Capítulo 6

1040 Words
Ouço três batidas fortes na porta enquanto observo os corpos ensanguentados. A mesa está com a poça do sangue do Pablo, o vermelho escarlate escorre e pinga no chão. ― Felipe! ― Kaue bate mais uma vez. ― O que está fazendo? Abre essa p***a. Caminho pela sala, desviando nos corpos e acidentalmente pisando no sangue, manchando o meu sapato. Viro os olhos irritado e abro a porta para o meu amigo. ― Cuidado para não tropeçar. ― Aviso, limpando o meu sapato na camisa de um dos mortos. ― O.que.você.fez? ― Não tem mais conselho. Disseram que estavam aqui para proteger, enfim, não protegeram ninguém. Todos demitidos. ― Você matou todo o conselho... ― Refletiu ―Felipe, eles vão te matar! ― Segurou meus ombros dando uma chacoalhada. Tentando me despertar, mas, despertar do que? ― Que coisa horrível, não é amigo? ― Meu Deus. ― Coloca as duas mãos na cabeça, olhando as carnes estiradas no chão. ― Deus não está aqui, amigo. Confie em mim. ― Bato em seu ombro antes de passar por ele. ― Onde você vai? ― Preciso dar um recado a todos. Antes que eu continuasse o meu caminho, ele me puxa com força pelo braço, fazendo-me virar para ele. Apenas duas vezes eu vi os olhos do Kaue em completo pânico: quando entramos em casa no dia do assassinato e hoje. ― Você só pode estar brincando! Não pode ir até lá! Você acabou de matar homens importantes, e adivinha só, lá embaixo temos até governadores. Agiotas dos piores tipos. Felipe, estamos em um covil que nem você será capaz de parar caso eles queiram a sua cabeça. ― Que a arranquem... Kaue ― O chamo, já de costas ― Ninguém sai da mansão. Continuo o meu caminho, ouço Kaue avisar a minha ordem no rádio e em seguida seus passos apressados atrás de mim. É claro, meu fiel escudeiro jamais me abandonaria no meio de uma guerra. Paramos no guarda-corpo da escada. Aquela que eu desci com a Rafaela na primeira noite da qual anunciei que eles tinham uma rainha. Eles a mataram. A música pausou quando o meu amigo pediu e todos os olhares da mansão se voltaram para mim. Acima de todos, como eu sempre achei que estava. Ingênuo. ― Não há mais conselho. Eu matei todos. ― Aviso. ― Que brincadeira é essa? ― Um deles pergunta. ― Não estou brincando. ― Traidor! ― Outro grita. ― Psicopata! ― Outro. ― Assassino. ― Outra. Alguns tentam correr, mas são barrados por seguranças nas portas. Ninguém iria sair daqui hoje. ― Estão esperando o que? Matem-no! ― Um audacioso grita. Dois tiros próximo ao meu ouvido faz com que eles apitem. As pessoas no andar de baixo se encolhem. ― Eu quero ver quem vai ser o primeiro a tentar! ― Kaue grita e o silêncio é instalado em todo o salão. Ruan para do outro lado, e atrás dele mais alguns seguranças. Todos sabiam que não eram apenas seguranças, eram assassinos profissionais, e para toda a cavalaria estar aqui, Enrico já sabia o que estava acontecendo. O caos foi instalado, e está sendo o meu momento favorito de hoje. Quase consigo ver a Rafaela deslizando pelo salão na primeira noite aqui, os passos curtos e curiosos. Os olhos chocolates por debaixo daquela máscara, sinto seu vasto cheiro, abrindo um buraco em meu peito. ― Precisamos ir embora! ― Kaue sussurra ao meu lado. ― Se eu for... nunca mais vou poder voltar... ― Não é mais o lugar que ela conheceu. ― Definitivamente, não. Tiro a arma e atiro no andar de baixo. Não quero saber em quem estou atirando, não estou mirando. Apenas quero machuca-los, quero fazer com que eles sintam o desespero que eu senti ao entrar na minha casa e ver o sangue do meu filho e da minha mulher espalhado por ela. Quero que eles afoguem com o próprio sangue. Quero que eles se sintam como eu me sinto. Sou imobilizado por dois homens, e na sequência sinto uma dor latente na minha testa, após receber uma coronhada do meu amigo. ― Tirem-no daqui agora! Levem para casa. Vão! ― É a última coisa que ouço, antes de desmaiar. HÁ UM MÊS ATRÁS ― Eu te amo! ― Ainda distante, ouço um sussurro. Em seguida, o cheiro, o corpo, e o ar saindo entre os seus lábios batendo contra a minha bochecha. Rafaela beija delicadamente meu queixo. ― Eu também te amo, linda. ― Hoje eu tive um sonho estranho. ― Conta, se aninhando no meu peito. ― O que sonhou? ― Ainda sonolento, a trago para mais perto, se isso era possível. ― Que você morria. ― Eu não vou morrer, amor. ― Sorrio, pelo tom da sua voz ― Jamais deixaria vocês dois. ― Vamos embora da cidade, por favor. ― Choraminga ― Vamos recomeçar. Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e Enrico entrou empolgado. Correu até a nossa cama, escalando o edredom até subir. O olho subir com seu favorito pijama de dinossauro. ― Bom dia, filho. ― Falo, enquanto ele se coloca entre eu e a mãe dele. ― Bom dia, papai. Tô com fome. A minha barriga está ronchando. ― Ronchando? ― Repito, antes de cair na risada com a Rafaela. ― Roncando, querido. ― Rafa o corrige carinhosamente. ― Essa noite eu fiquei com medo. ― Ele muda de assunto de repente. ― Por quê não veio para o nosso quarto, filho? Ou chamou o papai. ― Pergunto, acariciando seus cabelos macios e negros, cheirando a shampoo de bebê. ― Estava com o senhor Coelho, ele me protegeu. Papai, quer levar o senhor coelho para te proteger no trabalho? ― Ofereceu e eu sorri. Mas meu sorriso some quando vejo a Rafaela entortar a boca, triste. ― Prefiro deixa-lo com você, assim ele irá te proteger quando eu não estiver por perto. O que você acha? Ele poderá cuidar de você e da mamãe. ― Sim. Mas se um dia quiser a proteção, posso te emprestar também. Ele irá te proteger de homens maus. ― Tudo bem, filho. Irei lembrar disso. ― Beijo o alto da sua cabeça.
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