Assim que saí do banheiro, encontrei o look que Yasmin havia separado sobre a cama. Fiquei estupefata. Era um estilo que eu jamais tivera no meu guarda-roupa - não por falta de vontade, mas por pura imposição da minha mãe.
Passei a toalha macia pelo corpo mais uma vez e comecei a me vestir. Admito que, ao segurar a calcinha de renda preta, minúscula e cavada, a voz da minha mãe ecoou na minha mente com uma de suas frases favoritas: "Você vai direto para o inferno se usar uma coisa dessas". Senti um frio na barriga. Aquela era a primeira vez que eu tinha a audácia de tocar em uma peça tão provocante e sexy sem o pânico constante de que ela invadisse o meu quarto a qualquer segundo para me chamar de pecadora.
Balançando a cabeça, espantei o fantasma do moralismo materno e terminei de me vestir. Ao olhar para o pé da cama, avistei o calçado escolhido. Era uma mistura bizarra de salto fino com uma base geométrica.
- Céus, que monstruosidade é essa? - sussurrei, pegando o sapato. O salto era fino na base, mas terminava em um formato triangular grosso, como um bloco. Uma tendência de moda futurista que eu decididamente não conseguia engolir.
Sem querer perder mais tempo com aquela bizarrice estética, joguei os saltos de volta no tapete. Com os pés descalços tocando o piso frio, caminhei até o closet com portas de correr espelhadas. Deslizei a porta esquerda e encontrei fileiras de roupas sob medida e lençóis de linho impecáveis. Fechei e abri a folha direita: ali estavam prateleiras repletas de perfumes importados, paletas de maquiagem de marcas luxuosas e, finalmente, os sapatos. Sem pensar duas vezes, pesquei um par de meias invisíveis e um tênis casual branco, de couro legítimo, absolutamente perfeito. Sentei-me na cama e os calcei.
Ao me postar novamente diante do espelho de corpo inteiro, notei algo crucial: até a minha postura havia mudado. Antes, pelo hábito de viver curvada sobre os livros em qualquer canto, eu tinha os ombros caídos. Agora, minha coluna mantinha-se naturalmente ereta, o que conferia ao meu novo corpo uma elegância quase aristocrática.
Soltei o cabelo do coque improvisado que fizera para o banho e o choque retornou. Não fora apenas o comprimento que mudara. Meu cabelo antes era um castanho opaco e sem vida - já que, por insistência da minha mãe, eu nunca havia tocado em uma gota de química ou tinta. Agora, os fios ostentavam o mesmo tom castanho, porém com um brilho espelhado magnífico e mechas sutis, ligeiramente mais claras, que iluminavam o meu rosto.
- Além da aparência, o que mais mudou em mim? - perguntei ao meu reflexo, deslizando os dedos pelas maçãs do rosto proeminentes. - Será que eu ainda sou a mesma por dentro?
Examinei o look completo. A combinação valorizava cada centímetro da minha nova silhueta. O top tomara que caia branco, que na minha versão de dezesseis anos literalmente despencaria pela total ausência de curvas, agora sustentava-se perfeitamente. A calça jeans de alfaiataria, justa e de cintura alta, abraçava minhas pernas de forma impecável; minhas coxas estavam nitidamente mais grossas e torneadas, e meu bumbum exibia um formato muito mais redondo e definido.
- Será que tudo isso é genética tardia ou eu gastei uma fortuna em cirurgias? - indaguei-me, mas o quarto permaneceu em silêncio, sonegando-me as respostas.
Suspirando para aplacar a ansiedade, vesti a jaqueta jeans de lavagem clara que combinava com a calça, peguei a bolsa de couro branco texturizado disposta ao lado e, após uma última olhada de aprovação no espelho, saí do quarto.
Cruzei um pequeno corredor de circulação e desemboquei em uma sala de estar monumental, decorada em tons fendi e off-white. Nicole estava acomodada em uma poltrona de design minimalista, os dedos ágeis digitando freneticamente na tela de um smartphone que parecia grande demais para as mãos dela.
Isso é um celular ou um tablet de última geração?, indaguei-me, chocada com a tecnologia.
- Até que enfim - Nicole disparou assim que notou a minha presença. Ela bloqueou o aparelho com um clique e o guardou em uma bolsa tiracolo preta de grife, levantando-se em seguida. - Podemos ir?
- Pegue. Qualquer coisa a gente belisca algo no shopping - Yasmin surgiu de um dos cômodos laterais, estendendo-me uma caixinha de água de coco gourmet assim que se aproximou.
- Obrigada - assenti, a voz saindo automática enquanto eu tentava disfarçar o quão perdida me sentia.
Com passos apressados e decididos, as duas seguiram em direção à porta social, obrigando-me a alcançá-las. Ao cruzarmos o portal, percebi que o elevador social abria diretamente no hall do apartamento. Era um edifício de altíssimo padrão.
Assim que o elevador nos deixou no subsolo, meu coração deu um salto violento ao avistar o veículo em que Yasmin desativava o alarme. Eu não entendia absolutamente nada de engenharia automotiva, mas aquele carro exalava pura ostentação. Era um modelo superesportivo, de quatro portas, pintado em um tom de amarelo vibrante e agressivo. Não me surpreendeu em nada pertencer a ela; Yasmin sempre verbalizara o desejo de ter um carro amarelo cintilante, alegando que "as pessoas precisavam saber exatamente o momento em que ela estava chegando".
Assim que nos acomodamos no interior revestido de couro legítimo, decidi iniciar um campo de testes psicológicos. Eu precisava extrair informações vitais sem levantar suspeitas. Eu jamais poderia confessar que minha mente havia saltado cinco anos no tempo; elas me internariam em um hospício.
- Nossa, quase que eu estraçalho o estofado com essa água de coco - menti, fingindo um deslize e segurando a caixinha com força deliberada.
- Pelo amor de Deus, Stella! No meu carro novo não! - Yasmin me repreendeu instantaneamente, lançando-me um olhar severo e focado através do retrovisor interno.
- Relaxa, Yaz. Eu disse quase - esbocei um sorriso de canto, saboreando a reação.
Certo. Pelo visto, estamos ostentando uma vida excelente, concluí mentalmente, interligando os pontos entre a arquitetura do apartamento, o acervo do meu closet e o padrão daquele automóvel.
[...]
À medida que o carro cortava o fluxo urbano, a constatação me atingiu como um soco: nós definitivamente não estávamos mais em Portland. Eu conhecia cada esquina daquela cidade pacata, e seria plasticamente impossível que ela sofresse uma metamorfose daquela magnitude. Foi apenas quando o veículo adentrou uma avenida colossal, saturada por um fluxo ensurdecedor de pedestres e cercada por telões luminosos que rasgavam o céu, que a ficha finalmente caiu.
Nova York. Mais especificamente, a Times Square.
Como eu vim parar em Manhattan? E, mais intrigante ainda... como consegui me livrar das garras da minha mãe?, os pensamentos fervilhavam enquanto meus olhos escaneavam a publicidade opulenta dos prédios. Foi então que um letreiro digital específico, de proporções faraônicas, confiscou a minha atenção:
ORTEZ ENTERPRISES HOLDINGS, INC.
Não precisei de muito esforço cognitivo para correlacionar o império corporativo ao nome do magnata que Yasmin mencionara no quarto. Movida por uma curiosidade magnética, peguei o meu celular - que descobri desbloquear apenas com o reconhecimento da minha própria face - e pesquisei o nome no Google.
O resultado foi avassalador. A seção de imagens estava saturada de capas de revistas financeiras. Não era apenas uma aparição isolada; ele era uma constante no topo do mundo corporativo.
"Dimitri Ortez consolida a 8ª posição entre os 15 homens mais poderosos e ricos do planeta", destacava a manchete da Forbes, ilustrada pela fotografia de um homem de presença esmagadora.
Ele vestia um terno de alta costura perfeitamente alinhado ao porte físico robusto e imponente. Os cabelos eram curtos, em um tom de castanho-claro disciplinado, e as feições eram dominadas por um maxilar esculpido e rígido. Mas foram os olhos - de um azul-claro gélido e cirúrgico - que me fizeram prender a respiração. A expressão dele na foto denotava uma seriedade implacável, o semblante de alguém que controlava o mundo ao redor com um mero estalar de dedos, mesmo parecendo relaxado diante da câmera.
Outras manchetes flutuavam pela tela do meu celular:
"Descubra como Dimitri Ortez fatura US$ 100.000 por hora."
"O titã dos investimentos: conheça o homem que avalia seu patrimônio pessoal em US$ 2,2 bilhões graças ao próprio faro empresarial."
Eram dezenas de artigos, perfis e colunas sociais detalhando a fortuna obscena e o prestígio daquele homem. E, de acordo com o que Yasmin dissera, amanhã à noite eu estaria cruzando o mesmo tapete vermelho que ele.
Um calafrio percorreu a minha espinha, misturando medo puro e uma excitação eletrizante que eu jamais havia experimentado em toda a minha vida.