Eloá Narrando
O sol tava forte, daqueles que faz o quintal inteiro ficar iluminado e quente. Eu e a Amanda estávamos lá fora, perto do varal, tirando as roupas que já tinham secado.
O vento batia de leve nos lençóis, fazendo o tecido balançar enquanto eu ia tirando tudo com cuidado.
Amanda tava do meu lado, tirando as blusas e jogando no balde.
Hoje ela não foi pra faculdade.
— Tá tendo umas paralisação na pista — ela tinha me explicado mais cedo.
Aqui no morro quando acontece isso é sempre a mesma coisa.
Ninguém desce.
Nem estudante.
Nem trabalhador.
Porque quando a pista fecha, significa que alguma coisa errada tá acontecendo lá embaixo.
E o melhor a fazer é ficar quieto dentro de casa.
Sempre foi assim.
Eu já tô acostumada com essas regras silenciosas do morro.
Peguei uma camiseta do varal . A gente tava conversando de coisa boba.
Sobre um filme que tinha passado na televisão na noite anterior. Sobre uma receita que dona Lindalva queria testar.
Coisas simples.
Normais.
E isso era uma das coisas que eu mais gosto aqui.
Nem a Amanda, nem a dona Lindalva.Nunca tinham me perguntado o que realmente tinha me trazido pra cá, pra casa do Ceifador.
E eu juro. Isso é um alívio enorme.
Porque falar sobre isso significa reviver tudo de novo.
Meu pai, a dívida. A Filipa.
Ser entregue como se eu fosse uma coisa.
Então o silêncio delas era quase uma forma de carinho.
Peguei uma toalha grande e comecei a dobrar, pra dar mais espaço no balde.
Foi quando Amanda ficou quieta por alguns segundos.
Percebi pelo canto do olho que ela tava me olhando.
Depois de um momento ela falou.
— Eloá.
Levantei a cabeça.
— Oi?
Ela hesitou um pouco antes de continuar.
— É verdade o que dizem no morro?
Meu coração deu um pequeno salto.
— E O que dizem no morro?
Ela desviou o olhar pro varal enquanto tirava uma roupa.
— Que meu irmão te pegou numa dívida.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. O vento passou pelo quintal, balançando as roupas restantes no varal.
Respirei fundo.
Não tinha sentido mentir.
— Sim, é verdade.
Amanda parou o que tava fazendo e me olhou de novo.
Eu segurei o pano que tava nas minhas mãos e continuei.
— Meu pai devia dinheiro ao seu irmão.
Minha voz saiu mais baixa.
— Eu, não sei exatamente a quantia, nem quanto tempo tem a dívida.
Baixei os olhos.
— Não tive tempo de conversar com ele sobre isso.
A verdade é que tudo aconteceu rápido demais.
Confuso demais.
Levantei o olhar de novo.
— Só sei que ele devia.
Engoli seco antes de terminar.
— E a Filipa me deu pro Ceifador, como pagamento da dívida.
Amanda ficou em silêncio por um momento. Depois soltou o ar pelo nariz.
— Robson é um babaca de ter aceitado isso.
Eu não consegui evitar uma pequena risada. Porque uma parte de mim queria concordar com ela.
Mas outra parte sabia que aquilo podia trazer problema.
Então só dei de ombros.
— É…
Preferi não falar mais nada.
Às vezes o silêncio é a melhor resposta.
A gente terminou de tirar o resto das roupas do varal.
Amanda pegou o balde cheio e eu fui atrás dela até a porta dos fundos.
Entramos na casa e colocamos tudo em cima da mesa da lavanderia.
Eu comecei a separar algumas peças quando ouvi a voz de dona Lindalva vindo do corredor.
— Eloá, filha.
Virei o rosto.
Ela tava parada na porta dos fundos olhando pra mim.
— Oi, dona Lindalva?
Ela limpou as mãos no avental antes de falar.
— Tem gente na sala querendo falar contigo.
Franzi a testa, confusa.
— Comigo?
Ela assentiu.
— É o advogado do Robson.
Na mesma hora senti meu coração acelerar dentro do peito. Por que ele quer falar comigo?
Minhas mãos ficaram um pouco frias de repente.
Olhei rapidamente pra Amanda, que também parecia surpresa.
Respirei fundo tentando me acalmar.
Mas a verdade é que um monte de pensamentos começaram a correr pela minha cabeça.
Será que aconteceu alguma coisa? Será que o Ceifador mandou algum recado?
Ou pior.
Será que ele tinha mudado de ideia sobre tudo?
Passei as mãos nas laterais do short, tentando disfarçar o nervosismo.
Depois olhei pra dona Lindalva.
— Ele quer falar comigo agora?
Ela assentiu de novo.
— Tá te esperando lá na sala.
Meu coração continuava batendo forte enquanto eu caminhava pelo corredor.
Porque naquele momento eu tive uma certeza.
Se o advogado do Ceifador queria falar comigo. Alguma coisa importante está prestes a acontecer.
Meu coração ainda tava acelerado quando eu atravessei o corredor da casa.
Amanda veio do meu lado, e dona Lindalva caminhava logo atrás da gente. Quando chegamos na sala, vi dois homens sentados no sofá.
Um deles eu reconheci na hora, quando meus olhos bateram nele, um arrepio passou pelo meu corpo inteiro.
Eu lembrava daquele rosto.
Foi ele. O mesmo homem que me arrastou naquela madrugada.
Minhas mãos ficaram frias na hora.
Mesmo assim eu respirei fundo e me aproximei devagar.
— Boa tarde. — falei baixo.
O advogado se levantou educadamente e estendeu a mão.
— Boa tarde, Eloá.
Eu apertei a mão dele, meio sem jeito.
Ele não perdeu tempo com conversa. Foi direto ao ponto.
— Eu preciso dos seus documentos.
Franzi a testa, confusa.
— Meus documentos?
Ele assentiu.
— Sim.
Abriu a pasta que tinha trazido.
— O Ceifador, pediu que você vá visitá-lo no presídio.
Meu corpo inteiro travou.
— O quê?
Minha voz saiu quase como um sussurro.
Ele continuou falando como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Na verdade, ele exige a sua visita.
Senti meu coração disparar no peito.
— Não. — falei balançando a cabeça.
— Eu… eu não quero ir.
O medo subiu pela minha garganta como um nó.
— Eu não quero ir em presídio nenhum.
O advogado ainda ia falar alguma coisa, mas o homem que estava com ele se levantou primeiro.
E quando ele falou, a voz saiu fria.
— Você não tem escolha.
Olhei pra ele com os olhos arregalados.
— Ninguém tá te perguntando nada.
Ele cruzou os braços.
— A gente só tá afirmando.
Minhas pernas ficaram fracas.
— Mas eu…
As lágrimas começaram a cair antes que eu conseguisse terminar a frase.
— Eu não quero…
Comecei a chorar de verdade.
Desespero puro.
— Eu não quero ir pra presídio nenhum.
Amanda veio rápido até mim e me abraçou forte.
— Calma… calma…
Eu agarrei ela como se fosse a única coisa que me mantinha de pé.
— Eu não quero ir. — repeti chorando.
Amanda suspirou e falou baixo no meu ouvido.
— Eloá.
Ela apertou meu ombro com cuidado.
— Não é bom desobedecer meu irmão.
Aquilo fez meu coração apertar ainda mais.
Eu sabia que ela não tava dizendo aquilo por mäl.
Ela tava tentando me proteger.
Mas mesmo assim, eu só conseguia sentir medo.
Muito medo.
Chorei mais alguns segundos até conseguir respirar melhor.
Limpei o rosto com as costas da mão.
Depois subi devagar as escadas. Minhas pernas pareciam pesadas.
Entrei no quarto, fui até a bolsa onde eu guardava minhas poucas coisas e peguei meu RG.
Fiquei olhando aquele documento por alguns segundos.
Meu nome, minha foto.
Minha vida.
Respirei fundo e desci novamente.
Quando voltei pra sala, o advogado ainda tava sentado conversando baixo com o outro homem.
Estendi o documento com a mão tremendo.
— Aqui.
Ele pegou o RG e guardou dentro da pasta.
— Obrigado.
Depois se levantou.
— Em breve eu retorno com tudo resolvido.
Franzi a testa.
— Tudo, o que?
Ele assentiu calmamente.
— O cadastro da visita.
Fechou a pasta.
— Domingo já tem visita no presídio.
Meu coração deu outro salto.
— Você precisa se preparar.
Ele continuou como se estivesse falando de algo simples.
— Fazer uma comida pra levar pra ele. E também separar alguns itens de higiene pessoal.
Fiquei olhando pra ele sem acreditar. Parecia que alguém tinha jogado um balde de água gelada em cima de mim.
Eles se despediram de dona Lindalva e Amanda e foram embora.
Quando a porta da casa se fechou, o silêncio tomou conta da sala.
Eu fiquei parada no meio do lugar. Sentindo as lágrimas voltarem de novo.
Balancei a cabeça devagar.
— Eu não quero ir.
Minha voz saiu fraca.
Mas no fundo do meu peito eu já sabe uma coisa.
Ninguém ali estava realmente me dando escolha. Apenas, Cumprindo Ordem.