Clima tenso

784 Words
Era dia de treino aberto no galpão. Música alta, gente rindo, todo mundo relaxado depois da sessão. Lucas apareceu só para supervisionar — ou pelo menos era isso que ele dizia para si mesmo. Mas quando entrou, o ar saiu do peito. Vanessa estava lá. Usava o mesmo r**o de cavalo, mas dessa vez com um sorriso leve, diferente… um sorriso que não era pra ele. Ramon estava ao lado dela, ainda suado do treino, passando gelo no ombro. Eles riam de alguma piada que Lucas não ouviu. Victor percebeu na hora. — Se controla — murmurou, mas Lucas nem respondeu. Vanessa olhou em direção à porta e viu Lucas. Por um segundo, o mundo parou. Nenhuma provocação. Nenhum sorriso afiado. Só um olhar rápido — que disse tudo: "Você sumiu. Eu entendi." Mas então Ramon chamou a atenção dela de volta, brincando: — Então vai me dar sorte na competição ou não? Vanessa riu, empurrando ele de leve com a luva que ainda carregava. — Se você não desmaiar igual hoje, talvez. Os soldados gargalharam. Lucas ficou imóvel, o maxilar travado. Victor murmurou: — Não faz besteira. Mas aí aconteceu rápido. Ramon, animado demais, disse alto: — Me dá um beijo de sorte então! Foi brincadeira. Todo mundo sabia. Mas Vanessa viu Lucas encarando. E em vez de recuar, ela segurou o rosto de Ramon com as duas mãos… E beijou ele. Não foi longo. Não foi apaixonado. Foi intencional. Foi uma resposta. Foi pra Lucas. O galpão inteiro ficou em choque por dois segundos — até explodir em gritos e zoeira. Ramon ficou vermelho, sem saber onde enfiar a cara. Vanessa apenas deu um sorriso pequeno, controlado… como quem finalmente recuperou o poder. Lucas sentiu o chão sumir. Não piscou. Não respirou. Só ficou parado. Victor tocou o braço dele: — Vamos embora. Mas Lucas não se moveu. Vanessa finalmente olhou para ele — não com desafio, mas com algo muito pior: indiferença controlada. O dia passou, a noite o galpão já estava vazio . Vanessa estava guardando as luvas, tentando fingir normalidade, mas as mãos tremiam de leve. Ela ouviu os passos dele antes mesmo de virar. Quando se virou, Lucas já estava ali. Não bravo. Não exaltado. A pior versão possível: calmo demais. Vanessa tentou sorrir. — Se veio dar parabéns pro Ramon, ele merece— Lucas cortou. — Por que você fez aquilo? A voz não era alta, mas atravessou ela inteira. Vanessa desviou o olhar, tentando manter a pose. — Foi só uma brincadeira. Todo mundo achou graça. Lucas deu um passo pra frente. — Eu não tô falando deles. Tô falando de você. Vanessa cruzou os braços. — Você sumiu. Fingiu que eu nem existia. Eu só… segui em frente. Lucas riu — um riso sem humor nenhum. — Seguir em frente é viver sua vida. Não é usar alguém pra me atingir. Vanessa travou. Lucas continuou, firme, olhando direto nos olhos dela: — Você beija quem você quiser. Mas hoje… não foi sobre ele. Foi sobre mim. Ela abriu a boca pra responder, mas nada saiu. Lucas respirou fundo. — Eu tava tentando fazer o certo, Vanessa. Tentando não confundir você. Não criar algo que eu não posso sustentar agora. Ele baixou os olhos por um instante — como se doesse admitir. — Mas você transformou isso num jogo. Vanessa sentiu o estômago gelar. — Eu só… fiquei com raiva — ela disse, a voz finalmente baixa, sem armadura. Lucas balançou a cabeça. — Não foi raiva. Foi infantilidade. Foi como um tapa silencioso. Vanessa recuou um passo, sem perceber. Os olhos arderam. — Então é isso? — ela sussurrou. — Eu perdi você… por causa de um erro? Lucas demorou para responder. — Não foi o beijo. — disse, devagar. — Foi o que ele significou. Silêncio pesado. Vanessa sentiu o coração despencar — porque pela primeira vez, não havia provocação, nem disputa, nem jogo. Era real. — Eu não queria te machucar — ela disse, quase num fio de voz. Lucas olhou para ela com algo triste demais para ser raiva. — Mas machucou. Vanessa fechou os olhos por um segundo, tentando segurar as lágrimas que nunca deixava ninguém ver. Quando abriu, Lucas já estava virando para ir embora. — Lucas… espera. Ele parou — mas não virou. Vanessa engoliu seco. — Eu não quero perder você. Lucas fechou os olhos, como se aquela frase fosse um peso. E respondeu, sem olhar: — Não se perde o que nunca teve . E saiu. Vanessa ficou sozinha no galpão vazio — sem aplausos, sem risadas, sem público. E foi ali, no silêncio, que finalmente entendeu: não era ele que ela tinha ferido. Era ela mesma.
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