Ainda estamos rindo, meio soltos demais pra lembrar que a vida pesa. Ele encosta o copo na mesa, esfrega os olhos com o dorso da mão, daquele jeito de quem relaxou um pouco demais, e solta, do nada:
Sabia que, às vezes, quando você ri alto... eu penso que é o som mais sincero que eu ouvi em meses?
Eu paro. O sorriso ainda no rosto, mas congelado.
Como assim? — pergunto, tentando manter o tom leve, mas algo nele me puxa pra um lugar mais quieto.
Ele se recosta no sofá, sem me olhar, os olhos no teto, como quem fala só porque não consegue mais segurar.
É isso. Você ri como quem ainda tem alguma coisa viva por dentro. Eu… só rio porque desaprendi a chorar. — Responde, sem escrúpulos.
Silêncio.
Pesado.
Espesso.
Um corte limpo no absurdo da conversa anterior.
Ele se vira, me olha de lado, com aquele olhar que sempre diz mais do que a boca permite.
E às vezes eu penso: será que você tá aqui porque ainda sente, ou porque tem medo de parar de sentir de vez? — Questionou.
Meus dedos apertam levemente a taça. O vinho não tem mais gosto, só um calor esquisito descendo pela garganta. Olho pro rosto dele. A expressão impassível e eu dessa vez não sei o que dizer. Porque a pergunta é dele, mas também é minha.
E talvez — só talvez — a gente esteja aqui exatamente por isso: por medo de sentir demais ou de não sentir mais nada.
Se estou viva ou só sobrevivendo... — Reflito. Essa pergunta dele quase foi o suficiente para me fazer dissociar.
Respiro fundo. Olho pra frente. O jazz ainda toca, mas nem escuto mais.
Acho que tô aqui porque tô exausta de não sentir nada... — Minha voz sai baixa, sem intenção de dramatizar. Só... verdade. — Eu passei tanto tempo me anestesiando, fingindo que tava tudo bem, fazendo piada de tudo... que quando algo me cutuca de verdade, eu fico. Nem que seja pra doer depois.
Viro o rosto pra ele, os olhos firmes:
Eu tô aqui porque, por algum motivo, quando eu tô com você, eu me sinto meio... viva. Meio ridícula, meio louca, meio vulnerável, mas viva.
Dou um riso curto, sem graça, e concluo:
E talvez isso seja só carência m*l administrada, sei lá. Mas também pode ser só o meu jeito torto de dizer que a tua presença me lembra que ainda tem alguma coisa aqui dentro que não morreu.
Percebo que falei demais. Que talvez tenha entregado algo que ele não pediu.
A vergonha chega devagar, com aquele gosto amargo de quem se expôs por impulso.
Esquece. — Digo, desviando o olhar, tentando rir de novo. — Deve ser o vinho. Ou o jazz. Ou minha TPM emocional fora de época.
Mas por dentro, algo em mim torce pra que ele não esqueça. Pra que ele tenha escutado cada palavra.
Ele permanece em silêncio por alguns segundos depois que termino de falar. E não é o tipo de silêncio desconfortável — é aquele que pesa, denso de pensamento. Ele abaixa um pouco os olhos, como se mastigasse cada palavra minha por dentro.
Vejo o maxilar dele tensionar, como quem segura alguma coisa que quase escapa. Os dedos dele tamborilam na lateral da taça, depois param. Ele me olha. Dessa vez, no fundo dos meus olhos.
Não é um olhar casual. É o tipo de olhar que segura.
Devagar, ele inclina o corpo levemente pra frente. Nada exagerado. Nada direto demais. Só o suficiente pra encurtar a distância entre nós. E no tempo dele — que sempre parece diferente do resto do mundo — ele se aproxima, como quem não tem pressa de chegar, mas já sabe exatamente onde vai parar.
Você fala essas coisas… — ele diz baixo, a voz arrastada, grave, quase num sussurro. — E espera que eu fique aqui, quieto?
Ele ri de leve pelo nariz, mas é um riso que não chega a distrair. Ele tá sério. A boca quase curvando num meio sorriso contido, o olhar fixo no meu. Sem ansiedade. Só presença.
Os olhos dele descem discretamente pros meus lábios. E depois voltam pro meu olhar. Ele não força. Não invade.
Só espera.
Como se estivesse perguntando com o corpo, não com a boca: Posso?
E é aí, no exato segundo em que o tempo parece segurar a respiração, que ele se aproxima de vez. O rosto quase colado ao meu, o hálito dele quente e levemente sóbrio. O toque vem sutil, como se não fosse toque — a ponta do nariz dele roça de leve o meu, antes que seus lábios encontrem os meus devagar.
E quando ele me beija, não é pra me dominar. É pra me provar que estava prestando atenção. Que ouviu tudo. Que entendeu.
O beijo dele é calmo. Mas tem uma firmeza que me faz esquecer do jazz, do apartamento, do sabor doce e amargo do vinho misturado ao whisky, do mundo. Como se naquele instante, nada fosse mais importante do que fazer meu corpo entender o que ele ainda não sabe dizer.
Quando o beijo termina, ele não se afasta de imediato. Os lábios dele ainda pairam próximos aos meus, quase como se lamentassem a distância que está prestes a se instaurar de novo. Os olhos ainda estão ali, tão perto que os cílios dele quase tocam minha pele.
Enfim, ele se afasta — milímetro por milímetro — com a precisão de quem não quer interromper o que acabou de criar. Só dar espaço. Só respirar.
Volta a se encostar no sofá, lentamente. O olhar, no entanto, permanece em mim.
Só que agora há algo a mais. Ele não sorri. Não faz piada. Não disfarça.
É raro vê-lo assim. Desarmado. Não por vulnerabilidade, mas por escolha. Por respeito. Por alguma sensação que ele não nomeia, mas não ignora. E eu vejo — porque aprendi a enxergar o que ele não diz.
O silêncio entre nós não é vazio. Está carregado.
Do desejo que ele sente, mas controla.
Da vontade que tenho de puxá-lo de novo, mas não fazer disso só impulso.
Da consciência de que se nos tocarmos mais uma vez, talvez não consigamos parar.
Ele passa a língua nos lábios, breve, como se ainda saboreasse algo que não deveria.
Você me desarma. — ele diz, enfim, sem teatralidade. Só honestidade crua.
Ele olha pro copo pousado em cima da mesa de centro, pro canto da mesa, como se precisasse buscar em qualquer outro lugar a força pra manter o controle.
Mas eu sei.
Eu vejo como os olhos dele escurecem levemente quando cruzam com os meus de novo.
Eu vejo que ele está lutando. Contra o corpo. Contra o desejo. Contra a entrega que seria inevitável se ele não fosse tão racional. Tão ele.
Mas a tensão permanece.