O observava sob meu livro, ele trabalhava em alguma edição de foto, não sei ao certo, me perdi totalmente na conversa, no livro e em qualquer coisa que fiz ou pensei em fazer desde que sentamos neste café.
— Acho que o Pedro mandou mensagem — ele balançou meu celular depois que disfarcei e voltei a reler pela vigésima vez uma frase do livro — Parece importante, vibrou muitas vezes — ele não parecia muito feliz.
Peguei o celular de sua mão para olhar, eram fotos dele com sua namorada Mônica.
— Olha que lindinhos — Mostrei as fotos e ele sorriu — Ela voltou agora para o Brasil, acho que eles não se viam desde o começo do ano.
— Bastante tempo! — olhou seu relógio — Falando em tempo, precisamos ir para não nos atrasarmos, prevejo que teremos muitas coisas para resolver.
— Voltando a realidade… — me levantei primeiro para ajudá-lo, seu pé não estava cem por cento ainda, mas o médico disse que não seria necessário engessar, caso ele não fizesse muito esforço. Com certeza, o médico não o conhece.
— Sabe, eu até que tô gostando de depender de você para andar — ele disse enquanto andávamos que nem tartarugas até o outro lado da rua.
— Queria poder dizer o mesmo — eu ri — Olha o teu tamanho… Não! Não pode ser verdade — ele me encarou sem entender — Uma das minhas bandas favoritas vai vir tocar aqui, olha — apontei para o outdoor — Mas já deu “sold out”— soltei o braço dele.
— Eles são realmente bons — ele concordou comigo.
— Você gosta?
— O quê? Se eu gosto? Eles são icônicos — ele disse — Tenho ingressos para esse show tem mais de um mês.
— “Ingressos” no plural?
— Tinha comprado para família toda. Somos extremamente fãs deles — ele contou.
— Quanto você quer por eles?
— Dinheiro nenhum pode pagar! Mas aceito uns beijos em troca.
— Não seja por isso — o beijei rapidamente.
— Eu pensei ter dito “uns” — eu ri da cara dele — Se eu soubesse que seria tão fácil arrancar um beijo seu, já teria comprado muitos ingressos.
— Dei o número de beijos correspondente a quantos ingressos preciso.
— Mas e os outros, achei que você iria querer dar para os recém-casados.
— E quando que ficou acordado que eles viriam?
— Possivelmente eu falei com o Chris esta manhã, ele me contou que mentiu para Liz que eles não viriam, pois planejava uma surpresa.
— Já estão amigos assim?
— Espero que sim!
— Bom, se eles vem mesmo e quiserem os ingressos que te beijem!
— Certeza? Porque eu não me importaria…
— Não termine esta frase — o interrompi e ele riu.
— Vemos que não sou o único enciumado da relação. Mas, de qualquer maneira, realmente precisamos ir.
Concordei e seguimos nosso caminho até o escritório. Durante todo o percurso até nos separarmos para nossas respectivas tarefas, eu estive pensando sobre como tudo isso está acontecendo, chego até pensar o quanto fui tola por demorar tanto para perceber e expor como me sentia. Imagino quais seriam as justificativas para o meu medo de admitir meus sentimentos, mas, agora que tudo está se encaixando, não sei se devo me culpar pela demora, precisava passar por estas fases até me permitir viver esse amor.
— Terra chamando a distraída, alô, alô — Laurine estava acenando e me chamando — Ela acordou afinal! Estava com saudades da minha chefinha.
— Chefinha — sorri abertamente — me conta, como foram as coisas?
— Um caos, sem vocês parecia que nada andava… Nem lembrava ter tantas dúvidas na vida e sabe o que é mais engraçado? Você tinha tudo previsto naquele PDF detalhado que você deixou para mim antes.
— Lau, você é tão dramática! Está tudo em dia e você deu conta de tudo, se esse é o caos, quero habitar nele para sempre.
— HAHAHA, mas preciso te falar algo, notícia antiga, mas, acho que alimentará seu ego, naquele período de férias que você PRECISOU tirar, eu nunca vi o John tão autoritário, se as pessoas reclamavam de você, pagaram com a língua na vez dele — explicou — Ele sempre dizia, que se você estivesse aqui, teria feito em menos tempo e com mais riquezas de detalhes. Foi espetacular! — não consegui conter o riso e ela me acompanhou.
— Como eu fui boba, Laurine! — permaneci rindo.
— Como assim? O que aconteceu?
— Eu devia ter percebido antes, como fui cega — minha barriga chegou a doer de tanto riso.
— Se você me explicar, vou agradecer de joelhos!
— Estou rindo porque, todo esse tempo eu neguei o quanto estava gostando do John, preferindo mentir para mim mesma, simplesmente por ter medo do desconhecido.
— Anne, para tudo! Estou ouvindo direito?
— Está sim! Estou me permitindo viver isso, ainda não sei ao certo o que significa, mas estou disponível.
— Chérie, já que você abriu aqui, vou falar também! Você foi cega mesmo! Nunca falei nada por respeito e educação, sem contar que, eu assisto a tantos filmes românticos que eu poderia estar criando uma história na minha cabeça — ela contou.
— Você fez bem em não ter dito nada, às vezes precisamos dar tempo ao tempo.