Sonhos

1032 Words
— Deixe-me ver o rostinho dessa bebezinha — disse Vitória, inclinando-se sobre Justine para alcançar o rosto da pequena que estava em seus braços. Quando a viu, virou o rosto para Justine e depois para a bebê novamente, fazendo uma expressão de espanto. — Uma lobinha, como já sabíamos! Você a teve com qual classe de lobo? — perguntou Vitória, olhando para Justine com curiosidade. — Ela não é minha filha. Eu ajudei a mãe, que estava à beira da morte durante o parto, e consegui salvar a bebê. Sei apenas que o pai era um alpha e a mãe era ômega — respondeu, suspirando. Vitória pareceu assustada. Seus olhos se arregalaram e Justine não compreendeu o motivo daquele espanto, mas tinha certeza de que saberia assim que se sentassem para conversar. — Muito bem! Há um quarto preparado para você. Pedirei a uma das bruxas que pariu recentemente que alimente a bebê com leite materno e designarei alguém para cuidar dela também, pois não sabíamos que seria uma criança a vir com você. Vá se limpar, troque suas vestes, procure se alimentar e descansar para que possamos esclarecer tudo o que está acontecendo — disse Vitória, já recomposta. — Mas ela ficará no quarto comigo! Certamente temos irmãs que cuidam melhor das crianças que chegam aqui do que eu, mas, tratando-se de uma bebê lobisomem e conhecendo certas reservas, prefiro eu mesma cuidar dela. Afinal, sou a guardiã dela, determinada pelos Deuses — disse Justine com convicção. Todas as mulheres olharam para Justine como se nunca a tivessem visto antes. Então Frederica tomou a palavra: — Ainda não sabemos qual será o destino dessa bebê e, mesmo que ela permaneça conosco, não acha que está se apegando demais em tão poucos dias? Certamente a Deusa Luna a escolheu para cuidar dela, mas agora somos nós que decidiremos como proceder. — Até que o Oráculo determine que minha missão com ela acabou, ela não sairá de perto de mim. Eu vivia numa cabana cercada de feitiços para que nenhum sobrenatural ou humano pudesse perceber minha presença e, mesmo assim, na hora de maior desespero, esse feitiço se desfez. Coincidências não existem — respondeu Justine com tanta certeza que todas a olharam com admiração. — Justine tem toda razão. Quando a mãe desta criança precisou do socorro de uma bruxa que realizasse seu parto antes de morrer, poderia ter encontrado qualquer cabana, mas foi guiada até você. Isso se chama destino ou missão, como preferir chamar — disse Vitória com autoridade. Justine sentiu-se orgulhosa da posição que tomou e agradecida por permitirem que a bebê permanecesse com ela. No caminho até o quarto, percebeu que não estavam indo em direção ao antigo cômodo que ocupava, mas permaneceu em silêncio. Ao chegar, notou que a pequena estava desperta e tratou logo de colocá-la sobre a cama. Pouco depois, Analice entrou carregando roupas limpas para ela e para a criança. A jovem pendurou as peças e mostrou onde poderia tomar banho, numa divisão dentro do próprio quarto que funcionava como uma suíte. — Irmã, estas são suas roupas. Poderá tomar banho na tina com a água quente que a irmã Amália trará. Enquanto isso, cuidarei da bebê, trocarei sua fralda e suas roupas, e darei leite a ela — disse Analice, segurando as roupas da criança enquanto observava a pequena deitada na cama, já começando a choramingar. — Você sabe cuidar de bebês? — perguntou Justine com certa preocupação. — Sim. Eu cuidava das minhas irmãs mais novas — respondeu Analice com um sorriso triste, olhando para Justine antes de baixar os olhos. — Sabe que ela é uma sobrenatural? Um bebê lobisomem? — perguntou Justine, observando-a atentamente. — Gosto de crianças. Não me importa a raça delas — respondeu, sustentando o olhar de Justine com segurança. Justine percebeu sinceridade e tristeza em seus olhos, mas achou melhor não perguntar nada naquele momento. Ainda estava tentando entender sua própria situação. Assim, fez um leve aceno de cabeça e entrou atrás da divisória para se despir. Enquanto tirava as roupas, ouviu Analice dizer palavras carinhosas para a bebê. Pouco depois, o choro cessou. Quando Amália entrou carregando um balde de água quente, Justine ouviu movimentos indicando que Analice deixava o quarto, provavelmente com a pequena nos braços. Amália despejou a água quente na tina, que já estava parcialmente cheia. Justine lançou um olhar cansado para a amiga, que retribuiu o gesto, compreendendo que ela havia sido envolvida numa missão que jamais desejara. — Você sempre foi uma das minhas melhores amigas. Dividimos o mesmo quarto e pouco falou desde que cheguei com essa criança. Ajude-me a entender por que estou passando por tudo isso — disse Justine enquanto entrava na água morna, preparada com essências e ervas. — Eu não sei profundamente tudo o que está acontecendo, mas sei que precisamos cuidar da criança até que ela siga seu caminho. Foi um recado dado pelos espíritos, a vontade da natureza e de tudo que rege este mundo — respondeu Amália, esfregando as costas de Justine. — Mas essa criança é tão especial assim? — perguntou Justine, confusa. — Todos somos especiais aos olhos do Criador e todos precisamos ajudar uns aos outros para vencer os obstáculos — respondeu Amália sem encará-la diretamente. Justine segurou a mão da amiga com firmeza. — Você teve algum sonho? Amália assentiu. — Sim. Sonhei que você estava grávida e voltava para o mosteiro muito feliz. Dizia que eu seria a madrinha e corria pelo pátio... — Só esse? — perguntou Justine. — Não. Depois sonhei com uma linda menina, já maior, saindo deste mosteiro montada em um grande lobo preto. Ela carregava rosas vermelhas em uma das mãos e jacintos roxos na outra. Também sonhei com essa mesma menina, já mais velha, entrando por estes portões com um buquê de cravos vermelhos. Justine empalideceu. Presumia quem era a menina daqueles sonhos. Sonhos com gravidez representavam novos recomeços para a pessoa grávida, um presságio feliz. O segundo sonho apontava para o destino da pequena loba, um caminho que poderia levá-la ao amor ou à tristeza. Mas os cravos vermelhos... Sonhar com cravos vermelhos era um sinal de morte causada por vampiros.
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