me deixa ver os comentários para ver o que estão falando de você, mas rapidamente ela tirou o celular da minha.
—A bateria está acabando e nós precisamos do celular pra ouvir música
Achei aquilo um pouco estranho, mas ela deveria estar com medo que eu visse algum comentário negativo sobre a sua performance.
—Vamos comer logo – pedi – Estou morto de fome.
Foi bem fácil encontrar o restaurante que Bianca queria, pois era uma das maiores atrações turísticas da cidade. Pedimos o carro chefe da casa que é a salsicha no espeto, acompanhada por batatas fritas e anéis de cebola. Quando terminei de comer toda a minha comida, ela tinha chegado exatamente na metade e empurrou o resto pra mim.
—Acho que vamos precisar dar mais uma corrida.
—Já disse pra você relaxar, você é linda pra caramba.
Arrependo-me exatamente na hora que as palavras de boca, pensei que ela ficar com raiva de mim, mas quando eu olho ela está sorrindo e jogo um anel de cebola nela.
—Não fique esnobe, afinal você já é uma celebridade.
Ela olha para o relógio e se levanta
—É melhor irmos para não perder o filme.