Lorena narrando
Eu tentava me mexer mas não conseguia, eu tentava falar mas não saia o som, era como se eu tivesse agora de olho aberto, escutando tudo ao meu redor, vendo mas não conseguisse me comunicar.
A única coisa que eu conseguia mexer era os meus dedos.
— Lorena – a voz do meu pai soa ao meu lado – você está me escutando? – eu tento virar meu olhar para ver ele mas era algo bem difícil de fazer – eu estou aqui, estamos todos aqui, você está viva e vai ficar bem – eu sinto a sua boca em minha testa.
— Mamãe – escuto a voz e sinto um rostinho na minha frente – a senhora acordou – ela diz sorrindo.
— Eu acho melhor deixar ela absorver tudo aos poucos – sinto uma voz conhecida mas não conseguia identificar.
— Leva ela Alexandre – Meu pai fala
— Não – ela diz
— É melhor deixar a gente examinar – uma outra voz fala.
As vozes eram muito próximas e minha cabeça começa a doer, começam a encostar em mim, fazem exame nos meus olhos , começam a espetar os meus pés para ver se eu tinha reação e eu ainda estava zonza de mais, meus olhos estão pesados mas eu não queria fechar, estava com medo de dormir e não acordar mais.
Patricia narrando
1 mês depois
O fisioterapeuta tinha que ficar aqui 24h por dia, eram mais de 4 revezando durante o dia, de segunda a segunda, Melissa falava algumas palavras apenas com ajuda fonadiologa que ficava aqui de manhã até a noite ajudando ela, tirando que exame de sangue e raio x era feito todos os dias.
Ela estava se alimentando por sonda porque ainda não lembrou como se mastigava, ela falava pouca coisa e era nítida que a presença de Maju a tranquilizava, ela tinha que tomar remédio para dormir porque ela ficava agitada , gemia e tentava se mexer, até mesmo levantar sozinha. Ela estava usando fralda porque ainda era difícil movimentar ela até o banheiro, tomava banho de lenço porque ainda não tinha força suficiente para ficar sentada em uma cadeira.
— Aa – eu olho para Lorena que estava emitindo som.
— O que você quer meu amor? – eu pergunto me aproximando.
— Ag- ela tenta emitir som mas vejo sua boca seca e percebo que ela queria água.
Ela ainda não conseguia tomar água porque ela se engasgava, ela esqueceu como se engolia, eu pego um gases e molho passando na sua boca e a mesma chupa a água do gases.
Ela aponta com um dedo para o desenho da Maju.
— Você quer ela? – Lorena assente com a cabeça.
— Ela está no balé, quando ela chegar ela vem aqui, ok? – ela pisca os olhos duas vezes. – você está com calor? – ela pisca uma vez – com frio? – ela pisca duas vezes – vou buscar mais uma coberta.
Era muito triste ver ela nessa situação, mas era muito melhor ver ela acordada do que desacordada em cima de uma cama.
Marcos narrando
Faz um mês que eu sonho com a Lorena todas as noites, eu não sei porque, ela tinha voltado com tudo na minha cabeça depois de tantos anos, de mais de 4 anos, eu voltei a sonhar com ela todas as noites.
— Marcos – Rafaela me chama – estou falando com você.
— Oi – eu olho para ela
— Onde você está com a cabeça?
— Problemas do morro.
— Estou falando das meninas que estão com catapora.
— O médico passou remédio?
— Passou, mas está um surto no morro, precisamos fazer algo. Os médicos do posto estão despreparados.
— Podemos contratar mais um. Eu vou pedir para Th ir atrás disso.
— E podemos pedir que os moradores cuidem os filhos e não deixe sair.
— Isso, vou fazer o alerta.
— Mariana não está tanto mas a Alicia. – ela resmunga
— Estão dormindo?
— Agora sim, passamos um dobrado eue Joana.
— Vou ir lá ver elas – eu falo dando um beijo na testa de Rafaela - toma seu café tranquila, toma seu banho que eu cuido delas, vai descansar.
— Você também está cansado.
— Essss duas terroristas cansam bem mais que o morro todo – ela sorri – quem cuida de nós também precisa descansar meu amor.
— Eu amo você – ela fala se levantando e me beijando.
— Eu também - eu passo a mão pelo rosto dela e sorrio.
Eu subo até o quarto das meninas e vejo elas dormindo, no andar de cima a gente tinha feito uma mini cozinha para preparar o leite delas, deixo tudo preparado para se elas acordarem, eu já tinha tomado banho e me deito na cama que tinha ali vendo as duas dormirem no berço, elas eram tão lindas e diferente uma da outra, uma puxou a Rafaela e a outra a mim.
Eu era tão feliz por ter as três em minha vida que não entendo porque a Lorena voltou aos meus pensamentos bem agora depois de tanto tempo.
Alexandre narrando
3 meses depois...
Lorena já estava sentando e até mesmo conversando, ela faz fisioterapia todos os dias para conseguir recuperar os movimentos.
— Nós vamos dar uma saída para jantar – Pedro fala – vamos deixar Lorena sobre o olhar da enfermeira.
— Pode irem tranquilos – eu falo para ele e para Patricia – vocês precisam respirar também.
— Qualquer coisa você nos liga – Patricia fala.
— Eu vou pegar Maju daqui a pouco para dar janta e tomar banho – eu falo e eles assentem
Patricia dar milhões de recomendações e eu assinto com a cabeça, não teria contato imediato com a Lorena por causa das enfermeiras.
Maju se despede de Lorena e depois vem me encontrar na porta.
— Minha mãe está bem – ela fala.
— Está melhorando cada vez mais – eu respondo
— Daqui a pouco ela vai sair daquela cama e poder brincar comigo.
— Vai – eu respondo
— Eu estou feliz que ela acordou, você não vai ver muito ela , você não gosta dela? – Maju pergunta
— É claro que eu gosto – eu falo
— Se ela é minha mãe, ela é sua esposa – ela fala
— Eu gosto dela, agora vamos dormir.
Maju assente, eu canto para ela dormir e ela adormece em meus braços, depois a babá sobe para dormir com ela e eu desço, encontrando a enfermeira de Lorena.
— Meu filho está passando m*l e preciso ir embora – ela fala – a Lorena precisa da janta.
— Como assim? – ela me olha
— Preciso ir – ela fala saindo desesperada.
Eu caminho até a porta do quarto de Lorena, a mesma me encara.
— A enfermeira saiu – ela fala , Lorena já estava falando tudo e rápido.
— Ela disse que você ainda precisa jantar – eu falo me aproximando – Patricia saiu e seu pai também.
— Maju?
— Está dormindo, acabei de colocar.
— Não vejo a hora de poder colocar ela para dormir também – Lorena fala e eu a encaro.
— Essa é sua janta? – eu falo olhando para sopa.
— Infelizmente sim – ela fala – sopa não é janta, acho que é um carma na minha vida. – eu abro um sorriso de canto.
— De toda vez que você reclamava que eu mandava fazer sopa para jantar.
— E você fazia isso para me incomodar – ela fala e eu me aproximo dela com a bandeja.
— Eu fico feliz que você esteja melhorando.
— Talvez eu não consiga nunca andar – ela fala
— Mas está viva e isso e um milagre.
— Cheia de sequelas.
— Mas está viva e com a Maju, desde que ela entendeu que você era mãe dela, ela esteve aqui todos os dias esperando você acordar – ela me olha com os olhos cheios de lagrimas.
— Eu a escutava cantando – ela fala – tum tum tum – ela sorri – mas náo conseguia abrir os meus olhos.
— Ve se está boa a temperatura – eu falo para ela.
— Está. – ela responde.
E eu vou dando a sopa para ela, Lorena nunca comentou do dia que a encontramos para ninguém, ela sempre diz que lembra muita pouca coisa , quase nada.
— Eu posso te pedir uma coisa?
— Sim – eu respondo
— Me dar um banho – eu a encaro – é humilhante te pedir isso depois de tudo, mas eu não consigo ainda ficar firme e quem me dar banho é a enfermeira com ajuda da Patricia e é super rápido, e eu preciso de um banho relaxante.
— É claro que eu te dou banho – eu falo
— Obrigada, eu jamais achei que iria te pedir ajuda.
Eu pego a cadeira de rodas, coloco ao lado da cama, ela se segura em mim e se senta lentamente, ela desce com um pé e depois com o outro, eu a deixo de pé mas ela se firma em mim, ela se senta na cadeira e eu levo até o banheiro, encho a banheira que tinha e depois ajudo ela a tirar a camisola, coloco ela dentro da banheira.
— Acho que eu consigo me lavar – ela fala – só me dar a esponja.
Eu a entrego a esponja com sabonete e ela pega na mão, ela tinha muita dificuldade de levantar os braços e fazer movimentos normais, e ela dobra o braço para passar a esponja nela mas ela geme de dor e m*l conseguia mexer ele, eu vejo seus olhos se enchendo de lagrimas.
— Dói muito – ela fala baixo deixando que as lagrimas caia – isso e´humilhante de mais.
— Deixa que eu te ajudo – eu falo encostando a minha mão na dela – pode baixar , eu passo em você. – ela me olha e eu pego e começo a passar a esponja pelo seu corpo , levantando os seus braços passando por baixo deles, depois pelas costas – a água está boa?
— Sim – ela fala
Eu solto os seus cabelos passo o shampoo e depois tiro com a água, passo o creme no seu cabelo da mesma forma que passava em Maju, eu sinto as lagrimas descendo em seu rosto.
Acho que esse era o pior castigo que a Lorena poderia receber na vida dela.