Hello
I've waited here for you
Everlong
Foo Fighters, Everlong
E eu olhava para o teto. A rachadura havia aumentado, mas tudo bem. O prédio era antigo e se ainda não havia caído, não iria ser agora. Levanto da cama, sentindo meu corpo dolorido. Eu não me sentia bem, ainda. Paulo havia conseguido estragar um pouco da paz que havia conseguido. Se ele não tivesse ligado, quem sabe o que poderia ter acontecido ontem à noite. Mas, talvez, eu sofresse ainda mais por isso. Quem sabe, não foi algo tão r**m assim.
Eu tomei um banho e coloquei meu vestido florido. Coloco meu all star branco. Vejo que Loki havia voltado, pois ele dormia na poltrona, de frente para a tv da sala. Suspirei aliviada e fiz carinho na sua pelagem malhada. Coloquei ração e água para ele perto da porta, peguei minha bolsa e chapéu no cabideiro e sai de casa. Afonso me cumprimentou como sempre e Artur vinha na direção contrária. Abaixei mais o chapéu e sai apressada. Se ele me reconhecesse, com certeza iria reclamar o dia inteiro. E aquele sábado era sagrado para mim.
E passeio pela calçada. As pessoas parecem felizes aquele dia, pois o sol estava dando as caras, sem as nuvens para atrapalhar. O meu humor também havia melhorado. Mamãe havia informado que papai estava bem melhor e iria para casa no domingo. O que me deixava mais leve. O meu telefone tocou, dentro da minha bolsa de couro e eu puxei, com hesitação. Temia que fosse Paulo, mas era Etienne.
- Oi Laura – ele diz – E aí, está fazendo o quê?
Bem, seu tom era normal. Voltamos à estaca zero na nossa relação.
- Estou andando e você, Etienne? – pergunto.
- É você que está com um vestido estranho? Cheio de florzinhas? – ele pergunta, com a voz zombeteira.
Procuro ele pela multidão, pois seria muita coincidência ter outra mulher com o mesmo vestido que o meu.
- Você nunca vai me achar, Laurinha – ele diz, rindo.
Eu olho para trás, pois escuto sua voz de tenor. Vejo ele, com uma camisa preta, shorts jeans e all star preto. Muito diferente do seu visual social nos dias de semana. Ele sorri para mim, desligando o telefone e guardando no bolso. Faço o mesmo.
- Olha quem eu achei – ele diz, se aproximando de mim.
Eu anseio por seu toque, que não vem. Suas mãos estavam dentro do bolso.
- E que coincidência você estar por aqui – eu digo, estreitando meus olhos – Por que está aqui, alias? Você não mora perto da empresa?
Ele passa a mão pela nuca.
- Eu moro...alias, como sabe?
Ah, ferrou.
- A Ana comentou – eu digo, mordendo os lábios. Era mentira. Eu vi a ficha dele em um dos meus passeios ao RH. Millie havia me forçado a ir com ela, descobrir onde morava um cara do setor administrativo. Ela estava muito afim dele, mas ao invés de falar, apenas estava investigando sobre ele. O que era muito estranho – E então, por que está aqui?
- Eu vim convidar você para passear – ele diz, ficando vermelho.
Há, ele estava sem jeito, o que me deixava em vantagem. Eu também estava e por isso não consegui olha-lo nos olhos. Apenas caminhamos lado a lado.
- E onde você quer ir? – pergunto.
- Que tal tomarmos um café? – ele pergunta – Deixei meu carro aqui perto e vou levar você um café colonial, na serra.
Ah, meu Deus. Aquilo era um encontro, eu sabia que era. Eu ansiava para que fosse.
- Tá bem – eu aceito, tentando parecer indiferente.
Ele sorri, me olhando de canto.
- Você está bonita, Laurinha – ele diz, provocando – Gostei do seu vestido.
- Pare de zombar – eu o repreendo.
- Eu estou falando sério. Você fica bonita com cores claras – ele diz – Realça seus olhos.
- Que cantada barata é esse, Et? – pergunto.
- Et? Eu tenho um apelido? – ele pergunta incrédulo, enquanto andamos lado a lado pela calçada. Algumas pessoas passavam por nós, passeando sozinhas, em família ou com seus cachorros. Automóveis iam e vinham, mas o transito era tranquilo, por ser área residencial – Eu não concordei com isso.
- Agora vai ter que concordar, Et – eu provoco.
- Que horror – ele diz, rindo – Então, tá bom Laurinha. Estamos quites.
E chegamos ao seu carro, que estava estacionado do outro lado da rua, ao lado do meu prédio. Ele abre a porta do passageiro, como sempre e a fecha para mim. Partimos logo em seguida. Dessa vez, ele não liga o rádio.
- Laura, sobre ontem...eu...
- Está tudo bem, Etienne – eu interrompo. Não queria ouvir que o que houve foi um erro, pois para mim não era. E significava muito ele ter vindo atrás de mim, tentando ser meu amigo. Era tão diferente de Paulo, que havia lembrado de mim depois de um mês.
- Mesmo? – ele pergunta – Eu realmente não deveria ter beijado você.
Ah, obrigada Etienne. Você sabe levantar a autoestima das pessoas.
- Tá tudo bem. Até que foi bom – eu alfinetei.
- Espera, até que foi bom? – ele pergunta, ofendido – Eu beijo bem, Laurinha. É que não tive tempo. Seu namorado ligou e eu...
- Você acha que ele é meu namorado? – Interrompo. Isso explicava ele ter se afastado de mim.
- E não é? – eu n**o com a cabeça. Ele ri – Então, por que ele estava ligando para você?
- Porque ele quer uma chance, mas já disse que não.
- Hum...agora fiquei com pena dele – comentou ele – Deve ser duro ver o que perdeu...
Eu não sei onde ele quer chegar com aquela conversa e resolvi ficar calada. Ele dirige em silêncio. Parecia pensativo. Não muito diferente de mim. Eu pensava no beijo, pensava nos meus pais e o quanto me sentia estranha por dentro. Tudo isso ao mesmo tempo, me atrapalhando o raciocínio, acelerando minha respiração.
E saímos de Enseada e ele dirigindo batucando os dedos esquerdos no volante, enquanto rolava uma música no rádio. Ele cantava muito m*l e eu o acompanhava. Era divertido. E começou a música que eu mais amava, Everlong, de Foo Fighters. Nos olhamos, com se estivéssemos em sintonia. Nossas vozes se misturam, eu faço as guitarras e ele batuca os dedos no volante. No fim, damos risada. O clima entre nós era leve e divertido. Meu telefone toca.
- Fala – digo.
- Onde você tá? – perguntou Millie.
- Estou descendo a serra, por que? – respondo.
- p***a, nem pra avisar...- ela parece chateada – Eu queria ir junto. Está com quem?
- Hum...Etienne, mas não fala pra ninguém, por favor – eu peço.
Etienne fez uma cara estranha pra mim.
- Tá, eu não vou falar para ninguém do trabalho nem pra Ana, ok? – ela tenta me tranquilizar – Mas, está indo para onde? Vai sair pra Floripa?
- Não, vamos em um café colonial aqui da serra mesmo – eu explico.
- Poxa, eu queria estar ai – ela diz, bufando – Ok, se divirta. Espero que pegue o cara de uma vez.
E desliga, sem eu poder protestar. Etienne estava com o cenho franzido, o que me deixou preocupada.
- Etienne...não pensa besteira tá – eu começo – Eu disse aquilo para Millie...
- Está tudo bem – ele corta, mas vejo o tom de magoa – Você não quer ser vista comigo...
- Não, não é isso...nós trabalhamos juntos, lembra? Talvez pegasse mal...
A expressão dele suaviza. Ele sorri, mas morde os lábios.
- Ah, isso...eu tenho que concordar – ele diz – Mas, fico aliviado que sou boa companhia para você.
E ficamos em um silêncio incomodo. Ele faz algumas curvas na pista e posso ver a serra e fico com pressão nos ouvidos. A natureza era linda e rica. Vejo os morros, ao fundo, as nuvens deixando o clima nublado e uma leve garoa começava. Sentia o cheiro da chuva molhando o asfalto e o aroma terroso. Estava abafado e abri a janela. Etienne pegou minha mão, esquerda, acariciando meus dedos e levando-a a seus lábios. Estávamos brincando com fogo, mas eu adoraria me queimar, realmente.
E logo chegamos ao café colonial. A chuva era fraca, mas o clima era quente na serra. Etienne fez questão de abrir a porta para mim antes que eu saísse, o que me fez rir.
- Estou sendo um cavaleiro e você ri de mim? Assim parte meu coração – ele diz, colocando a mão sobre o peito.
- Para, só para – eu peço.
- Como quiser – ele diz, sorrindo.
Ele me pega pela cintura e entramos no café. Era uma casa rustica e havia uma placa com dizeres: Café Colonial da Serra. Era um lugar simples, com chão de madeira. Havia fila para entrar, então esperando na área coberta. Sentia o vento soprar e a temperatura parecia cair, me fazendo estremecer. Etienne me abraçou, mas eu não sei se era por aquele motivo. Mas apesar de não entender seu gesto, me senti protegida por ele. Coloquei a cabeça sobre seu peito, sentindo as batidas do seu coração. Era um som reconfortante. Ele parecia respirava mais rápido e me sentia assim, também. Eu ergui minha cabeça, olhando para ele. Etienne me fitava com intensidade, o que me deixava com medo e ao mesmo tempo implorava por seus lábios. Ele acariciou meus cabelos e beijou minha testa. Senti todo meu corpo estremecer, pelo simples toque.
E o momento bom foi quebrado por sermos os próximos na fila. Entramos, agora, separados. Ele seguia atrás de mim, com as mãos nos bolsos. Não compreendia sua hesitação, mas em breve iria acabar com aquele suspense. Eu queria ele, como nunca quis ninguém. E iria superar minha timidez para demonstrar meu interesse nele. O que eu temia, era apenas sofrer e perder sua amizade, mas precisa tentar.
E sentamos nos fundos, na varanda coberta. Havia oito mesas decoradas com toalhas brancas e um vaso de lírios no centro. E havia várias árvores do lado de fora e um estufa ao fundo, onde se vendia vaso de plantas. Eu achei aquela vista incrível, pois podia ver a serra do outro lado. E escolhemos uma mesa mais ao fundo e Etienne, como era gentil, puxou a cadeira para que eu sentasse.
- Sabe que não precisa fazer isso – eu disse, um pouco envergonhada.
Ele se sentou à minha frente, sorrindo.
- Eu sei que não, mas fui criado por minha mãe, para ser romântico – ele explica, com um sorriso zombeteiro – E o que posso fazer? Eu preciso ser irresistível.
Reviro os olhos e chuto-o por baixo da mesa. Ele faz uma careta.
- Ai! Isso dói Laurinha – ele reclama, passando a mão em sua canela –Eu tento ser cavaleiro e é isso que recebo?
- Se continuar sendo engraçadinho, que é isso que você é, vai apanhar mais – eu ameaço.
- Tá bom, tá bom...eu vou ser grosseiro com você, então – ele provoca, mordendo os lábios.
Aquilo me fez perder o folego. Eu queria pular em cima da mesa e beijar aquela boca, mas, bem, estávamos em público.
- Então, como fazemos para comer por aqui? – eu pergunto, tentando distrair minha mente e olho para a vista das árvores e a estufa.
- É um buffet, você precisa ir para lá – ele aponta para dentro do café – E escolher o que deseja comer e trazer para cá.
Eu assinto. Nós levantamos juntos e vamos para dentro do café, em outro cômodo. Havia uma variedade de comida naquele buffet. Desde de salgadinhos, a pão de queijo, queijo, goiabada, pão francês, pão de forma, manteiga, bolachas, torta salgada, doce, bolo de cenoura, de chocolate, de coco, de amendoin, pudim, maria mole...era uma infinidade de opções. E eu enchi meu prato e me servi de café com leite. Deixei na mesa e voltei para pegar um suco de laranja. Etienne, que já estava na mesa comendo, levantou a sobrancelha.
- Vai comer tudo isso? – ele pergunta, com certeza me provocando.
- Não me enche, Etienne – eu retruco.
Ele sorri. E comemos. Etienne parece que tinha uma tênia no estomago, pois foi se servir mais de uma vez. E conversamos sobre tudo.
- Etienne, fala um pouco de você...eu só falo de mim – eu peço, com dengo.
Ele pega minha mão levando aos lábios, depositando um beijo cálido no meu dorso. Eu não sei por mais quanto tempo ia aguentar sem beijar ele.
- Bem, o que você quer saber? – ele pergunta, com os olhos penetrantes sobre mim.
- É...hum...- eu murmuro, sem jeito – Me fala um pouco dos seus pais. Quais são os nomes deles?
- Tania e Mauro – ele responde, sorrindo – Eles são pessoas boas. Mamãe é brasileira. Ela é meia irmã do dono da empresa onde nós trabalhamos.
Espera, o quê?
- Espera, você é parente do dono da LeBlanc? – pergunto, sem acreditar.
Ele assente.
- Não está brava comigo, está? – ele pergunta, receoso – Eu....bem...é algo que meu tio não gosta de falar...ele não expõe a família para a mídia. Por favor, não fale para ninguém, nem para Millie, promete?
Eu assinto.
- É claro que não vou falar, Etienne – eu digo – Fica tranquilo. Sou sua amiga e seu segredo está a salvo comigo – Eu estava calma por favor, mas hiperventilado por dentro. Como eu ia esconder essa fofoca da Millie? Como? Me diz, meu Deus?
- Espero que seu tratamento comigo não mude, por favor – ele pede, acariciando minha mão – E que saiba que eu somente tenho o cargo na LeBlanc, devido a ter trabalhado duro para isso. Nada de favores ou ser sobrinho da empresa. Meu tio não pensa dessa forma, em beneficiar ninguém. Nem os próprios filhos. Meus primos precisam mostrar que são capazes para comandar aquela empresa...apesar que somente minha prima vai conseguir fazer isso...
- Por que? – pergunto, curiosa. Eu não sabia nada sobre os filhos do dono, na verdade, ninguém sabia.
- Ah, prefiro não comentar, Laurinha – ele diz, sem graça – Podemos mudar de assunto? Posso falar dos meus pais, da minha vida na França...o que acha?
Eu assinto, contrariada. Tudo bem, eu fui picada pelo bichinho da curiosidade, mas iria respeitar Etienne. Ele estava confiando em mim por demais.
- Bem, minha mãe é muito gentil. Ama por demais esse país – ele comenta – Ela se mudou para França, para estudar música e conheceu meu pai, Mauro. Eles se apaixonaram assim que se viram, no museu do Louvre. Ela estava fazendo um passeio com seus colegas de faculdade e lá estava meu pai, com seus colegas também. Eles tinham o costume de fugir da faculdade de medicina e visitar museus, bares, teatros. Acho que puxei isso dele, sua impetuosidade – ele ri, o que me faz rir junto – Eu sei, você está se lembrando da minha loucura na praia...é algo que não consigo controlar. Preciso fazer algo que me leve ao limite, entende? – eu assinto – Enfim, meu pai estava matando uma aula e minha mãe apenas passeando. Ele viu aquela morena de olhos castanhos, um corpo maravilhoso, ele disse, não eu. Aliás, que coisa mais h******l de se pensar da minha mãe, mas enfim...Ele começou seu cortejo. Pediu seu telefone, dizendo que era para um amigo. Ela recusou, mas com bom humor, disse que encontraria o amigo dele em um bar perto do museu. E aí começou o romance deles. Papai estava esperando ela, no horário combinado. Ela já sabia que era ele. E ele passou meses tentando conquista-la, até que conseguiu um beijo dela, na ponte dos cadeados, aquela bem famosa – eu assinto, já sabia qual era e desejava colocar um cadeado lá, algum dia – E depois, a relação começou a ficar séria. Ela acabou ficando grávida de mim e teve que parar de estudar. Papai estava concluindo a faculdade e se esforçou muito para ter um consultório. Ele não era pobre, mas classe média, sabe? Tudo estava certo, até meus avós aprovaram aquela relação. E hoje ele tem essas ações em uma grande corporativa farmacêutica, o que lhe rendeu muito dinheiro e pode fazer com eu tivesse os melhores estudos e poder viajar pelo mundo.
- E ela que ensinou a você a falar português? – perguntei.
- Sim, por que ela é brasileira. Apesar de seu pai ser francês. A primeira mulher dele morreu no parto do meu tio e ele se casou de novo com minha avó, dona Helena – ele explica – Ela nunca quis sair daqui e meu avô, Marcel, fez a vontade dela. E assim, fazendo com que meu tio crescesse aqui nesse país e ter dupla nacionalidade. E construir seu império e levar para vários países seus produtos. Bem, falei demais o que não deveria – ele diz, mordendo os lábios.
Eu aperto sua mão.
- Está tudo bem, Etienne, seu segredo está a salvo – eu digo, tentando conforta-lo – Prometo que ninguém vai saber.
Ele sorri.
- Eu sei, confio em você.
- E como pode confiar em mim? Nos conhecemos há pouco tempo? – pergunto, achando estranho o fato de ele parecer tão à vontade comigo.
- Parece que eu a conheço faz anos. Apenas isso e você parece ser boa – ele explica.
Eu também sentia aquilo, dentro de mim. Parecia que fazia anos que nos conhecemos, mas isso foi a segunda impressão, a primeira, eu quis m***r ele. E depois de comermos muito, rirmos muito, pedi para vermos a estufa do lado de fora. A chuva já havia parado e o céu estava encoberto. Estava um clima um pouco frio e por isso, aproveitei para abraçar Etienne. Ele envolveu minha cintura, beijando o topo da minha cabeça. Nós descemos pelo caminho de pedras, até a estufa e pude ver várias plantas, penduras, em vasos grandes, pequenos. Eram tão bonitas, mas eu era um desastre com plantas. Etienne olhava para tudo, parecendo interessado. Vi outros objetos sendo comercializados. Havia anjinhos, bruxinhas, pedras coloridas, missangas, incensos, roupas confeccionadas pelo pessoal do café, entre tantos outros produtos. Vi no cabide um vestido lindo, roxo com preto, com amarração no pescoço. Peguei-o do cabide e fiquei me olhando no espelho que estava apoiado em uma das paredes da estufa. Gostei do meu reflexo refletido no espelho e pensei em compra-lo. Também peguei um vaso de suculenta, pois pelo menos, acreditava que aquela planta eu conseguiria cuidar. As outras já estavam secas dentro do meu apartamento e precisava jogar fora. Aquela plantinha com certeza não era difícil de cuidar, pelo menos era o que eu achava.
Etienne estava no fundo da loja, conversando uma vendedora e eu fui direto para o caixa com o vestido e o vaso da suculenta. A moça de cabelos vermelhos me atendeu super bem e deu dicas de como cuidar da plantinha.
- É só regar umas duas vezes por semana – ela explicou – Não deixa no sol, tá. Se for deixar, só por pouco tempo, senão ela seca. Tem cuidar bem, por causa do pulgão.
Pulgão? Que parada era aquela?
- Moça, o que é isso que você falou? Pulgão?
Ela riu.
- É uma praga que dá nessas plantas. Tem cor branca e parece cola, entendeu? Tem que limpar as folhinhas com um pouquinho de vinagre, tá? – ela explicou.
Ok, acho que não sei se conseguiria cuidar daquela planta mais. Mas, eu paguei e tinha que dar meu melhor. Sai da loja, com a sacola do vestido e com a plantinha na outra mão. Fiquei dizendo para ela que tudo ia ficar bem, que nós íamos nos dar bem. Afinal, o que poderia dar errado? Eu consegui manter o Loki vivo, a planta também iria sobreviver a mim. Esperei Etienne, quanto isso. Ele estava demorando muito. Quando ia entrar, ele saiu com um buque de rosas. Prendi minha respiração. Aquilo não poderia ser para mim, poderia?
- Já que você fez algumas compras, eu também fiz – ele disse.
Eu via que suas bochechas estavam vermelhas, até o pescoço estava. Tá legal, eu era péssima em interpretar sinais. Eu não iria tentar decifra-lo.
- Vamos então? – perguntei – Para que é essas flores? Que bonitas...
Ok, eu queria que fosse para mim, mesmo não gostando da ideia de ter mais flores em casa. Seria um gesto tão bonito, se fosse para mim.
- Hum...- ele me fitou com intensidade – Eu não sei, Laurinha. Acho que vou levar para minha mãe.
Há, que engraçado. Ele só pode estar fazendo piada.
- Sabia que essas rosas são para uma namorada, nhe? São vermelhas – eu explico. Como se eu tivesse lido o dicionário das flores, só que nunca.
Ele riu de mim.
- E quem disse que precisa ser só para namorada? Eu nem tenho mesmo – ele disse, com tom de provocação.
Eu não mordi a isca. Não sei onde aquele assunto ia dar, mas se ele queria se fazer de difícil, eu também faria igual.
- Então tá. Aposto que sua mãe vai adorar – eu digo, mantendo neutralidade – Vamos então?
Ele assente e caminhamos até o carro. Colocamos nossas compras no banco de trás e partimos. Ficamos em silêncio, enquanto uma música rola no rádio. Começo a cantar, imitando as vozes. É uma música do Raimundos, mulher de fases. Etienne dá risada, sem parar de mim. Faço cara f**a e fecho a boca.
- Ah, Laurinha, canta. É tão bonita sua voz – ele provoca – Parece até um rouxinol.
- Eu só não te bato porque você está dirigindo – eu ameaço – Ei, para onde estamos indo?
Ele faz uma curva e para no acostamento. Há outros carros parados no lugar.
- Aqui tem uma cachoeira. Eu já vim aqui com meu pai – ele explica – Vem, vou te mostrar.
Ele saiu do carro e não tenho tempo de reação, pois a porta já está sendo aberta. Ele me puxa pela mão e caminhamos por uma trilha que desce por entre as árvores. É bem curtinha e chegamos a uma escada de pedras. Posso ver a cachoeira, que não é grande, mas mesmo assim é linda. Há algumas pessoas lá. Alguns colocaram suas bicicletas no canto, perto das pedras e havia crianças também. Fiquei maravilhada pela beleza daquele lugar. Podia se ouvir o canto dos pássaros. O cheiro da terra e musgo era forte. O clima estava abafado novamente, mas o céu acima de nós continuava encoberto. Etienne tirou sua camisa e começou a tirar seu all star. Ah, não...