Capítulo Sétimo

4997 Words
Adriano entrou e foi apresentado a Dirce. Se deram bem desde o primeiro instante, para alegria de Mirella. Adriano contou de sua orfandade ainda muito pequeno e sua criação em orfanato, aonde tinha ficado até os dezoito anos. Não falou com tristeza, mas com conformismo. Contou o quanto as assistente sociais do orfanato haviam ajudado a arranjar o primeiro emprego e tinham ajudado nos estudos feitos na própria instituição graças a doações de diversas empresas. Tanto que seu primeiro e único emprego, já que estava lá até hoje, tinha sido numa dessas empresas que ajudavam. Trabalhava de dia e estudava a noite até concluir o segundo grau de onde saiu Técnico em Contabilidade. Começou na empresa como auxiliar de escritório, fazendo serviços menores, até de rua, como comprar materiais para o escritório e idas a bancos. Mas logo que se formou teve a oportunidade de ser promovido e gostava muito do que fazia. Dirce elogiou seu esforço e deixou claro que era a favor do namoro. Adriano contou que era muito tímido e não sabia como tinha tido coragem de descer atrás de Mirella e puxar assunto com ela. Ao que Dirce respondeu: - Estava escrito e o que vem escrito pra gente, ninguém apaga. Dirce serviu um café e logo depois foi embora, porque estava ficando tarde. Dirce convidou para voltar no dia seguinte.Quando ele já ia saindo, Dirce resolveu: - Adriano! - Senhora? - Você mora sozinho? - Moro. Na casa que era de meus pais e agora é minha. Ficou fechada todo tempo que fiquei no orfanato, mas quando saí fui pra lá. - Vem almoçar com a gente amanhã. Vou fazer pernil com batatas coradas. - Mas a Mirella tem compromisso a tarde. - Você pode ficar me fazendo companhia enquanto ela vai na reunião da igreja. - Tem certeza que não vou incomodar? - Tenho. Gostei de você logo de cara e não costumo me enganar. - Obrigado. Também gostei muito da senhora. Amanhã eu virei para o almoço. A que horas? - A reunião é duas. Vê se consegue chegar no máximo umas onze. - Estarei aqui. Assim que Adriano saiu, Mirella abraçou a mãe e disse: - Obrigada. - Tá me agradecendo o que? - Você ter tratado meu namorado tão bem. - Pode acreditar, minha filha, quem me deu um presente foi você. Tenho certeza que esse namoro vai dar certo e ganhei mais um filho. - Não está muito cedo pra isso? - Não. Ele olha dentro dos olhos da gente. Vai dar em casamento, tenho certeza. - Tomara! A única vez que me interessei por alguém foi essa. - Deus escreve certo por linhas tortas. Vocês tinham que se encontrar, por isso o ônibus enguiçou. - Nós temos uma semana de namoro. - Estou certa que vai dar casamento. - Eu acho que você tá correndo muito. - Me diz isso daqui há dois meses. - Vou marcar a data. Mesmo dois meses de namoro é muito pouco tempo. - Marque a data de hoje e você vai ver que não vai repetir. Esse rapaz é pra casar e não vai demorar. Depois dessa conversa foram se preparar para dormir. Mas nessa noite Mirella custou a pegar no sono. Estava confusa. Não entendia como em tão pouco tempo tinha se apegado tanto ao namorado. Até a mãe, mulher experiente, já o estava tratando como futuro genro e ele água como tal. As coisas estavam correndo demais. Quando conseguiu adormecer já era bem tarde. Mas teve um sono reparador e acordou disposta. Se arrumou e foi para cozinha aonde já encontrou a mãe. Dirce quando percebeu que a filha estava atrás dela, anunciou: - Já fiz o café e tem pão fresquinho. - Você já foi na padaria? - Já passa das sete. Hoje você levantou mais tarde. - Custei muito a pegar no sono. - O que está te perturbando? - Esse namoro com o Adriano que está indo rápido demais. - É porque foi Deus quem juntou vocês. - Tenho medo de me machucar. - Não vai acontecer. Ele também está apaixonado. - Você acha? - Tenho certeza. - O que está me assustando é que eu conheço ele a pouco mais de uma semana, mas parece que já tem muito tempo. É esse excesso de confiança que eu não estou entendendo. - Vai ver que as almas de vocês já se conheciam. - Como assim? - Tem gente que a gente vê pela primeira vez e não gosta da pessoa de cara. Com outras acontece ao contrário. É o que chamamos de encontro de almas. Vocês não se conheciam nessa vida, mas as almas de vocês devem ser antigas parceiras. Estão se reencontrando. - É. Deve ser isso. Mãe você se importa se eu for na casa da Milena, conversar um pouco com ela? - Claro que não me importo. Ela é mais velha que você e tem mais experiência. Mas não pode demorar muito. Não esquece que ele vai vir para almoçar conosco. - Não vou demorar. - Vai logo então. - Quer que traga alguma coisa? - Talvez uma cervejinha. - Tá com vontade de beber? - Não. É pra ele. - As vezes que nos encontramos ele tomou refrigerantes. - Mas trás. Pode ser que ele goste. E uma cervejinha no almoço, em casa não é pecado. - Tá. Eu trago. Mas não vou poder acompanhar porque vou pra igreja depois. - Vai logo que o dia hoje vai ser pequeno. - Tô indo. Mirella saiu e foi pra casa de Milena. Quando chegou a irmã se assustou: - Aconteceu alguma coisa com a mamãe? - Não, porquê? - Você não costuma vir aqui. - Vim conversar com você. - Vamos lá pra trás. Estou percebendo que você veio em busca de conselhos. Jairo estava em casa e também percebeu que a cunhada estava perturbada. Elas foram para os fundos da casa e sentaram numa das mesas. Milena disse: - O que é que está te perturbando? Algum problema no trabalho? - Não no trabalho está tudo bem. Eu me dou muito bem com eles. - O que é então? - É que arranjei um namorado. - Já estava na hora. Você está com quase vinte e um anos. Mirella contou como tinham se conhecido, a história de vida dele e seu medo de ver as coisas correndo rápido demais. - Realmente uma semana é muito pouco tempo, mas mamãe tem discernimento pra conhecer as pessoas. Eu não conheço. - Ele trabalha com o Sérgio. - Da Janice? - É. E ele deu ótimas referências dele pra Berenice. - Você contou pra Berenice antes de contar pra mim? - Deixa de ser ciumenta. O primeiro encontro foi numa quinta-feira e na sexta-feira eu fui trabalhar e falei com ela. Você sabe que eu nunca namorei, estava com medo e ela me aconselhou. - Se o Sérgio conhece ele, e falou que ele é uma boa pessoa e a mamãe também gostou dele, fica tranquila. Vai dar tudo certo. - Ele hoje vai almoçar lá em casa. Mamãe convidou. - E a reunião? - Eu vou. A mamãe disse que era pra ele ficar fazendo companhia a ela até eu voltar. - Mamãe convidou ele prá ficar com ela sozinha na primeira vez que viu o cara? - Pois é. Conversavam que parecia que se conheciam desde sempre. Ela disse que era reencontro de almas. - Parece mesmo. Você se importa se na hora que a gente vier da reunião eu vá lá pra conhecer esse rapaz? - Claro que não. Assim você pode formar uma opinião. - Depois da reunião eu vou com você. - Tá bom. Obrigada. Eu tenho que ir ajudar a mamãe. - Vai, mais tarde a gente se fala. Mirella passou pela sala e despediu de Jairo que a olhou preocupado. Depois que ela se foi, perguntou: - Ela está com algum problema? - Não. É que está namorando pela primeira vez e veio se aconselhar comigo. - Desculpa, isso é entre vocês. Eu não quis me intrometer, não sabia que era assunto íntimo. Milena contou para o marido tudo que tinha escutado da irmã e Jairo decidiu: - Vou conversar com o Sérgio. - Acha necessário. - Esse rapaz vai ficar sozinho com a tua mãe dentro de uma casa. Precisamos nos assegurar da índole dele. - Tem razão. Vai lá. Jairo foi na casa do cunhado e explicou a situação. Sérgio deu as informações a respeito de Adriano e Jairo satisfeito voltou pra casa. Quando chegou, informou para Milena: - Podemos ficar tranquilos. O rapaz trabalha com Sérgio há mais de sete anos. Ele disse que é uma excelente pessoa. Apesar das mulheres que trabalham lá darem em cima dele, ele trata com educação, mas nunca se envolveu com nenhuma delas. Parece que o cara é pintoso. Sérgio falou que a tua irmã está em ótimas mãos. - Depois da reunião da igreja eu vou com ela. Quero conhecer esse cara. - Faz bem. Mas o Sérgio conhece o rapaz até fora do ambiente de trabalho. As vezes dá de carona a ele depois do expediente e sabe até aonde mora. Parece que é aqui por perto. Pelo que eu entendi a uns três pontos de ônibus adiante. - Estou mais tranquila. Mas ela me pediu conselhos e eu não posso dar sem conhecer o cara. - Vai sim. É bom eu ir também. Assim ele vê que não são duas mulheres sozinhas. Têm família perto. - Agora deixa eu adiantar as coisas que temos que sair logo depois do almoço. - Não vamos almoçar com meus pais? - Vamos. Mas tenho que deixar a casa em ordem. Amanhã tem o trabalho. - Ainda acho que você devia botar alguém pra te ajudar. - Eu gosto de cuidar da casa. E foi procurar se tinha alguma coisa fora do lugar. Jurandir estava brincando no tapete da sala e tudo estava brilhando. Mirella chegou em casa, colocou as cervejas que a mãe tinha pedido na geladeira e foi ajudar a fazer o almoço. - O que quer que eu faça? - Descasca umas batatas pra fazer coradas. O pernil já está assando e vou fazer uma salada crua. - Já fez o arroz. - Vou fazer mais tarde. Assim fica quentinho pra hora de almoçar. - Vou tomar mais um cafezinho, quer? - Não, obrigada. Muito café deixa a gente nervosa. - É verdade. Vou beber água. - É melhor. Continuaram conversando enquanto Mirella e Dirce faziam a comida. A casa estava toda arrumada. As dez e meia, Adriano chegou. Trazia um buquê de rosas e uma caixa de bombom para cada uma. Mirella ganhou vermelhas e para Dirce trouxe brancas. Dirce agradeceu e falou: - Nem me lembro a última vez que ganhei flores. Mirella perguntou: - Temos vasos pra colocar? - Temos. Vou pegar. Adriano perguntou se havia chegado muito cedo e se podia ajudar em alguma coisa. Dirce vinha voltando com dois vasos e respondeu: - Tá quase tudo pronto. Vão pra sala conversar que eu termino o resto rapidinho. O casal saiu da cozinha e foi sentar na sala, pra conversar. Dirce continuou por mais um tempo terminando o almoço de depois foi se juntar a eles. Ofereceu: - Quer beber uma cervejinha? - Só se vocês beberem comigo. Mirella lembrou: - Eu não posso. Tenho e reunião na igreja hoje. - Então, Dona Dirce, vamos deixar prá depois que ela voltar. - É melhor. Dirce tornou a oferecer: - E um refrigerante? - Um copinho só. Não quero encher o estômago antes do almoço. - Vou buscar. Logo voltou entregando um copo pra cada um e ficou bebericando o seu enquanto conversavam. Ao meio dia retornou pra cozinha e terminou de fazer a comida. Voltou a sala e avisou: - Tá na mesa. Desligaram a televisão e foram almoçar. Depois do almoço, Mirella foi se arrumar para ir pra igreja. Adriano ficou conversando com Dirce. - A senhora cozinha muito bem. - As meninas também. - Obrigado por me convidar pra almoçar aqui. Me sinto muito sozinho em casa. - Você é um rapaz muito bonito e deve ter um monte de garotas correndo atrás. Como pode ser tão sozinho? - Ter até que tem. Mas não me interessaram. Até no trabalho eu tive esse problema. - E como conseguiu sair da situação? - Levei na brincadeira e com o máximo de diplomacia possível mostrei que não estava interessado. Para um namoro, os dois têm que querer. - E com a Mirella? - É diferente. Logo que vi, senti que era a mulher que eu sempre esperei. Não sei explicar. Nunca havia abordado mulher nenhuma, até agora não sei como tive coragem. - Eu sei. Vocês estavam destinados um para o outro. - O engraçado é que normalmente eu venho pra casa de carona com o Sérgio. Eu moro perto daqui, há três pontos de ônibus. Nesse dia o Sérgio saiu mais cedo, parece que tinha algum compromisso com a esposa e nós nos conhecemos. - É o que eu estou falando. Foi o destino que trabalhou. - E com uma semana de namoro, parece que sempre conheci ela. - Você acredita em encontro de almas? - A senhora está falando em reencarnação? - Sim. - Acredito. Se a gente prestar atenção há muitas provas disso no nosso dia a dia. Simpatia ou antipatia por alguém que a gente nunca viu antes, ou chegar num lugar que nunca esteve, mais reconhecer o lugar como familiar, ou mesmo sonhos de uma outra época. - Sonhos de uma outra época, como assim? - Você sonha consigo mesmo, sabe que é você, porém tem outro rosto a roupa é diferente das de hoje em dia, coisas assim. - Já aconteceu com você. - Já. Mais de uma vez. Mirella chegou na sala e sentou perto dele. Ainda era cedo pra sair. - Do que vocês estão falando. A mãe respondeu: - Da vida. Mirella não entendeu, mas começaram a conversar assuntos mais banais até que deu a hora dela sair. Adriano perguntou: - Quer que eu te leve? - Não, fica aqui com a mamãe. O Jairo vai me pegar aqui. Vou esperar no portão que eles já devem estar saindo de casa. Deu um beijinho em Adriano e falou: - Assim que terminar eu volto. Tchau. - Tchau. Depois que ela saiu, ele perguntou pra Dirce: - Quem é Jairo? - Meu genro e cunhado da Mirella. É o marido da Milena, minha outra filha. Você é ciumento? - Nunca fui. Mas confesso que senti ciúmes, quando ela falou que um homem ia pegar ela aqui. - É natural sentir ciúme de quem se ama. Só tem que tomar cuidado para não se tornar obsessivo. - Pode deixar. Vou controlar. Mas voltando ao nosso assunto: A senhora também acredita na reencarnação? - Acredito. Pelos mesmos motivos que você. Observando a vida. Graças a Deus, minhas filhas se adoram, mas já vi até irmãos que se detestam. Como seria possível, se não houvessem problemas não resolvidos em uma vida anterior? - É verdade. Mas agora vamos mudar de assunto. Vamos lavar a louça? - Você é convidado. - Tenho certeza que serei da família. Dá pra me tratar como tal? - Eu também tenho essa certeza. - Então, vamos arrumar a cozinha. Juntos, lavaram a louça e quando Dirce acabou de arrumar tudo no lugar, Adriano falou: - Vai sentar um pouco na sala, que eu vou passar uma vassoura e um pano aqui. - Deixa que eu faço. - Não senhora. A senhora já fez o almoço e cuidou da louça. Vai descansar agora. E gentilmente foi empurrando ela pra fora da cozinha. Assim que terminou, lavou o pano e estendeu na corda. Depois foi sentar ao lado dela e juntos ficaram vendo televisão. Adriano estava adorando o dia. Era como se tivesse finalmente uma família prá chamar de sua. Passava um pouco das quatro horas, quando Mirella voltou trazendo a irmã e o cunhado com ela. Foram apresentados a Adriano e conversaram bastante. Dirce ofereceu lanche, mas ainda não estavam com fome e ninguém quis. Depois Milena disse que ia embora, porque Jurandir tinha ficado brincando com Henrique na casa da Dona Nora. Foram logo e depois que os dois estavam sozinhos, Jairo perguntou: - O que achou dele? - Simpático e inteligente. Parece ser boa pessoa. - Pode ficar tranquila. Ele é uma boa pessoa. Ele olha na cara da gente enquanto conversa. - Notei isso também. Tem um olhar direto. Não é dissimulado. - E gosta de verdade da tua irmã. - Como você sabe? - Pelo brilho nos olhos dele quando olhava pra ela. - Tomara que dê certo. - Tem tudo pra dar. Quando chegaram na casa dos pais dele, o resto da família queria saber como tinha sido o encontro. Jairo contou tudo e declarou: - Tenho certeza que sai casamento em pouco tempo. Na casa de Dirce, Mirella estava ralhando com a mãe porque tinha feito tudo sozinha, não deixando a cozinha pra ela arrumar. Dirce respondeu: - Briga com ele, então. - Porque? - Porque foi ele que fez questão de me ajudar com a louça e limpou a cozinha depois. Eu não queria aceitar, mas ele pediu pra não ser tratado como visita. - Poxa, Adriano. Não precisava ter tido esse trabalho. - Foi um prazer. Senti como se tivesse uma família. Você sabe que eu nem me lembro da minha. Eu era muito pequeno quando fiquei órfão. Dirce declarou: - Vamos mudar de assunto e deixar as tristezas prá lá. - Sentaram e ficaram conversando sobre assuntos mais leves. Mais tarde, Dirce fez cachorro quente para comerem tomando uma cervejinha. Já era tarde quando Adriano se despediu e voltou pra casa. Antes de sair ainda ouviu de Dirce: - Venha sempre que quiser. Pode passar os fins de semana conosco que será um prazer e você não ficará sozinho. - Se o convite é a sério, eu aceito. - É a sério. - Então até Sábado. E para Mirella: - Amanhã te espero no ponto. Deu um beijo em Mirella e foi embora. No caminho pra casa ia pensando, por ele casava hoje mesmo. Mas Mirella nunca tinha tido um namorado. Ele tinha que respeitar o tempo dela. Não podia atropelar os acontecimentos para não assustar a namorada. E dona Dirce, então? Parecia uma mãe com ele. Entrou em casa e sentiu que sua solidão ia acabar. Não gostava dos finais de semana, pelo menos no trabalho tinha companhia sempre. O trabalho era pra ele, um prazer. Não tinha amigos. Não gostava de se juntar com os vizinhos, porque nas poucas vezes que tinha tentado, descobriu que eram diferentes dele. Bebiam demais e quando se referiam as mulheres que não fossem as mães ou irmãs, era sempre com falta de respeito. Tinha alguns que contavam até, com detalhes sobre seus encontros íntimos e viravam piadas entre todos. Por isso preferia ficar sozinho, apesar da solidão que doía. Faria de tudo pra preservar aquele namoro, que pretendia logo transformar em casamento. Na casa de Mirella, mãe e filha conversavam sobre o mesmo tema dos pensamentos de Adriano. Dirce falava pra filha: - Esse rapaz está apaixonado por você. Não vai demorar muito a falar em casamento. - Mas, será que não é por causa da solidão que ele sente? - Não, filha. Nós conversamos bastante enquanto você foi na igreja. Pode confiar, que tem tudo pra dar certo. - O que foi que ele falou? - Eu perguntei pra ele, porque um rapaz tão bonito, que devia ter um monte de mulher dando em cima, se sentia tão sozinho. Aí ele respondeu que era porque nenhuma delas tinha interessado. Que até no serviço, algumas colegas haviam se insinuado pra ele e ele levou na brincadeira para não ter que magoar ninguém. E que não sabia até agora, como teve coragem de chegar em cima de você. Que parece que vocês se conhecem a muito tempo e que logo que te viu percebeu que você era a mulher que ele estava esperando. - É engraçado porque eu senti a mesma coisa. - Então. Logo vai ser pedida em casamento. - Vamos dar mais um tempo. Ainda temos só uma semana de namoro. - Quando é reencontro de almas, uma semana é mais que suficiente para se reconhecerem. - Eu não entendo disso e não sei se acredito. - Passa a observar a vida com mais atenção, que você vai ter a prova disso. - O Jairo conversou com o Sérgio a respeito dele. O Sérgio garantiu que é uma excelente pessoa. Até contou pro Jairo que o Adriano sofre assédio das colegas de trabalho, mas nunca deu confiança pra nenhuma. E o Sérgio trabalha com ele há mais de sete anos. Sabe aonde mora e tudo. Já levou ele em casa algumas vezes. - Então. Quando ele te pedir, aceita logo. Ninguém sabe o dia de amanhã. Não viu teu pai que foi embora cedo. - Cruzes, mãe. Vira essa boca pra lá. - A gente pede a Deus que não aconteça, mas ninguém tem garantia de vida longa. Só Deus é quem sabe. - Eu tenho até medo quando você fala essas coisas. - Eu tenho mais experiência que você e já vi muito mais coisas do que você viu. Eu enrolei seu pai por muito tempo por não querer assumir compromisso muito nova. Se eu soubesse o que ia acontecer tinha casado antes. - Pode deixar. Se ele me pedir, só vou consultar meu coração a respeito do meu sentimento por ele. Se tiver certeza que é amor me caso a qualquer hora. Mudando de assunto: sabe se a obra já começou? - Já. A vizinha me perguntou se eu tinha vendido a outra casa porque entrou muito matéria e foi retirado muito entulho. - Seu Paulo deve ter mandado uma equipe grande. - Bem mais do que os que vêm fazer as mudanças. Ela disse que tem pelo menos uns dez. - Que bom. Vai terminar rápido. - Vamos deitar que está tarde. Boa noite. - Boa noite. No dia seguinte, quando chegou no trabalho, Berenice queria saber da visita de Adriano a casa dela. - Como é que você ficou sabendo? - A Milena contou depois que chegou na casa da mamãe. - Foi como ela contou. Ele passou o dia lá em casa e mamãe adorou ele. Ela já tá falando em casamento. - O Jairo garantiu que ele está amando você de verdade. Quando eu perguntei como ele sabia, ele respondeu que viu nos olhos dele que brilhavam quando olhava pra você. Disse que pareciam duas esmeraldas. - Vai ver que é porque tem olhos verdes. - Que nada. Quando ele olhava pro Jairo e pra Milena, não brilhavam tanto. Já pra tua mãe também brilhavam. - Será? - O Jairo percebeu e a Milena confirmou. O Sérgio tornou a dizer que ele é totalmente confiável. - A mamãe também sentiu isso. Tanto que chamou ele pra almoçar sabendo que eu ia sair. Disse que ele faria companhia a ela enquanto eu fosse na reunião. - Dona Dirce é muito cuidadosa em matéria de segurança, se ela fez isso foi porque sentiu que podia. - Você precisava ver os dois. Enquanto eu fui na reunião ele ajudou ela a lavar a louça e depois mandou ela descansar enquanto ele limpava a cozinha. - Que legal. Como você disse que só se casaria com quem aceitasse viver com a tua mãe também, acho que você encontrou o namorado perfeito. - Tenho medo que seja só uma ilusão da parte dele por conviver com uma família, afinal foi criado em orfanato. Diz que nem se lembra dos pais. - Quando ele te paquerou no ônibus e desceu atrás de você, ele não sabia disso. - É verdade. Vamos dar mais um tempo, pra ver se dura esse amor todo. - Vai durar sim. - Vamos trabalhar? - Vamos. Berenice foi para o quarto do filho enquanto Mirella ia procurando o que tinha pra ser feito. Raramente Berenice tinha que dar alguma ordem a ela. Estava na casa há muito tempo e sabia como Berenice gostava das coisas. Varreu toda a casa e limpou os móveis. Passou pano na casa toda e foi para a cozinha adiantar a comida. Já passava das dez horas e Henrique ainda não havia acordado. Mirella começou a ficar preocupada. Foi ao quarto do menino ver se estava tudo bem. Berenice estava verificando a temperatura da criança. Constatou que estava com febre alta. Falou para Mirella: - Me faz um favor. Liga pro Júlio e pede pra ele vir aqui pra casa de preferência com um pediatra. - Vou ligar agora mesmo. Saiu do quarto da criança e foi ligar para Júlio dando o recado de Berenice. Voltou para o quarto, já levando uma bacia com água morna. Berenice perguntou: - Pra que isso? - Vamos fazer compressas na cabecinha dele. - Não é com água fria que se faz? - Não. A gente coloca com água morna e espera o pano esfriar na testa dele. - Ainda bem que você entende disso. Eu já ia fazer besteira. - Eu tinha muita febre quando criança e me lembro da minha mãe fazer isso. - Qual era o teu problema? - Infecção de garganta. Tive que operar pequena ainda. Acho que tinha de cinco pra seis anos. - E você lembra? - Lembro. Depois da terceira compressa a febre já tinha baixado bem. Nessa hora chegou Júlio com uma pediatra. A doutora examinou a criança e constatou que a garganta estava inflamada. Receitou um antibiótico e pediu que não dessem coisas geladas a ele por um tempo. Berenice agradeceu e pediu a Mirella que fosse comprar o remédio. Júlio perguntou se não queria que ele fosse. Berenice respondeu: - É melhor você voltar pro hospital que a doutora pode estar fazendo falta lá. - Tá bom. Qualquer coisa me liga de novo. - Pode ir sossegado, quando tomar o remédio vai melhorar. A pediatra ainda advertiu: - Se for preciso, continue com as compressas até a febre baixar. Não deixe subir demais. - Pode deixar, obrigada. Júlio foi para o hospital levando a pediatra e Mirella saiu com eles para ir na farmácia buscar o remédio. Por sua conta, comprou também um antitérmico. Voltou e entregou a Berenice, perguntando: - A febre cedeu? - Ainda está alta. - É melhor dar o antitérmico. - A doutora mandou continuar com as compressas. - Com o remédio o efeito é mais rápido e duradouro. - Eu confio em você. Prepara lá pra mim. Mirella preparou e colocou numa mamadeira própria para remédios. Henrique tomou até o fim. Pouco tempo depois estava suando bastante. Mirella aconselhou: - É melhor dar um banho morno nele. Esse suor de febre não é bom. - Eu vou dar. - Enquanto isso vou trocar a roupa do berço. Berenice levou o filho para o banheiro e Mirella providenciou a arrumação do quarto passando pano com cloro no chão e fazendo a troca da roupa. Berenice permaneceu no quarto com o filho o dia inteiro. Mirella levou um prato de comida pra ela, que comeu ali mesmo. Quando deu a hora de ir embora, perguntou: - Quer que fique com você até o Júlio chegar? - Não é necessário. Ele está sem febre agora. Mirella se despediu: - Então, até amanhã. - Até amanhã e obrigada. Sem você aqui eu ia ficar sem saber o que fazer. - Por nada. Amanhã ele já estará melhor, que o antibiótico já vai estar fazendo efeito. Tem que ser dado na hora certa. - Pode deixar. Vai com Deus. Mirella chegou no ponto e Adriano esperava por ela. Adriano perguntou: - Algum problema? - O menino está com a garganta inflamada e ardeu em febre. - Levaram ao médico? - O pai trouxe uma pediatra do hospital que trabalha. Já está medicado. - Porque essa cara de preocupação então? - É que a Berenice não sabe lidar com essas situações. Ficou sem saber o que fazer. - Quer ficar? Eu aviso a tua mãe. - Não. Daqui a pouco o Júlio chega. Ele é mais preparado que ela. - Então vamos. Aí está o nosso ônibus. Pegaram o ônibus e foram. Quando chegou o ponto de Mirella ela saltou e ele seguiu, mas não estava com cabeça para ir ao curso e foi para casa. Quando chegou a mãe se espantou: - Já? - Não fui ao curso. Não estou com cabeça. - O que aconteceu. - O Henrique está doente. - O que que ele tem? - Garganta inflamada, mas já está medicado. - Amanhã então, não vai ter mais nada. - Eu sei, mas o dia foi puxado. A Berenice é muito despreparada. - Por ser a caçula, foi um pouco mimada. Quando vier o segundo vai ser mais fácil. No dia seguinte Henrique já estava brincando normalmente. Berenice perguntou: - Devo continuar dando o Remédio? - Deve pelos dias que a pediatra mandou dar. Senão vai voltar a inflamação e aí o remédio não vai mais fazer efeito. - Tá bom. Eu vou dar. Aonde você aprendeu isso tudo? - Eu tive o mesmo problema, mas já era maior e me lembro. - Eu não me lembro de nada de quando eu era criança. Só de brincar com as minhas irmãs. - Vai ver, você não ficou doente. O resto da semana correu normal e Henrique não voltou a ter febre. Mirella foi ao curso durante o resto da semana. No fim de semana Adriano veio para almoçar já no Sábado, aceitando o convite de Dirce. Na hora de dormir fez questão de voltar pra casa pra garantir a privacidade delas. Domingo chegou cedo.Passaram um fim de semana maravilhoso. E a outra correu do mesmo jeito.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD