CAPÍTULO 25

672 Words
Victor Moretti não acreditava em coincidências. E muito menos em mudanças sem causa. Ana sentia isso na forma como ele a observava desde cedo, não com pressa, não com acusações diretas, mas com aquele silêncio calculado que sempre vinha antes de algo ruir. O olhar dele a seguia pelos corredores da cobertura como uma sombra viva, atento a cada gesto mínimo, a cada respiração um pouco mais funda. Ela tentou manter a rotina. Vestiu-se com cuidado, escolheu roupas que não chamassem atenção, prendeu o cabelo como fazia nos dias em que queria parecer distante. Mas nada disso escapava a Victor. Nada nunca escapava. — Você anda se distraindo — disse ele à noite, enquanto Ana fingia ler no sofá. A televisão estava ligada, mas nenhum dos dois realmente a assistia. — Talvez eu esteja cansada — respondeu ela, sem levantar os olhos. Victor largou o copo de uísque na mesa de vidro. O som ecoou mais alto do que deveria. — Cansaço passou — retrucou. — O que você tem não passa. Ana fechou o livro devagar. O coração batia forte demais, denunciando-a por dentro. — Está insinuando alguma coisa? Ele se levantou e caminhou até ela, parando à sua frente. A proximidade era sufocante. Victor inclinou-se levemente, apoiando as mãos nos braços do sofá, prendendo-a sem tocá-la de fato. — Estou afirmando — corrigiu. — Você evita certos assuntos. Evita sair. Evita até brigar comigo, — um meio sorriso perigoso surgiu — e isso definitivamente não é normal. Ela sustentou o olhar dele, mesmo sentindo o corpo inteiro em alerta. — Talvez eu só esteja aprendendo a não provocar um homem que gosta de controle — disse. Victor riu baixo. Um riso sem humor. — Você sempre me provocou sabendo exatamente o risco — murmurou. — E agora, parece ter medo de algo maior do que eu. Ele levou a mão lentamente até o pulso dela, segurando com firmeza. Não apertou, mas também não deu espaço para fuga. — O que você está escondendo, Ana? Ela puxou a mão com delicadeza forçada. — Nada que você precise saber. O ar entre eles mudou. Victor endireitou-se, os olhos escurecendo de vez. — Não existe nada na sua vida que eu não precise saber. Ana se levantou, tentando recuperar algum controle. — Você não é dono de mim. Em dois passos, Victor estava atrás dela. Segurou-a pela cintura, colando seu corpo ao dela. O gesto não era violento, mas carregava uma ameaça silenciosa. — Ainda — sussurrou contra o ouvido dela. — Mas tudo caminha para isso. Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Se você estivesse em perigo — continuou ele, a voz baixa e firme — eu saberia. Se estivesse me traindo, eu já teria provas. — A mão dele pressionou levemente o abdômen dela, quase de forma casual. — Então só sobra uma hipótese. Ana prendeu a respiração. — Você está escondendo algo dentro de você. Ela se virou de repente, afastando-se. — Para! — disse, mais alta do que pretendia. — Você está vendo coisas onde não existem. Victor a encarou longamente. O silêncio era pesado, sufocante. — Eu nunca vejo coisas — respondeu por fim. — Eu sinto. E quando sinto, estou certo. Ele caminhou até a janela, observando a cidade iluminada abaixo. — Não vou forçar você. Ainda — acrescentou. — Mas não se engane, Ana. Virou-se devagar. — Segredos criam rachaduras. E eu sempre encontro o ponto fraco. Ana sentiu um nó se formar na garganta. — Quando a verdade vier à tona — concluiu ele — espero que você esteja preparada para as consequências. Porque se for algo que me pertença, um sorriso lento e sombrio surgiu, eu não divido, não n**o e não deixo ir. Ele saiu do cômodo, deixando para trás um silêncio denso. Ana levou as mãos ao ventre, o corpo tremendo. Ela havia conseguido despistá-lo mais uma vez. Mas agora sabia: Victor não estava apenas desconfiado. Ele estava caçando. E, quando Victor Moretti caçava, ninguém se escondia por muito tempo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD