Princesa do Morro

894 Words
Maya O vento batia no meu rosto enquanto a moto subia as ladeiras íngremes, mas não era o suficiente para afastar a sensação daquele olhar. O olhar do professor. Ele não tinha me olhado como os outros — com medo, com cobiça ou com aquela reverência forçada que dedicam à irmã do dono. Ele tinha me olhado como se pudesse ver através da minha pele, direto para o lugar onde eu escondia todas as minhas fraquezas. Nunca ninguém tinha me visto dessa forma. "Você não tem cara de quem gosta de carregar o mundo nas costas." As palavras dele ainda ecoavam, irritantemente precisas. Apertei a cintura do n***o enquanto ele desviava de um caminhão de gás. Eu odiava que um estranho tivesse notado o cansaço que eu levava meses tentando mascarar com batom forte e postura arrogante.As pessoas aqui não precisam saber o quanto é difícil tudo isso. E o quanto eu ódio ser a princesa do morro. É claro que tenho minha mordomia. A um numero consideravél de pessoas dentro dessa favela disposta a morrer por mim. Mas tudo tem um preço. Quando a moto parou em frente à nossa casa — uma construção de três andares que destoava do resto da comunidade pelo acabamento de luxo e pelas câmeras de segurança —, eu desci sem dizer nada. — Valeu, n***o — murmurei, já entrando. Sempre tinha alguém do meu lado. Pronto para me levar onde eu quisesse. Era sufocante. No salão principal, o cheiro de charuto e uísque caro entregava que o dia de "negócios" estava intenso. DG estava sentado no sofá de couro preto, com um rádio comunicador na mão e uma pistola sobre a mesa de centro. Quando me viu, ele abriu um sorriso que, para qualquer um, seria aterrorizante, mas para mim era apenas o sorriso do meu irmão mais velho. O Cara que carregava toda a favela nas costas. — Chegou cedo, pequena. Já botou ordem na barreira? — Ele se levantou, vindo em minha direção com aquele jeito protetor que às vezes me sufocava. — Os moleques estavam travando o novo professor. Só resolvi o problema — respondi, tentando passar por ele, mas DG segurou meu braço gentilmente, me fazendo parar. Ele estreitou os olhos, me analisando. DG tinha um instinto de predador; nada escapava dele. Eu entendo o porque. Fomos criados assim. Fomos criados para comandar essa favela. Para impor respeito. Para fazer as pessoas se curvarem enquanto passamos. Mas dentro desta "mansão" a nossa vulnebilidade sempre acaba sendo expostas, por mais que tentamos esconder. — Você está com uma cara estranha, Maya. O que houve? Alguém te desrespeitou? Porque se aquele mauricinho abriu a boca para... — Não, Douglas! Ninguém fez nada — interrompi, usando o nome de batismo dele para ver se o trazia de volta à realidade. — Só estou com dor de cabeça. O sol estava forte demais. Ele não pareceu convencido. Passou a mão pelo meu cabelo, um gesto de carinho que carregava o peso de uma corrente. — Você sabe que eu faço tudo para te manter bem, não sabe? Estuda, termina essa escola... Quero que possa ter escolhas. Esta segura no nosso morro. Mas quero que possa ser quem quiser ser. Mas até lá, aqui ninguém encosta em você. Nem com o olhar. Eu senti um aperto no peito. O "despertar" era aquela pontada de culpa: eu amava meu irmão, mas a proteção dele começava a parecer um isolamento. Eu era a "Aluna do Tráfico" não porque queria, mas porque era a única lição que a vida tinha me dado até agora. — Eu sei, DG. Eu sei — suspirei, me esquivando do seu toque. — Vou subir, tenho umas coisas para arrumar no quarto... livros e tal. É o ultimo ano, não é? — sorrio contida — Te encontro depois para o jantar? — Comida tailandesa. Mandei o menor buscar lá embaixo para você — ele disse, voltando a pegar o rádio que não parava de chiar. — Não demora. Já tô cheio de fomo. — Você está sempre com fome — rio. — Vai lá cuidar das suas coisas vai — diz divertido. Aqui é o único lugar em que DG se permite ser apenas o Douglas, o irmão protetor e cuidadoso. Fora dessas paredes ele é dono de poucas conversas, poucas ideias, e nenhuma paciência. Subi as escadas quase correndo. Quando fechei a porta do meu quarto e girei a chave, finalmente soltei o ar que nem sabia que estava segurando. Joguei-me na cama, olhando para o teto de gesso perfeito. Pela primeira vez em dezoito anos, o luxo do meu quarto parecia... falso. Peguei o pingente de ouro no pescoço e o apertei contra a palma da mão. Eu tinha tudo o que o dinheiro podia comprar. Meus pensamentos acabariam indo para o momento antes de eu chegar aqui. Aquele professor, com sua mochila gasta e seu olhar de quem conhecia a dor, tinha me feito sentir algo que o DG nunca conseguiria me dar: a sensação de ser vista como Maya, e não como uma peça de porcelana em uma vitrine de fuzis. Abri o caderno de anotações em uma página em branco e, sem saber o porquê, escrevi apenas uma palavra: Literatura. O jogo estava mudando. E, pela primeira vez, eu não tinha certeza se queria ser a dona das regras.
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