Victor Moretti não acreditava em coincidências.
E muito menos em mudanças sem causa.
Ana sentia isso na forma como ele a observava desde cedo, não com pressa, não com acusações diretas, mas com aquele silêncio calculado que sempre vinha antes de algo ruir.
O olhar dele a seguia pelos corredores da cobertura como uma sombra viva, atento a cada gesto mínimo, a cada respiração um pouco mais funda.
Ela tentou manter a rotina.
Vestiu-se com cuidado, escolheu roupas que não chamassem atenção, prendeu o cabelo como fazia nos dias em que queria parecer distante.
Mas nada disso escapava a Victor.
Nada nunca escapava.
— Você anda se distraindo — disse ele à noite, enquanto Ana fingia ler no sofá. A televisão estava ligada, mas nenhum dos dois realmente a assistia.
— Talvez eu esteja cansada — respondeu ela, sem levantar os olhos.
Victor largou o copo de uísque na mesa de vidro.
O som ecoou mais alto do que deveria.
— Cansaço passou — retrucou.
— O que você tem não passa.
Ana fechou o livro devagar.
O coração batia forte demais, denunciando-a por dentro.
— Está insinuando alguma coisa?
Ele se levantou e caminhou até ela, parando à sua frente.
A proximidade era sufocante.
Victor inclinou-se levemente, apoiando as mãos nos braços do sofá, prendendo-a sem tocá-la de fato.
— Estou afirmando — corrigiu.
— Você evita certos assuntos. Evita sair. Evita até brigar comigo, — um meio sorriso perigoso surgiu — e isso definitivamente não é normal.
Ela sustentou o olhar dele, mesmo sentindo o corpo inteiro em alerta.
— Talvez eu só esteja aprendendo a não provocar um homem que gosta de controle — disse.
Victor riu baixo. Um riso sem humor.
— Você sempre me provocou sabendo exatamente o risco — murmurou.
— E agora, parece ter medo de algo maior do que eu.
Ele levou a mão lentamente até o pulso dela, segurando com firmeza.
Não apertou, mas também não deu espaço para fuga.
— O que você está escondendo, Ana?
Ela puxou a mão com delicadeza forçada.
— Nada que você precise saber.
O ar entre eles mudou.
Victor endireitou-se, os olhos escurecendo de vez.
— Não existe nada na sua vida que eu não precise saber.
Ana se levantou, tentando recuperar algum controle.
— Você não é dono de mim.
Em dois passos, Victor estava atrás dela. Segurou-a pela cintura, colando seu corpo ao dela.
O gesto não era violento, mas carregava uma ameaça silenciosa.
— Ainda — sussurrou contra o ouvido dela.
— Mas tudo caminha para isso.
Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Se você estivesse em perigo — continuou ele, a voz baixa e firme — eu saberia.
Se estivesse me traindo, eu já teria provas.
— A mão dele pressionou levemente o abdômen dela, quase de forma casual.
— Então só sobra uma hipótese.
Ana prendeu a respiração.
— Você está escondendo algo dentro de você.
Ela se virou de repente, afastando-se.
— Para! — disse, mais alta do que pretendia.
— Você está vendo coisas onde não existem.
Victor a encarou longamente.
O silêncio era pesado, sufocante.
— Eu nunca vejo coisas — respondeu por fim.
— Eu sinto. E quando sinto, estou certo.
Ele caminhou até a janela, observando a cidade iluminada abaixo.
— Não vou forçar você. Ainda — acrescentou.
— Mas não se engane, Ana.
Virou-se devagar.
— Segredos criam rachaduras. E eu sempre encontro o ponto fraco.
Ana sentiu um nó se formar na garganta.
— Quando a verdade vier à tona — concluiu ele — espero que você esteja preparada para as consequências.
Porque se for algo que me pertença, um sorriso lento e sombrio surgiu, eu não divido, não n**o e não deixo ir.
Ele saiu do cômodo, deixando para trás um silêncio denso.
Ana levou as mãos ao ventre, o corpo tremendo.
Ela havia conseguido despistá-lo mais uma vez.
Mas agora sabia:
Victor não estava apenas desconfiado.
Ele estava caçando.
E, quando Victor Moretti caçava, ninguém se escondia por muito tempo.