03.

1584 Words
Beatriz Minha mãe estava linda como sempre, com um sorriso no rosto. Parecia até 10 anos mais nova. Entrei em casa, e as coisas pareciam estar no mesmo lugar, mas ainda sim pareciam ser tão diferentes. Assim como na casa dos pais do Joca, aqui também tinha muitas fotos espalhadas pela casa, a estante não estava mais ali, a televisão estava na parede, e tinha apenas um pequeno movel em baixo dela. O sofá era outro, maior do que o que tínhamos. A cozinha era a mesma, mas o microondas também era novo, ainda bem, porque o antigo estava prestes a explodir toda a casa. Fiquei observando tudo. Tentando reconhecer as coisas que estavam diferentes e as coisas que ainda eram as mesmas. Mas parece que nada é como era antes, ainda mais eu e minha mãe. Ela foi pro lado da cozinha e eu me sentei no banco em frente ao balcão. Na geladeira havia varias fotos minhas em Nova York, assim como havia muitas dela com o Paulo e o filho dele. Acho que ele fez muito bem pra ela, ainda nesse período que estive fora, ainda mais agora que eu não moro mais aqui. — Você está mais bonita. — falei olhando pra ela que abriu um sorriso. — Fiz botox. — ela disse rindo. — Não era disso que eu estava falando. Mas nem parece. — falei e demos risada. — Eu sei, é que depois que você foi embora, me dei conta que eu agora era mãe de um jovem mulher muito independente e que eu já podia começar a viver a vida pra mim. — ela disse. — Fez bem. — falei e fiquei olhando pra ela. — Como você e o Paulo estão? — perguntei. — Estamos bem. Temos uma viagem marcada em algumas semanas, ele até me disse pra chamar você, mas acho que você vai estar ocupada com as coisas do casamento. Você já marcou a data? — ela disse. Minha mae não gosta dessa ideia de casamento. Eu sei disso mesmo sem ela dizer uma palavra sequer. Eu sei que ela não queria isso pra mim, mas também sei que ela me quer feliz e sabe que só irei ser se estiver com ele, então quando se trata do meu casamento ela prefere não falar no assunto, ou então quando falo ela fingi uma felicidade apenas pra não me magoar. — Marcamos a data hoje. Mas na verdade não sou eu quem vai cuidar da organização das coisas, eu quero evitar estresse então a mãe do Joca contratou uma equipe pra isso. — falei. — Não há nada que o dinheiro deles não possa pagar. — ela disse baixo, mas ainda sim ouvi. — Você não precisa fingir que gosta da ideia do meu casamento, mas não precisa agir assim. — falei. — Agir como? Quer que eu fique calada vendo você afundar a sua vida, assim como a sua vó fez? — ela disse apontando o dedo pra mim. — Como você ia fazer, se meu pai não fosse dado como morto. Já pensou se seu pai não tivesse tentado matar ele? Quem você seria mãe? Seria a esposa de um cara da máfia, estaria do outro lado da lei. — falei olhando pra ela. — Nem você e nem eu sabemos como isso ia acabar, mas sabemos como você vai acabar. — ela disse. — Ótimo, espero que acabe bem longe de toda essa energia que você joga sobre mim. Já não basta eu ter que lidar com um pai que eu não conheci durante 20 anos da minha vida, a mentira sobre quem é a minha mãe e agora eu tenho que ouvir as coisas que você acha que vai me acontecer. — falei e me levantei. — Tudo bem, eu não quero mais falar nisso. — ela disse e ficou me olhando. — Tarde demais. — falei e peguei a minha bolsa. — Por favor não vai embora. Droga não foi assim que eu achei que ia ser o nosso dia. — ela disse e passou pelo balcão. — Nem eu, mas olha só, é assim que vai ser. — falei. — Eu tinha tantas coisas pra te contar filha. Por favor fica. — ela disse vindo na minha direção e eu fui em direção a porta. — Não, acho que já deu a minha hora. — falei e abri a porta. — Eu e o Paulo vamos nos casar. — ela disse e mostrou o anel de noivado. — Que bom, pelo menos uma de nós vai ser feliz de verdade. — falei e passei pela porta. Liguei pra Maya, porque ela era a única que podia me buscar naquele momento. Não foi assim que eu imaginei meu dia com a minha mãe depois de passar um ano e meio longe de casa, eu tinha tantas coisas legais pra contar pra ela, mas como sempre toda essa história sobre minhas escolhas e sobre as escolhas que ela fez no passado sempre vem átona e nos atrapalha, eu sempre tento manter a pedra nisso, mas é ela mesma que tira e começa a dizer coisas que ela acha certo. Mesmo sabendo que a alguns anos era ela no meu lugar e que ainda seria ela se o próprio pai não tivesse tentado matar o pai da filha dela, e não tivesse matado o próprio filho. Mas a errada de toda essa história sou apenas eu. Maya parou o carro na esquina aonde eu estava, entrei no carro e ela não disse nada. Acho que pela primeira vez eu posso dizer que tenho uma relação estável com ela, durante o meu ano fora não nos falamos muito, ainda tinha algumas coisas sobre a outra que não queríamos saber e muito menos falar, mas tivemos que superar isso pra tentar ser uma família. — As coisas não saíram como esperado? — ela perguntou quando já estavamos no meio do caminho. — Não, nem um pouco. — respondi. — Bom, você não está sozinha nessa, minha mãe parou de falar comigo desde quando eu decidi tentar conhecer melhor o meu próprio pai. — Maya disse. — Ela age como se ela fosse totalmente certa nessa história. — falei. — Não sei se tem alguém certo nessa história toda, nem sua mãe, nem a minha, nem o nosso pai e muito menos a gente. — ela disse. — Eu sei, e eu tento não falar sobre isso, eu tento esquecer todas as coisas erradas que eles fizeram e que eu fiz, mas parece que ela gosta de me lembrar as minhas escolhas e as minhas mentiras, como se ela não tivesse mentido pra mim a vida toda. — falei encarando a minha própria mão. — Eu sei. Eu percebi o quanto você ficou confusa com tudo isso que você e eu soube naquela época, mas agora eu vejo o quanto você está madura e está tentando viver com todas essas duvidas. Diferentes de mim, que apenas procuro por mais respostas, custe o que custar. — ela disse rindo. — Como pode a gente ser tão diferentes e ainda ter o mesmo sangue. — falei rindo. Chegamos na casa do nosso pai, que também é a casa da Maya, ela não mentiu quando disse que estava tentando conhecer ela. Acho que ela se esforça muito mais do que eu quanto a isso. Assim que chegamos nosso pai também chegou, ele nos viu sentadas a mesa da sala de jantar tomando café da tarde e fez uma cara engraçada de surpresa. — Oi filhas. — ele disse e veio na nossa direção. Ele nos deu um beijo na testa. — Tudo bem? — perguntei. — Sim. — ele respondeu sorrindo. — Que bom, o Joca já deve ter te contado, mas marcamos a data do nosso casamento. — falei. — Ah ele me disse sim, perguntou também se eu já tinha ido ver o terno pra sua formatura. Eu disse que ia te perguntar que cor você quer que eu use. — ele disse se juntou com a gente na sala de jantar. — Eu vou usar vermelho. Falei pro Joca usar um cinza e a gravata vermelha pra combinar com o meu vestido. Eu tinha falado pra minha mãe usar azul, mas já sei se ela vai. Você pode usar azul também pai e gravata você escolhe a cor, você também pode usar azul Maya. — falei. — Ainda bem que eu fico bem de azul. — Maya disse sorrindo. — Eu também fico lindo de azul, ainda mais marinho. — meu pai disse rindo. Depois do café da tarde, Joca mandou um carro vim me buscar. Amanhã eu tenho mais uma prova de vestido. Mariane vai usar rosa e a Gabi vai usar verde musgo, que depois que nos mudamos pra Nova York se tornou a cor favorita dela. Assim que cheguei em casa tomei um banho, Joca estava mexendo no celular. — Como foi o dia com a sua mãe? — ele perguntou depois de me dar um beijo na testa. — Podemos não falar sobre isso? — perguntei e ele fez cara feia. — Tudo bem, você que manda. — ele disse e deu um beijo na minha mão e ficou me olhando. — Obrigada. — falei e me encaixei no abraço dele. Senti o seu corpo quente, ouvir o seu coração bater e saber que eu tenho ele, é a melhor coisa do mundo. Depois de tudo que passamos, merecemos isso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD