DIAS ATUAIS
Desperto no meu quarto da mansão dos meus pais, minha cabeça está latejando constantemente e ao colocar a mão sinto um curativo, a claridade anuncia o Sol, tenho a sensação de uma noite m*l dormida, porém é a primeira vez que consigo dormir. O único machucado é na testa, mas sinto todo o meu corpo dolorido. Levanto, a tontura vem mas logo passa, sento na cama e ouço a porta abrir.
- Desculpa pelo machucado. - Kaue pede e eu afirmo com a cabeça.
- Acho que eu mereci.
- Mereceu.
- E a mansão? - Pergunto, por mais que já imagine a resposta.
- Acabou, cara. Seu pai já mandou demolir tudo e em 24h não vai ter mais nada lá além de destroços. Definitivamente não existe mais. Sua mãe me deu ordem para não permitir sua saída, ela soube de Patrocínio. Imagino que tenha encostado um dos homens na parede...
- E você disse o que?
- Nada. Mas o carro tá pronto pra irmos.
- Estou descendo. - Aviso e ele sai.
Entro no banheiro e vou me despindo, preciso urgentemente de um banho. Receio desmaiar no chuveiro, pela dor, mas preciso da água quente no meu corpo.
Novamente, busco dor por ter tirado tantas vidas, busco dor pelo luto, busco os meus sentimentos que estão escondidos e somente a raiva se apresenta. Quero sentir pelo menos um pouco de culpa pelas famílias que receberam a notícia da morte, pelos corpos que não vão ser achados, mas não consigo sentir nada além do alívio em fazer outra pessoa sentir a mesma dor que eu já senti um dia.
Saio do chuveiro e vejo o visor do meu celular aceso, uma ligação perdida, ignoro imaginando ser o Kaue e vou ao guarda roupa pegar uma troca de roupa. Tiro um jeans escuro e visto, novamente o celular. Vejo o número privado e sorrio ao imaginar quem seria.
- Cassandra. - Atendo com uma falsa felicidade e com os nervos à flor da pele.
- Você matou metade da mansão! - Sua voz sai amedrontada e me enoja. - Você esquartejou o Joel!
- Você sempre faz o dever de casa, não é?- Abro o outro lado, tirando uma blusa social azul marinho. - Imagino que saiba que estou atrás de você, não deve ser nenhum segredo.
-Felipe. - Suspira, ouço ela chorar baixinho.
- Ora, Cassandra! Ora!
- Você realmente a amava, não é? - Fala entre o choro
- Cuidado, Cassandra. - Trinco os dentes sentindo meu maxilar doer.
- Eu vou te contar uma coisa. Mas em troca, pelo amor de Deus, não vem até nós. Esqueça que existimos, por Deus Felipe! Nos esqueça. Me de sua palavra, Felipe.
- Nada vai poupar vocês, eu vou achá-los.
- Talvez eu tenha algo. Mas antes, você precisa me dar a sua palavra que vai parar com essa busca incansável.
Bato na porta do quarto da minha mãe e do meu pai, abro e a vejo sentada na sua poltrona olhando pela sacada. Mesmo longe, vejo seus ombros tensos e as mãos trêmulas.
- Mãe?
- Hum? - Sai dos devaneios e levanta rapidamente. - Oh filho, como está? - Pergunta aproximando-se. - Hum, esse curativo está bom. Sabe porque aprendi a fazer? Por causa do seu pai.- Sorri triste e beija minha bochecha.
- Você era feliz, mãe? - Pergunto, e ando até a varanda.
- Claro, filho.
- Mas você reclama da época da mansão, né? - Olho o horizonte e retorno ao quarto, ela ainda está no mesmo lugar. - Digo, o que mais odiava lá?- Ando até a lareira.
- A morte das mulheres inocentes, o tempo e a vida do meu marido sempre estar por um tris, a falta de segurança com você.
- A Rafaela reclamava da mesma coisa.- Comento, continuo andando, paro na outra poltrona e vejo sua bolsa em cima dela.
- Querido...- Seus ombros caem.
Algo dentro da bolsa chama a minha atenção, a cor, o tecido, o formato. Meu estômago embrulha no mesmo instante, meus dedos apertam com força a poltrona.
- Filho, você está se sentindo bem? - Pergunta preocupada.
- Só um pouco de dor. - Recomponho o ar e tento me acalmar. - Ainda temos aquela casa no Rio de Janeiro?
- O que? - Confusa, se aproxima.
Afundo a minha mão com força na sua bolsa e tiro o coelho do Enrico.
- Onde isso estava? Revirei a casa toda e não achei, pensei por um instante que teriam levado, até porque o Enrico não largava isso a não ser quando era pra me proteger. Do que ele quer te proteger, mãe!? - Balanço o coelho na cara dela, o cheiro trás a lembrança do meu filho.
- Felipe.
- É lá não é? - Grito com ela, seus passos recuam e sinto meus olhos arderem. - É lá que eles estão escondidos? No Rio.
- Filho, você não entende... - As lágrimas escorrem rápidas pelo seu rosto.
- Eu não entendo? - Grito furioso. - Eu sou capaz de te dar um tiro nesse exato momento..- suas mãos vão até a boca e o choro fica alto.
- Filho não é o que...
- CALA BOCA! Não abre essa maldita boca se não eu não tenho certeza se consigo me controlar. - Sinto cada centímetro do meu corpo tremer, sinto frio e calor ao mesmo tempo, dor, muita dor. - É lá que eles estão!?
Ela afirma com a cabeça e eu grito, grito para tentar tirar toda a dor e raiva de mim e não fazer uma desgraça com a minha própria mão. Grito para que tente aliviar um pouco dessa aflição.
- Por que? - Seguro seus braços magros.
- Ela descobriu que estava sendo seguida. - Começa aos prantos, explicando com pressa. - Como você não acreditava, ela me ligou. Pedi a um dos homens do seu pai ir até a mansão e vasculhar, encontrou no escritório do Tales todas as fotos que você viu. Eu fui pessoalmente a casa deles, disse o que sabia e mandei eles sumirem se não eu os mataria, eles não pensaram duas vezes, já que eu estava supostamente morta, não duvidaram da seriedade. Eles sabiam que você iria atrás deles, mas optaram pela sorte de não serem achados, tiveram a vantagem do aviso. Foi a gota pra Rafaela, ela já estava cansada de te implorar para ir embora, de avisar o quanto estava infeliz com essa vida e com medo pela vida do Enrico. Eu aceitei ajudá-la, você só os deixariam se fosse para a morte, então teria de ser convincente. Eu, ela e a Kimberly arrumamos tudo. Era sangue falso, sabíamos que a sua dor não o deixaria prestar atenção nisso. Achamos que assim você abandonaria a mansão, íamos contar...
- Você consegue se ouvir? Você...Você realmente tem noção do que está falando sua maldit...
- Eu sei!- Gritou. - Não ouse me xingar! Ela teve que usar a própria morte para conseguir escapar de você, para proteger seu próprio filho. Então não ouse me xingar, pois se eu pudesse teria feito a mesma coisa com teu pai! Eu sinto todo dia a dor do seu luto, não durmo, não como, sofro diariamente com você! Mas não vou arriscar a vida de uma mulher inocente e do meu único neto, porque você segue a mesma ideologia do teu pai.
- Eu vou buscar meu filho.- Falo friamente. - Já que você tem o contato direto com ela, é melhor ela não fugir e isso é uma ameaça.- Respiro com dificuldade, a adrenalina no meu corpo não deixa eu respirar normalmente. - Eu não quero te olhar nunca mais, esquece que você tem filho e neto, eu odeio você de uma forma que eu nunca odiei nada na vida. Você nem de longe sofreu comigo, porque você não sabe um terço do que eu senti, você criou um monstro.
Saio transtornado do quarto, sem reação, sem direção.
Kaue está parado do lado de fora com os olhos esbugalhados e vermelhos. Não digo nada, não tenho o que dizer.
- Vamos buscá-lo.- Ele fala e eu afirmo com a cabeça.
- Eu vou matar a Rafaela. - É a única coisa que consigo falar.
- Não seja precipitado. - Aconselha enquanto caminhamos rapidamente para as escadas.
- Filho! - Minha mãe chama, eu ignoro mas ouço seus saltos nos alcançarem. Logo sua mão puxa meu braço com força. - Não faça nada com ela! - Implora segurando o meu braço, não consigo olhar pra ela. - Por favor, Felipe! Ela fez isso pelo Enrico. Sua família está viva e a salvo, graças a ela!