João Carlos
Domingo foi um dia e tanto.
Com direito a festa do Lucas e minha linda noiva colando algumas mulheres no lugar delas. Coisa que eu nunca pensei que veria, mas eu vi, e ainda ouvi a Gabi dizer que Beatriz disse às mulheres que ela sabia usar uma arma. E realmente sabe.
Mas tudo que é bom dura pouco e, depois de domingo vem segunda, e às segundas nós trabalhamos, igual a todos os dias do resto da semana. Com ou sem ressaca, meu pai não se importa com isso desde que estejamos lá pra trabalhar.
E por falar em trabalho. Hoje eu tenho uma coisa que eu não faço a muito tempo. Muito tempo mesmo! Tivemos uma carga de armas roubadas, depois de uma intercepção policial, no qual meu pai conseguiu resolver, mas ficou muito, muito nervoso ao saber que as cargas teriam sido vendidas pra um rival, então agora meu pai está com raiva, tanta raiva que seria capaz de derrubar um carro forte com a sua metralhadora, mas como ele já aposentou das suas missões de campo, ele vai mandar alguém pra se f***r no lugar dele. E o sorteado da vez foi eu, JP e Túlio.
— Eu não sei porque eu trabalho pra vocês ainda, eu só me meto em enroscada. — Túlio disse fazendo cara feia.
— Porque você é um cara muito legal, que não vai deixar os filhos do seu chefe irien sozinhos pra um negócio desse. — JP disse dando um tapinha no ombro dele.
— É isso aí, porque você é um bom amigo e um bom trabalhador. — falei dando um tapinha no outro ombro dele.
Na verdade ele só veio, porque sabe o quanto eu o JP conseguimos piorar qualquer situação e tudo acabar em um banho de sangue, mas desde o acidente que me fez perder a memória eu tenho evitado esse tipo de trabalho, por isso que eu meu pai me mandou pra esse, porque segundo ele eu tenho ficado "mole e fraco". Eu realmente não entendo o que ele quer dizer com isso, já que matar pessoas não me deixa mais forte e não me faz mais homem, ainda mais agora que eu tenho com quem me preocupar, assim como o JP que perdeu a esposa e ganhou mais um filho no último ano da nossa vida. A última coisa que queremos é nos meter em problemas como estes.
Mas parece que meu pai não faz questão de entender que agora temos nossa própria família e que queremos lutar pra mantê-los bem e longe de todas essas coisas difíceis do nosso trabalho, já que não temos a opção de sair fora de tudo isso.
Chegamos no local, deixamos o carro longe, e eu já pude ver alguns caras armados, o que me deixou bem chateado, porque pelo visto a conversa em paz que eu queria ter, não vai acontecer. Abri o porta malas do carro e peguei duas armas e apontei pra casa.
— Isso vai ser mais chato do que eu pensei. — falei.
— Acho que vamos precisar de reforço, caso as coisas saiam do controle. — JP disse pegando mais uma arma também.
— Pode deixar. — Túlio disse e tirou o celular do bolso.
Tirei meu paletó e coloquei no banco de trás do carro, arrumei meu cinto e fiquei olhando pro meu celular, vendo a minha foto com a minha linda noiva que hoje está no seu primeiro dia de trabalho. Tudo o que eu quero e acabar logo com isso e voltar pra casa, tomar um banho e deitar a minha cabeça em seu colo enquanto eu ouço ela me contar sobre o seu dia e me fazendo esquecer o quanto o meu foi um saco.
Eu só quero voltar pra ela no fim do dia, é só disso que eu preciso, então bloqueio a tela do celular e coloco no bolso, olho pra minha arma, verifico as balas e depois coloco ela na cintura.
— Você fica uma graça de suspensório. — JP disse rindo e puxou uma alça do meu suspensório que bateu no meu peito
— Você também fica uma graça com um olho roxo, i****a. — falei e ele caiu na risada
— Eles já estão a caminho. — Túlio disse e colocou o celular no bolso e a arma na cintura.
— Tudo bem, podemos ir então. — JP disse olhando pra casa.
Eu só preciso voltar pra ela.
É a única coisa que ecoa na minha cabeça. Assim como:
Vai sair tudo como planejado.
Digo isso mesmo sabendo que eu tenho uma bomba relógio do meu lado e que a qualquer momento ele pode ter um surto de raiva e atirar em todo mundo e, é isso que me deixa muito menos tranquilo do que eu queria estar.
Assim que paramos na frente da casa, apertei a campainha. Mas ninguém respondeu. Então eu apertei outra vez e o portão se abriu. Olhei pra câmera de segurança que estava ligada e senti um frio na espinha. Levei a mão atrás da cintura, mas recuei.
Entramos, e um cara armado veio na nossa direção, ele não parecia muito amigável.
— O que vocês querem? — ele perguntou.
— Falar com o seu chefe. — respondi.
— Quem são vocês? — o cara perguntou.
— Os donos da carga roubada que ele está vendendo por aí. — JP disse e eu olhei pra ele.
O cara deu uma risada irônica
— Acho que vocês chegaram bem tarde, não sobrou nada. — ele disse e cruzou os braços na frente do corpo.
— Bom, isso vai ser um grande problema pro seu chefe, ele sabe quem somos. — falei.
— Você também deveria saber. — JP olhou pra ele.
Percebi que ele já estava com a mão em uma das armas. Era disso que eu estava falando, menos conversa e mais tiros, com ele é sempre assim, esse lado sóbrio dele surpreende até mesmo eu, que sou como ele.
Encosto levemente em seu braço e ele me olha. Túlio não diz nada apenas observa o lugar.
O rádio do cara faz barulho e ele o coloca no ouvido e logo depois nos olha. Sua cara não era boa, estava entre assustado e raivoso.
— Era o seu chefe? — perguntei.
— Era, e ele disse que não tem nada pra falar com vocês, então é melhor caírem fora. — ele disse apontando pro portão atrás da gente.
— É uma pena que seu chefe tenha escolhido essa opção. — JP disse.
Em fração de segundos ele retirou a arma da cintura e disparou na perna do cara, que fez ele soltar um enorme grito de dor e desespero, o que acabou assustando até mesmo eu e o Túlio.
— Merda, era pra ser algo tranquilo. — falei e levei as mãos na cabeça.
— Trabalho errado. — JP disse me olhando.
Respirei fundo e tive que me lembrar como eu era antes, antes da Beatriz, antes do choque, antes de sentir que eu poderia ser diferente e antes de eu me tornar diferente. Então respiro fundo, tentando me afastar do cheiro de sangue fresco. Me abaixo até o cara que ainda está gritando de dor.
— Onde está o seu chefe? — perguntei
— Vai se f***r. — ele respondeu.
— Resposta errada. — falo pegando a sua arma e batendo aonde JP havia atirando, fazendo ele gritar ainda mais alto. — Vou perguntar de novo, onde está o seu chefe?
— Você pode dar quantos tiros você quiser babaca, vai ter que entrar pra descobrir. — ele disse apertando a perna que estava sangrando.
— Ótimo, espero que o exército dele esteja todo lá dentro, porque já já uns amigos vão chegar e eles não costumam pedir licença pra entrar. — falei e me levantei.
Com a arma dele atirei na outra perna. Senti aquela raiva me consumir, como antes, queimar as minha entranhas, me fazendo gostar disso, fazendo o meu corpo queimar, como se a casa disparo a minha sede e fome fossem saciadas.
— Acho que deveríamos nos separar. — Túlio disse.
— Eles não estão espalhados, estão todos lá dentro em um só lugar. — falei apontando pra janela mais alta da casa.
— Olha aqui seu filho da p**a, eu acho bom você estar usando todas as armas que você roubou da gente, porque eu juro que quando eu entrar aí e te achar, você vai me implorar pra te matar rápido depois que eu te cortar inteiro. — JP diz usando o rádio do capanga baleado.
— p**a kerda em JP, você não sabe controlar essa sua raiva mesmo. — falei e tirei o rápido da mão dele e joguei em cima do cara que já nem aguentava mais gritar de dor.
— Você é um frouxo Joca, e isso não é culpa da Beatriz é sua que não sabe conviver com o fardo de ter nascido nessa família de merda que temos. Mas eu sei lidar com isso, então toda a raiva que eu sinto eu desconto neles e depois eu posso ir pra casa tranquilo. — ele disse e engatilhou a arma.
Não disse nada, apenas fui andando em direção a casa, porque de algum modo havia muita verdade no que ele disse, e ter que admitir isso me dá raiva.