Eloá Narrando
As lágrimas escorriam pelo meu rosto sem que eu conseguisse controlar.
Eu nem tentava mais limpar.
De que adiantava?
Meu braço ainda doía onde o vapor tinha me segurado enquanto me arrastava morro acima. Cada passo que eu dava parecia pesado, como se minhas pernas não quisessem mais obedecer.
Quando a porta se abriu e eu fui empurrada para dentro da casa do Ceifador, senti um nó se formar na minha garganta.
A primeira coisa que notei foi o silêncio.
Um silêncio estranho para um lugar no topo do morro.
Eu olhei ao redor devagar.
A casa era, bonita.
Muito bonita.
Grande. Organizada. Móveis caros, sofá enorme, televisão gigante presa na parede, quadros modernos decorando o ambiente. O chão brilhava como se tivesse acabado de ser limpo.
Nada parecia com o que eu imaginava da casa de um chefe do tráfico.
Não tinha bagunça. Não tinha sujeira. Parecia casa de gente rica do asfalto.
Mas aquilo era o que menos me importava.
Nada ali mudava o fato de que eu estava presa.
Meu coração ainda batia descompassado quando ouvi passos.
Passos pesados, lentos.
Firmes. O som vinha da escada.
Meu olhar subiu automaticamente.
E então eu o vi.
Um homem moreno descia os degraus com calma, como se tivesse todo o tempo do mundo. Ele era alto. Muito alto. de ombros largos. O corpo forte marcava sob a camiseta preta, como se cada movimento dele carregasse peso e controle.
Os olhos castanhos estavam fixos em mim.
Ele me encarava enquanto descia.
E eu, fiquei parada. Não conseguia desviar o olhar.
Meu coração batia cada vez mais forte dentro do peito.
Ceifador.
Então era ele.
Quando chegou ao último degrau, ele parou.
Ficamos alguns segundos apenas nos encarando.
Eu senti meu estômago revirar.
Ele era diferente do que eu imaginava.
Mais jovem, Mas o olhar.
O olhar dele era pesado, Frio.
Como se estivesse acostumado a mandar e a ser obedecido.
Ele virou a cabeça para os homens que tinham me trazido. Fez apenas um sinal com a mão.
Nenhuma palavra.
Os dois entenderam na mesma hora.
— Já é, chefe.
Eles saíram.
A porta se fechou.
E de repente ficamos apenas nós dois.
O silêncio dentro da sala ficou ainda mais pesado.
Ele caminhou alguns passos em minha direção.
Devagar, Sem pressa.
Eu senti meus dedos apertarem o tecido do moletom, que eu estava vestindo.
Então ele falou.
A voz era rouca.
Grave.
Como se cada palavra arranhasse a garganta antes de sair.
— Então minha nova aquisição queria meter o pé.
Meu estômago revirou.
Engoli seco.
Meu corpo inteiro tremia, mas mesmo assim as palavras escaparam antes que eu pudesse pensar.
— Eu não sou um objeto pra ser adquirida por ninguém.
O silêncio caiu por um segundo. Então ele sorriu.
Mas não foi um sorriso sincero.
Foi debochado.
Aquele tipo de sorriso que faz a gente se sentir pequena.
Ele passou a mão pelo queixo, me analisando de cima a baixo.
— Olha só, Respondona.
O jeito que ele falou fez meu coração bater ainda mais forte.
Ele deu mais um passo.
Eu permaneci imóvel.
— Tu vai subir agora pro quarto — ele continuou — e vai ficar bem pianinha até eu resolver o que faço com tu, garota.
A forma calma com que ele dizia aquilo era pior do que se estivesse gritando.
Parecia que minha vida era só mais um assunto qualquer na agenda dele.
Eu abri a boca para falar alguma coisa.
Ele levantou o dedo no ar.
Me interrompendo.
— E nem tenta bancar a esperta pro meu lado.
Os olhos dele ficaram ainda mais escuros.
— Não vem pagar de malandrona.
Ele inclinou um pouco a cabeça, me olhando como quem analisa um problema simples de resolver.
Então disse, com a mesma tranquilidade assustadora:
— Porque se eu quiser, eu te mando pra Turquia.
Meu coração disparou.
— E faço a grana que tua mãe deve num estalar de dedos.
O ar pareceu desaparecer da sala.
Turquia. Eu já tinha ouvido histórias de meninas vendidas. Desaparecendo.
Nunca mais voltando. Engoli seco, Minha garganta estava completamente seca.
Senti um medo tão grande crescer dentro de mim que minhas pernas começaram a tremer.
Meus joelhos batiam um no outro. Meu corpo inteiro queria correr.
Queria fugir. Queria desaparecer dali.
Mas eu sabia que não tenho como sair desse morro.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
Os olhos dele passaram lentamente pelo meu rosto molhado de lágrimas, pelo meu corpo tenso.
Ele soltou um pequeno riso nasal.
— Relaxa, garota.
Mas o tom não tinha nada de tranquilizador.
— Ainda não decidi se tu vai me dar lucro, ou dor de cabeça.
Eu permaneci parada.
Respirando com dificuldade.
Meu sonho de ser médica.
Minha prova do Enem.
Minha vida inteira.
Tudo parecia estar se dissolvendo diante daquele homem.
E naquele momento eu entendi uma coisa com clareza dolorosa.
Eu não estava mais no controle de nada.
Agora. Meu destino está nas mãos do Ceifador.
Eu ainda sentia minhas pernas tremendo quando ele falou novamente.
— Sobe a escada — disse, apontando com o queixo. — Primeira porta à direita.
Minha garganta estava seca.
— E não tenta nenhuma gracinha.
O jeito calmo que ele falava deixava tudo pior.
Porque parecia que ele não precisava gritar.
Ele simplesmente mandava.
E as pessoas obedeciam.
Eu fiquei parada por um segundo, olhando para ele, tentando reunir alguma coragem que talvez nem existisse mais dentro de mim.
Mas o olhar dele continuava firme. Esperando.
Então eu virei.
Minhas mãos ainda apertavam a roupa, enquanto eu caminhava até a escada. Cada degrau parecia mais pesado que o outro. O silêncio da casa fazia meus passos ecoarem.
Subi devagar.
Com medo.
Muito medo.
Quando cheguei no corredor, vi a porta. A primeira à direita.
Exatamente como ele tinha dito.
Respirei fundo antes de girar a maçaneta.
A porta abriu sem fazer barulho. Entrei.
Fechei atrás de mim.
E a primeira coisa que fiz foi encostar a porta com força, como se aquilo pudesse me proteger de alguma coisa.
Mas não tinha chave.
Eu procurei rápido com os olhos. Nada.
Só a maçaneta simples.
Meu coração apertou ainda mais. Virei devagar para olhar o quarto.
Era grande. A cama era enorme, com um edredom claro bem arrumado. Tinha um guarda-roupa grande na parede, uma cômoda, uma televisão e uma janela coberta por cortinas pesadas.
Tudo limpo.
Tudo organizado.
Parecia um quarto normal.
Mas para mim, era uma prisão.
Eu caminhei até a cama como se estivesse no automático.
Sentei. Depois me deitei devagar.
O colchão era macio demais.
Confortável demais.
Aquilo parecia errado.
Eu não apaguei a luz.
Deixei acesa.
A claridade me dava a sensação de que, se eu apagasse, tudo ficaria ainda mais assustador.
Fiquei olhando para o teto.
Tentando respirar direito.
Tentando entender como minha vida tinha virado isso em tão pouco tempo.
Meu peito começou a apertar.
E então as lágrimas voltaram.
Silenciosas primeiro.
Depois mais fortes.
Eu virei o rosto para o lado e abracei o travesseiro tentando abafar o choro.
— Eu não quero estar aqui. — sussurrei entre soluços.
Minha voz saiu fraca.
Quebrada.
Eu não fiz nada.
Nada para merecer aquilo.
Não pedi para nascer no dia em que minha mãe morreu.
Não pedi para ter uma madrasta como Filipa.
Não pedi para meu pai morrer.
Não pedi para ser vendida como se fosse uma coisa.
Mas mesmo assim, estou eu, aqui.
Deitada no quarto de um homem que manda no morro inteiro.
Um homem que pode decidir meu destino com uma simples palavra.
Eu fechei os olhos, sentindo as lágrimas molharem o travesseiro.
Meu sonho de ser médica parecia mais distante do que nunca.
E, pela primeira vez, o medo de verdade tomou conta de mim.
Porque eu não sei. O que o Ceifador vai fazer comigo.