08 - Eloá

1505 Words
Eloá Narrando Eu não faço ideia de quanto tempo fiquei naquele quarto. Sério mesmo. Parecia que o relógio tinha parado. Depois que o cara veio aqui falar que o Ceifador tinha sido preso, o silêncio tomou conta da casa inteira. Ninguém subiu, ninguém falou comigo, ninguém bateu na porta de novo. E eu fiquei Sozinha. No começo eu fiquei sentada na cama, abraçando as pernas, tentando entender tudo que tava acontecendo. Minha cabeça tava uma bagunça. Só que depois de um tempo outra coisa começou a me incomodar. Fome. Meu estômago roncou tão alto que eu mesma ouvi. — Ai, meu Deus. Passei a mão na barriga. Eu também tava com sede, a boca seca, parecia que eu não bebia água fazia dias. Eu olhei pra porta do quarto várias vezes. Pensando em descer. Pensando em procurar água. Mas o medo não deixava. — E se tiver cheio de homem lá embaixo? Murmurei sozinha. Eu não conheço ninguém nessa casa. Não sabia quem podia aparecer. Não sabia como iam me tratar. Então preferi ficar ali. Quietinha, do jeito que o homem tinha mandado. Só que o tempo foi passando, e meu corpo começou a ficar estranho. Uma tontura leve apareceu. Minha cabeça ficou pesada. — Acho que eu tô passando mäl. Levantei da cama, mas o quarto girou um pouco. Voltei a sentar, Respirei fundo. Mas a fraqueza só aumentava. Então eu deitei de novo. — Só vou descansar um pouquinho. Fechei os olhos, e sem perceber. Apaguei. Quando acordei, ouvi uma voz. — Ei, garota. Demorei um segundo pra entender que alguém tava no quarto. — Ei! Abri os olhos assustada. Uma garota tava parada perto da cama. Eu me sentei rápido. — Quem é você? Ela me olhou sorrindo. — Sou Amanda. Assenti devagar. Eu não conhecia ela, mas já tinha ouvido falar. A irmã do Ceifador. — A vovó tá te esperando lá embaixo. Franzi a testa. — Vovó? Ela deu um sorriso pequeno. — Na cozinha. Respirei fundo e levantei da cama. — Me dá só um minuto? — Claro. Fui direto pro banheiro. Lavei o rosto na pia. A água gelada ajudou a acordar. Olhei meu reflexo no espelho. Eu estou acabada. Olheira, cabelo todo bagunçado. — Que situação, Eloá. Murmurei. Peguei meu cabelo e fiz um coque rápido. Não era nada bonito, mas pelo menos tirava aquele aspecto de desespero. Saí do banheiro. A garota ainda tava esperando. — Bora? — Bora. Saímos do quarto juntas e começamos a descer a escada. A casa é grande. Bonita até. Mas aquilo ainda não me deixava confortável. No meio da escada ela falou: — Como é seu nome? Olhei pra ela, e respondi. — Eloá. Ela continuou: — Sou irmã do Robson. Franzi a testa. — Quem? Ela riu. — O Ceifador. — Ah… Balancei a cabeça devagar. Nem sabia que o demönio tinha nome de gente. Mas claro que eu não falei isso. Não sou maluca. Chegamos na cozinha e um cheiro maravilhoso de comida bateu no meu nariz. Meu estômago roncou na mesma hora, Amanda percebeu e deu um sorriso. — Senta aí. Eu me sentei na mesa meio sem graça. Foi quando uma senhora apareceu na porta da cozinha. Ela me olhou, e abriu um sorriso tão doce que eu fiquei até surpresa. — Mas olha só. Ela se aproximou devagar. — Que menina linda. Eu sorri sem jeito. — Obrigada. Ela colocou a mão na cintura e falou: — Satisfação, minha filha. Eu sou Lindalva. Depois completou: — A vó do cachorro que botou você nessa situação. Eu quase ri, Sério. O jeito que ela falou foi tão natural que eu não sabia se ria ou se ficava preocupada. Ela continuou: — Mas relaxa. Sentou numa cadeira. — O advogado já tá trabalhando pra trazer ele de volta. Meu coração deu uma apertada. Voltar? Eu nem sabia se aquilo era bom ou ruïm. — Agora vem comer — ela disse. Levantei e peguei um prato na pia. Coloquei arroz, Feijão. Carne. Salada. Sentei de novo. E comecei a comer. Meu Deus. Tava uma delícia. Eu comi tudo. Sem deixar nada no prato. Quando terminei, dona Lindalva falou novamente. Ela me olhou com atenção. — Olha só, minha filha. Cruzei as mãos na mesa, meio nervosa. Ela continuou: — Eu não confio em deixar você sozinha aqui. Meu coração bateu mais rápido. — E o Robson não gosta que eu me meta nas coisas dele. Ela suspirou. — Senão eu te levava lá pra minha casa. Amanda encostou na pia ouvindo tudo, então dona Lindalva completou: — Então eu e a Amanda vamos ficar aqui até ele voltar. Eu arregalei um pouco os olhos. — Sério? Ela assentiu. — Já ouvi sua história toda. Depois apontou o dedo na mesa. — E fica tranquila. A voz dela ficou firme. — Ninguém aqui vai te julgar. Outra pausa. — Nem apontar o dedo pra você. Ela sorriu de novo. — Tá entendendo? Eu senti um alívio enorme dentro do peito. Quase deu vontade de chorar. Porque a verdade é que eu tava morrendo de medo de ficar naquela casa sozinha. — Obrigada. Murmurei baixinho. Dona Lindalva levantou da mesa batendo as mãos no avental, como se já tivesse decidido alguma coisa. — Bora, Amanda. Vamos lá em casa rapidinho pegar umas coisas. Amanda assentiu na mesma hora. Eu levantei também, meio sem saber o que fazer. — Eu, vou junto? Dona Lindalva balançou a cabeça. — Não precisa não, minha filha. É pertinho, coisa rápida. Amanda completou: — Cinco minutinhos a gente tá de volta. Mesmo assim, eu fiquei meio insegura. — Tá bom. Elas saíram, me deixando sozinha na casa de novo. Assim que a porta fechou, o silêncio voltou a dominar tudo. Suspirei fundo. — Sozinha outra vez. Subi devagar pro quarto e fui direto pra janela. Abri um pouco a cortina. Dava pra ver boa parte do morro dali. As casas empilhadas umas nas outras. As vielas estreitas. Algumas motos passando. Gente andando como se nada tivesse acontecido na madrugada. Como se aquela guerra toda tivesse sido só mais um dia comum. Eu apoiei os braços no parapeito da janela. Respirei fundo. O ar quente da tarde entrou no quarto. Levantei os olhos pro céu azul, Limpo. Tão tranquilo. Tão diferente do caos que tava aqui embaixo. Engoli seco. — Pai. Murmurei baixinho. — Por que o senhor fez isso comigo? Senti meus olhos encherem de lágrimas. — Por que me deixou sozinha no mundo? Meu pai sempre foi tudo pra mim. Meu apoio, meu amigo. E agora, eu tô aqui. Preso numa casa de um traficante. Sem saber o que vai acontecer com a minha vida. — Eu só queria estudar. Minha voz saiu quebrada. — Só queria seguir meu sonho. Limpei uma lágrima que escorreu pelo meu rosto. Fiquei ali olhando o morro por mais alguns minutos. Tentando não pensar demais. Tentando não entrar em desespero. Foi quando ouvi vozes lá embaixo. A porta abrindo. Meu coração deu um pulinho de alívio. — Graças a Deus. Desci rápido as escadas. Amanda e dona Lindalva tinham acabado de entrar. Amanda tava carregando uma sacola grande. — Voltamos! Ela colocou as coisas em cima da mesa da sala. — Trouxe umas roupas pra tu. Me aproximei curiosa. — Pra mim? — Uhum. Ela abriu a sacola e tirou algumas peças. — Nada chique não, mas dá pra usar. Peguei uma das blusas nas mãos. — Que linda. Amanda riu. — E não é só isso. Ela puxou outra sacola. — Trouxe um monte de coisa pra gente fazer unha. Depois tirou vários potinhos e máscaras. — E skincare também. Eu arregalei os olhos. — Sério? — Claro. Ela piscou pra mim. — Ninguém merece ficar nesse estresse sem se distrair. Eu dei uma risadinha. Fazia tempo que eu não ria de verdade. Amanda então se aproximou um pouco mais de mim e falou num tom mais baixo. — Mas deixa eu te avisar uma coisa. Fiquei atenta. — Sobre o quê? Ela cruzou os braços. — Tu só tem que tomar cuidado com a Iara. Franzi a testa. — Quem é Iara? Amanda revirou os olhos. — Uma maluca aí. Depois completou: — Ela é obcecada pelo meu irmão. Ah. Ótimo. Exatamente o tipo de problema que eu preciso. Amanda continuou: — Se ela aparecer aqui. Dona Lindalva, que tava ouvindo tudo, respondeu da cozinha: — Eu dou é vassourada naquela vagabünda! Eu quase engasguei de rir. Amanda também riu. — Tá vendo? Depois voltou a falar comigo. — Só tô te avisando porque no morro inteiro já sabem que tu tá aqui. Meu estômago deu uma leve apertada. — Todo mundo? Amanda assentiu. — Aqui notícia corre mais rápido que moto. Suspirei devagar. — Maravilha. Ela colocou a mão no meu ombro. — Relaxa. Depois sorriu. — Enquanto a vovó tiver aqui, ninguém mexe contigo. Eu respirei fundo. E pela primeira vez naquele dia. Senti que talvez eu tivesse um pouco de proteção nesse lugar.
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