Yeah, you don't know my mind
You don't know my kind
Dark necessities are part of my design and
Tell the world that I'm falling from the sky
Dark necessities are part of my design
Red Hot Chili Peppers (Dark Necessities)
E nós bebemos aquela noite, pela minha dor.
Olhava Millie dançar na pista uma música eletrônica, enquanto eu tomava mais um copo de cerveja. Etienne dançava com uma garota, mas não parava de olhar na minha direção. Eu estava sentada no fundo, a mesa, com Ana segurando minha mão.
- Eu não acredito que ele fez isso comigo, Ana...- eu digo, com a voz chorosa – Ele poderia, sei lá, ter sumido...nunca ter aparecido de novo...
- Oh, querida, homens são assim. Eles se acham nossos donos. Quando ele viu você com Etienne, ficou com ciúmes. Não dê atenção a isso, sim – ela diz, tentando me confortar – E d***a! Etienne está com aquela garota agora. Eu queria tanto ele...
Olho para pista e vejo que Etienne conversava com a garota, mas ele não parecia prestes a beija-la. Mesmo assim, senti um ciúmes irracional dele. Desviei o olhar. Foquei na bebida de cor âmbar. Tomei mais um gole da cerveja. Ana saiu de perto de mim, pois um cara a chamou para dançar. Eu fiquei sozinha na mesa. Todos pareciam se divertir, menos eu. A pobre Laura. Fiquei com raiva dessa constatação e sai para fora do bar. Atravessei a rua e cheguei até a praia. Tirei meu all star e as meias, sentindo a areia fofa sobre meus pés.
Tinha raiva que Etienne estar com aquela garota de cabelos ruivos, tinha raiva de Ana, por ter me trocado por aquele cara no bar, tinha raiva de Paulo, por ter me descartado tão fácil. Até mesmo raiva de Millie por ter ficado com alguém naquele bar. E eu mergulhava em auto piedade, sentindo uma dor imensa no meu peito. Pensei em entrar no mar, pois realmente estava abafado. Quem sabe isso melhorasse...
- Pare aí mesmo – eu escutei a voz de Etienne sendo ecoada, devido ao vento que fazia.
Olhei para trás e ele vinha em minha direção. Eu apenas toquei os pés no mar. Estava escuro e a luz dos postes iluminava a praia e o calçadão. Olhei para ele, sem me importar com sua advertência. Coloquei mais um pé dentro da água. A vida era minha e eu faria o que bem entendesse. Se eu queria mergulhar no mar a noite, eu iria mergulhar sim.
- Laura – ele exclamou, com raiva e uma nota de desespero – Sai daí, c*****o!
Eu olho para ele com raiva.
- Mas que saco, Etienne – eu exclamo – Me deixa em paz. Volta pro bar e me deixa sozinha.
Ele me alcança, em longas passadas, me pegando no colo. Debato-me com força, mas ele me segura sem a menor dificuldade.
- Laura, para, vai se machucar e me machucar – ele pede, irritado.
- Eu quero que você me solte, caramba – eu grito.
Ele ri de mim, o que deixa com mais raiva ainda dele.
- Laura, por que está assim, o que houve? É pelo Paulo ainda, por que se for, eu vou lá e quebro a cara dele...
- Não é pelo Paulo – eu n**o – É que todos parecem tão felizes e eu...
- Eu você...? – ele me incentiva a continuar.
- E eu estou sozinha, Etienne. Sozinha – respondo, sentindo minha voz falhar.
- Escuta, Laura...você não está sozinha – ele diz, com sua voz de tenor calma e tranquila – Eu realmente acho que você está sendo dramática. Olhe quantas pessoas gostam de você: A Millie, seus pais, até a chata da Ana, seus colegas de trabalho...eu...
- Você? Nós nem nos conhecemos ainda...- eu murmuro.
Ele sorri para mim.
- Eu gosto de você, Laurinha. Gosto do seu gênio irritadiço. Além de ser muito bonita – ele diz, me provocando. Eu apenas riu – Você precisa gostar de si mesma. Vamos voltar, tá bom? Ou se quiser, eu levo você pra casa...
- Eu quero ir pra casa – eu peço. E lembrei que a Millie havia dito que eu iria embora com ele, aquela noite. Perdi minha aposta, devia duas tequilas a ela.
- Então vamos – ele diz, começando a andar.
- Só me coloca no chão, Etienne – eu peço.
- Não, você vai querer escapar e isso eu não posso deixar – ele diz, em tom preocupado.
Ele me carrega até o carro dele, que estava estacionado na rua. Ele me coloca no chão e eu fico parada, me sentindo tonta. Talvez eu tivesse bebido demais. O mundo girava ao meu redor. Etienne abriu a porta do passageiro e me ajudou a entrar no carro.
- Se tiver ânsia, me avisa que eu paro o carro. Só não vomita aqui, por favor – ele pede, preocupado.
Eu dou risada.
- Tá, tá bom, Etienne – eu concordo – Não vou sujar seu carro luxuoso.
Isso o faz sorrir.
***
Ele dirige em silêncio e apenas liga o rádio. Uma música toca na rádio, uma que gosto muito. Era uma do Red Hot Chili Peppers, Dark Necessities. Começo a cantar e sua voz me acompanha. Ele canta desafinado, o que me faz rir.
- Se rir mais, eu vou cantar mais – ele ameaça, mas com um sorriso nos lábios.
Eu rio ainda mais e ele troca de rádio e canta a música que tocando. Era uma sertaneja, daquelas bem tristes. Eu não consigo me controlar de tanto rir. Estar com Etienne era ter momentos reflexivos e ao mesmo tempo momentos de descontração. Ele estava sendo um ótimo amigo, mesmo nos conhecendo em apenas um dia. E conversamos sobre tudo, enquanto ele me leva para casa. Ele conta que seus pais são do ramo farmacêutico. Tem ações de uma empresa na França e ele vivia lá, mas também ficou um tempo no Brasil. Isso explicava ele falar bem português. Afinal, sua família também tinha negócios aqui. Quando percebi, estávamos do lado do meu prédio.
- Então, eu vou indo – digo, sentindo que na verdade queria ficar ao lado dele.
- Tá, eu te ligo depois, para saber como você está – ele diz, beijando meu rosto.
O contato do seu rosto áspero pela barba feita me faz arrepiar. Mas, me controle. Não seria nada bom me envolver com ele, não agora. E abro a porta e saio do carro. Ele continua parado, parecendo me olhar. Eu entro no meu prédio e cumprimento Afonso, que estava atrás do balcão, na portaria do prédio.
- Boa noite, Laura – ele diz, simpático.
- Boa noite seu Afonso – eu digo, sorrindo.
- É a primeira vez que vejo você saindo. Isso deve ser um milagre – ele diz.
- É, as vezes a gente precisa sair do casulo.
- Sim, e você precisa se divertir um pouco, menina – ele diz, sorridente.
E entro no elevador, me sentindo outra pessoa. Millie me manda mensagem:
Eu vi que você saiu com o gostosão.
Hoje vai rolar o quê...? hahahahhah
Me deve tequila, paga na próxima.
Me conta tudo, tudo mesmo! =D
Mas, uma mensagem não lida aparece na tela do touch. Faz meu mundo ruir.
Laura, desculpa por hoje...a gente precisa conversar.
Me fala onde você mora. Quero me desculpar e queria falar com você.
Me dá uma chance.
É o Paulo.
Apertei em deletar a mensagem e chorei dentro do elevador. Entrei em casa, vendo meu gato. Loki se esfregou em minhas pernas e eu o peguei no colo. Fui para o quarto, sentindo meu mundo naufragando. Eu não saberia dizer o motivo da minha tristeza, mas Paulo era o sonho que eu sempre quis em um homem e tudo isso se foi, naquela noite.