Eu não vou mudar, mas minha vida agora é outra
Eu vou tentar entender
O que sai da tua boca
Só por isso, vivo por isso
Sem isso eu não vivo, pode acreditar
Charlie Brown Jr (Quebra-Mar)
- Vamos entrar? – ele pergunta – Ou vou ter que te jogar?
- Para Etienne – eu peço – Eu não vou entrar. A água deve estar fria...e eu não trouxe roupa...
- Não tem problema – ele diz, com um sorriso maroto – Eu trouxe toalhas. Tá lá no carro. E você pode entrar de vestido. Não quero ninguém vendo você de calcinha e sutiã.
Eu não dei atenção a sua última frase, pois fiquei fascinada por seu físico. Não era um corpo malhado, mas ele era magro e esbelto e na sua barriga havia pelos escuros que desciam até...
- Vai ficar me secando ou vai entrar? – ele provoca.
Eu acho que fiquei vermelha até a raiz dos cabelos. Eu assinto e tiro meu tênis e meia.
- Eu não tava te secando, tá bom – eu retruco, irritada – Só estava...só...
- Não precisa achar desculpa, Laurinha – ele diz, direcionando seus olhos esverdeados por todo meu corpo – Você também é bem bonita.
- Se me olhar assim de novo, vai se arrepender, Etienne – eu tento manter a voz firme, mas ela sai falhada.
Ele se aproxima de mim, puxando-me pela cintura.
- Ah, é mesmo? – ele sussurra, perto dos meus lábios – Eu gostaria de ver o que você pode fazer.
Ah, não, não...Eu acho que não consigo respirar. Seus olhos são hipnotizantes e eu estou sem reação. E não tenho tempo de pensar em uma resposta, ele me solta e me pega no colo. E vai em direção ao rio.
- Não, Etienne – eu peço – Não pense em fazer isso...
Mas, ele faz. A água bate no quadril dele. Ele me olha com um sorriso matreiro e vai mais fundo, até a água me cobrir e ficar na altura dos ombros dele. Eu sinto um choque térmico, pois a água é gelada. Ele me solta e eu tento boiar.
- Seu...vou te matar...- eu digo, tentando achar pé, mas não consigo – Etienne...aqui tá frio...e fundo – eu bato os dentes.
Ele se aproxima, com um sorriso e me puxa para ele. Sinto seu corpo me envolver e estou queimando em brasa.
- Vem, vou te levar mais pro raso, baixinha – ele provoca.
- Etienne, eu não sou uma girafa igual você – eu rebato.
Sua risada é música para meus ouvidos.
- Eu sei, mas quem manda ser uma tampinha – ele me deixa na parte mais rasa, onde a água bate na minha cintura. Ele se agacha, para ficar na minha altura.
De raiva, eu pego um pouco da água, com as mãos em concha e jogo na cara dele. Ele fica sem reação.
- É guerra que você quer, Laurinha? – ele pergunta, com um olhar maroto – Então vamos ter guerra!
Ele bateu as suas palmas na superfície da água, espirrando água para todo lado e no meu rosto. Ele começa a fazer concha com a mão e jogar água em meu rosto, ensopando meu cabelo no processo.
- Ah, é assim? - eu digo, cuspindo água.
Eu faço o mesmo com ele. E de repente, a mais gente está envolvida, até crianças. Estamos todos brincando de guerra de água. Eu estava encharcada. O vestido e meus cabelos grudavam no meu corpo. Etienne me pega no colo, sem que eu posso impedir e me atira na no rio, mas para o fundo e eu engasgo com água. Ele me puxa de novo, para seu peito, pois não consigo ter pé naquela parte.
- Rendida? - ele pergunta, em meu ouvido.
- Sim, chega - eu peço, cansada.
Ele me puxa de volta, para sairmos do rio.
- Ah, mas vocês já vão? - perguntou um menino de cabelos escuros.
As outras crianças fazem uma cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança.
- Minha amiga aqui está cansada - Etienne explica - Mas, vocês têm uma bola?
O menino de cabelos escuros assente e sai da água. Fala com uma mulher que está sentada nas pedras e pega uma bola de vôlei. Volta correndo para água e entrega para Etienne.
- Tá aqui - o menino diz.
- Sabemos jogar vôlei? - Etienne pergunta.
As crianças assentem, com os rostinhos felizes. Aquilo me emociona e começamos a jogar vôlei com elas. Quando percebi, o dia já escurecia e precisamos ir embora. Pegamos nossas coisas e subimos. Estava tão cansada e meus músculos estavam doloridos. Batia os dentes de frio. Etienne passou o braço pela minha cintura, parecendo tentar me aquecer. Ele beija o topo da minha cabeça e diz:
- Hoje o dia foi o mais feliz da minha vida, sabia? - ele disse.
Paramos em frente ao carro.
- Sério? Mas, fizemos algo tão simples - eu digo, surpresa.
Ele sorri para mim.
- Eu sei, mas eu nunca tive tempo para isso. Sempre estive trabalhando e nas minhas viagens não tive tanta diversão quanto agora. Você me faz bem, Laura.
Fico sem ar, mas ele não me deixa responder, pois diz:
- Vou pegar uma toalha pra você, minha ratinha molhada - e mais uma vez ele me provoca. Mas, isso só me faz rir.
Ele abre a porta malas do sedan e entrega uma toalha para mim e pega uma para ele. Nos secamos o máximo possível. E lembro do vestido que comprei.
- Etienne, preciso me trocar, tenho aquele vestido. Vou fazer isso no carro. Não olha, tá?
- Ah, mas aí não tem graça, Laurinha - ele provoca.
- Etienne, sem gracinhas - o repreendo.
- Tá bom. Vou ficar aqui fora e não vou olhar, por mais que eu queira - ele me olha de cima a abaixo e eu bato no seu braço com a palma aberta - aí, Laura. Esses seus tapas doem.
- E vai doer outra coisa se fizer esse cara pra mim de novo.
- Que cara? - ele franze o cenho.
- Cara de cachorro babão.
Ele gargalha. Eu entro no carro, fazendo um olhar de advertência para ele. Etienne suspira e se vira, não sem deixar de rir. Faço tudo rápido e não sei se ele viu, mas estou com a roupa seca. Sento no meu banco, deixando a toalha na cabeça. Ele se aproxima da janela e diz:
- Agora é minha vez - ele diz - Vira seu rosto para lá. Ah, mas se quiser ver eu não ligo.
Eu dou risada. E ele vai no porta malas, pega uma calça e uma camiseta e tira a roupa. Vejo pelo retrovisor. Ele fica só de boxe. Deixando sua pele branca e cheia de sardas exposta.
- Eu sei que você tá olhando, Laurinha, não vale - ele diz, me provocando - Eu não pude ver você, então, está sem direitos para isso.
- Eu não estava...- eu mordo os lábios e fecho os olhos.
Ele é rápido e abre a porta do motorista.
- Pode abrir os olhos, Laurinha - ele diz, com zombaria.
Eu abro e me deparo com ele trajando uma calça jeans, uma camiseta branca e o mesmo ALL star. Engulo seco, pois eu o quase nu, mesmo que pelo retrovisor. Isso estava me matando por dentro.
- Tem uma babinha aqui - ele diz, colocando o dedo indicador no canto da minha boca.
Eu estremeço, mas fecho a cara.
- Pode parar de me zoar - eu digo - E como você tinha tudo isso no porta-mala?
- Eu já tinha tudo planejado, meu anjinho. Eu iria levar você no rio, beijar você e ficar contigo hoje, mas você é tão fechada - ele provoca e da a partida no carro.
- Espera, você disse beijar?
Ele ri. O carro começa a pegar velocidade na estrada. Carros vem e vão. O céu está escuro e não posso ver a expressão dele. Sinto todo meu corpo estremecer pelo que ele disse.
- Eu disse isso? Eu não me lembro.
- Etienne!
- O que? Por que tá brava? - ele pergunta e sinto que está contendo o riso.
- Pare de me provocar.
- Como quiser - ele diz.
E passamos a viagem em silêncio. Boa parte, pelo menos, e isso porque eu dormi boa parte. Sentia sua mão na minha, eu não tinha certeza. E quando chegamos em Enseada, ele teve que me acordar.
- Então, o que faremos amanhã? - ele pergunta.
- Amanhã?
- É...bem - ele estava sem graça.
- Vou pensar, Etienne - eu interrompo - Que tal a gente passear um dia aqui na praia?
Ele não responde, parece estar pensando.
- Sabe, podemos ir em outra?
Aquilo era estranho. Mas, eu pensaria nisso depois.
- Tá bom. Que horas você vem? - pergunto.
- Esteja pronta as oito - ele responde.
- Mas...é de madrugada - protesto.
- Mas é para aproveitar o dia. É pegar ou largar, Laurinha.
Suspiro, irritada.
- Tá bom - eu concordo.
Abro a porta e ele faz o mesmo. Ele pega algo no banco de trás. Vejo o vaso de suculentas na sua mão direita, a sacola com meu vestido e o buquê de rosas na outra. Tiro a toalha da minha cabeça e deixo que meus cabelos caiam sobre o ombro e deixo no banco do passageiro.
- Onde vai com essas flores? - pergunto.
- Vou fazer uma entrega especial - ele responde.
Dou de ombros e pego meu vaso de suculentas e minha sacola da mão dele. Começo a subir as escadas para meu prédio e ele me acompanha.
- Onde você tá indo? - pergunto.
- Já disse, vou fazer minha entrega, Laurinha. Vai pra casa. Nos vemos amanhã.
Dou de ombros e uso as escadas para chegar no meu apartamento. Aquilo me deixou ciumenta, mas ele não era meu, então tentei me controlar. Abro a porta e sou recebida por Loki. Pego-o no colo e faço carinho na sua pelagem. A campainha toca, logo em seguida. Abro a porta e vejo Etienne parado na soleira da porta, com um sorriso do no rosto. Fico sem ar com aquela visão.
- Entrega para Laura Dias - ele informa, com uma voz séria - E você?
- Mas que palhaçada...
- Só estou fazendo as entregas, moça. É você? - ele insiste, sem tirar a expressão do seu rosto, como se realmente estivesse fazendo uma entrega.
- Tá, sou eu.
Ele entrega as rosas para mim e um cartão.
- Obrigado - ele diz e fecha a porta. A minha porta.
Deixo a rosa na bancada da cozinha e abro o cartão. É com figura de ursinho e corações. O que é bem brega, mas a mensagem que ele escreveu em caneta azul me deixa sem fôlego:
" Que tarde especial essa que tivemos, Laura. Eu não consigo me lembrar de quando sorri tanto em minha vida toda. Acho que somente quando era criança. E você me traz essa leveza, essa paz. Se tudo isso for um sonho ou não, não quero acordar.
Só posso lhe dizer com certeza que você é como um sonho.
Do seu Etienne."