Ouço três batidas fortes na porta enquanto observo os corpos ensanguentados. A mesa está com a poça do sangue do Pablo, o vermelho escarlate escorre e pinga no chão.
― Felipe! ― Kaue bate mais uma vez. ― O que está fazendo? Abre essa p***a.
Caminho pela sala, desviando nos corpos e acidentalmente pisando no sangue, manchando o meu sapato. Viro os olhos irritado e abro a porta para o meu amigo.
― Cuidado para não tropeçar. ― Aviso, limpando o meu sapato na camisa de um dos mortos.
― O.que.você.fez?
― Não tem mais conselho. Disseram que estavam aqui para proteger, enfim, não protegeram ninguém. Todos demitidos.
― Você matou todo o conselho... ― Refletiu ―Felipe, eles vão te matar! ― Segurou meus ombros dando uma chacoalhada. Tentando me despertar, mas, despertar do que?
― Que coisa horrível, não é amigo?
― Meu Deus. ― Coloca as duas mãos na cabeça, olhando as carnes estiradas no chão.
― Deus não está aqui, amigo. Confie em mim. ― Bato em seu ombro antes de passar por ele.
― Onde você vai?
― Preciso dar um recado a todos.
Antes que eu continuasse o meu caminho, ele me puxa com força pelo braço, fazendo-me virar para ele. Apenas duas vezes eu vi os olhos do Kaue em completo pânico: quando entramos em casa no dia do assassinato e hoje.
― Você só pode estar brincando! Não pode ir até lá! Você acabou de matar homens importantes, e adivinha só, lá embaixo temos até governadores. Agiotas dos piores tipos. Felipe, estamos em um covil que nem você será capaz de parar caso eles queiram a sua cabeça.
― Que a arranquem... Kaue ― O chamo, já de costas ― Ninguém sai da mansão.
Continuo o meu caminho, ouço Kaue avisar a minha ordem no rádio e em seguida seus passos apressados atrás de mim. É claro, meu fiel escudeiro jamais me abandonaria no meio de uma guerra.
Paramos no guarda-corpo da escada. Aquela que eu desci com a Rafaela na primeira noite da qual anunciei que eles tinham uma rainha. Eles a mataram.
A música pausou quando o meu amigo pediu e todos os olhares da mansão se voltaram para mim. Acima de todos, como eu sempre achei que estava. Ingênuo.
― Não há mais conselho. Eu matei todos. ― Aviso.
― Que brincadeira é essa? ― Um deles pergunta.
― Não estou brincando.
― Traidor! ― Outro grita.
― Psicopata! ― Outro.
― Assassino. ― Outra.
Alguns tentam correr, mas são barrados por seguranças nas portas. Ninguém iria sair daqui hoje.
― Estão esperando o que? Matem-no! ― Um audacioso grita.
Dois tiros próximo ao meu ouvido faz com que eles apitem. As pessoas no andar de baixo se encolhem.
― Eu quero ver quem vai ser o primeiro a tentar! ― Kaue grita e o silêncio é instalado em todo o salão.
Ruan para do outro lado, e atrás dele mais alguns seguranças. Todos sabiam que não eram apenas seguranças, eram assassinos profissionais, e para toda a cavalaria estar aqui, Enrico já sabia o que estava acontecendo.
O caos foi instalado, e está sendo o meu momento favorito de hoje.
Quase consigo ver a Rafaela deslizando pelo salão na primeira noite aqui, os passos curtos e curiosos. Os olhos chocolates por debaixo daquela máscara, sinto seu vasto cheiro, abrindo um buraco em meu peito.
― Precisamos ir embora! ― Kaue sussurra ao meu lado.
― Se eu for... nunca mais vou poder voltar...
― Não é mais o lugar que ela conheceu.
― Definitivamente, não.
Tiro a arma e atiro no andar de baixo. Não quero saber em quem estou atirando, não estou mirando. Apenas quero machuca-los, quero fazer com que eles sintam o desespero que eu senti ao entrar na minha casa e ver o sangue do meu filho e da minha mulher espalhado por ela. Quero que eles afoguem com o próprio sangue. Quero que eles se sintam como eu me sinto.
Sou imobilizado por dois homens, e na sequência sinto uma dor latente na minha testa, após receber uma coronhada do meu amigo.
― Tirem-no daqui agora! Levem para casa. Vão! ― É a última coisa que ouço, antes de desmaiar.
HÁ UM MÊS ATRÁS
― Eu te amo! ― Ainda distante, ouço um sussurro.
Em seguida, o cheiro, o corpo, e o ar saindo entre os seus lábios batendo contra a minha bochecha. Rafaela beija delicadamente meu queixo.
― Eu também te amo, linda.
― Hoje eu tive um sonho estranho. ― Conta, se aninhando no meu peito.
― O que sonhou? ― Ainda sonolento, a trago para mais perto, se isso era possível.
― Que você morria.
― Eu não vou morrer, amor. ― Sorrio, pelo tom da sua voz ― Jamais deixaria vocês dois.
― Vamos embora da cidade, por favor. ― Choraminga ― Vamos recomeçar.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e Enrico entrou empolgado. Correu até a nossa cama, escalando o edredom até subir. O olho subir com seu favorito pijama de dinossauro.
― Bom dia, filho. ― Falo, enquanto ele se coloca entre eu e a mãe dele.
― Bom dia, papai. Tô com fome. A minha barriga está ronchando.
― Ronchando? ― Repito, antes de cair na risada com a Rafaela.
― Roncando, querido. ― Rafa o corrige carinhosamente.
― Essa noite eu fiquei com medo. ― Ele muda de assunto de repente.
― Por quê não veio para o nosso quarto, filho? Ou chamou o papai. ― Pergunto, acariciando seus cabelos macios e negros, cheirando a shampoo de bebê.
― Estava com o senhor Coelho, ele me protegeu. Papai, quer levar o senhor coelho para te proteger no trabalho? ― Ofereceu e eu sorri. Mas meu sorriso some quando vejo a Rafaela entortar a boca, triste.
― Prefiro deixa-lo com você, assim ele irá te proteger quando eu não estiver por perto. O que você acha? Ele poderá cuidar de você e da mamãe.
― Sim. Mas se um dia quiser a proteção, posso te emprestar também. Ele irá te proteger de homens maus.
― Tudo bem, filho. Irei lembrar disso. ― Beijo o alto da sua cabeça.