- RETORNO À MANAUS

1650 Words
Ponto de vista de Kira Nosso retorno para Manaus foi tranquilo. Jair, Iara, Ghost, Killey e eu seguimos juntos até onde deixei minha moto. Jair já sorri para mim antes mesmo de eu oferecer o capacete extra para ele. — Vem comigo — digo, estendendo o capacete. Ele aceita sem hesitar e o veste, enquanto Iara sobe no bugue com Ghost, enquanto Killey apenas acena com a cabeça antes de montar em sua própria moto e partir. Assim que Jair se acomoda atrás de mim, sinto suas mãos pousarem suavemente na minha cintura. Um aperto leve, seguro. Meu corpo reage instantaneamente. Não sei dizer se já senti isso antes, se já fui tocada assim por outro homem. Minha mente é um quebra-cabeça com peças faltando, e essa é uma delas. Mas uma coisa eu sei: gosto da sensação. Acelero, mantendo o foco na estrada. Destino: Biocom. Preciso entregar o relatório da missão e devolver o projeto recuperado. Mas o melhor de tudo? Trouxe comigo outros projetos que a Dra. Chambers tentava vender. Assim que chego ao prédio, sou chamada sem demora. Vice-diretor Alessandro Andrioli. Dröga. Subo rápido, já antecipando a conversa. Ao entrar em sua sala, adoto a postura formal e me prostro em reverência. Mas algo está estranho. Ele me encara. Longamente. Trinta segundos de silêncio absoluto. Avaliando cada detalhe. Então, finalmente, ele quebra o silêncio: — O que aconteceu com seu ciberolho? E seu ciberbraço? Meu estômago se contrai. — Você tinha um ciberbraço direito. Seu olho direito também era cibernético e agora parece biológico. — Ele inclina a cabeça, olhos estreitados. — Kira, você tem feito intervenções clandestinas no seu corpo? Está indo a clínicas particulares ou do submundo? A pergunta não é casual. Ele está me testando. Respiro fundo, mantendo meu olhar firme. — Não, senhor Alessandro — respondo sem hesitação. — Eu não estou fazendo intervenções no meu corpo. Mantenho a compostura ao falar, mas seus olhos fixos em mim fazem minha voz vacilar por um instante. Alessandro não responde de imediato. Em vez disso, ergue a mão lentamente e desliza os dedos pelo meu rosto. O toque firme e calculado faz um arrepio subir por minha pele, um estremecimento involuntário que não consigo conter. É diferente do toque de Jair—tão diferente que meu corpo inteiro reage sem resistência. Uma onda quente percorre minhas veias, e minha mente se desfaz em fragmentos, incapaz de se manter lúcida sob sua presença. — Senhor Alessandro, irei entregar meu relatório juntamente com os arquivos recuperados, e...dossiês de vários políticos que a Dra. Chambers montou no decorrer de anos. Tem muita sujeira aqui... e... As palavras morrem em minha garganta quando ele me puxa bruscamente, colando meu corpo ao dele em um gesto possessivo. O ar escapa dos meus lábios em um sussurro ofegante. Seu cheiro, a respiração quente roçando minha pele, a força de suas mãos segurando-me no lugar—tudo isso faz meu coração disparar de maneira quase dolorosa. — Você não precisa fazer relatório algum — sua voz grave e baixa vibra contra meu ouvido, cada palavra carregada de autoridade. — Basta me entregar os arquivos e toda a documentação de forma organizada. O calor da sua respiração contra minha pele envia um choque direto ao meu núcleo. Meu corpo responde antes mesmo que minha mente possa registrar o que está acontecendo. Uma tensão perigosa se instala entre nós, e por um segundo, sinto que estou à beira de um precipício, prestes a ceder a algo que não compreendo completamente. Minha boca seca. Tento falar, mas os lábios se abrem e fecham como os de um peixe fora d’água. Meu coração martela dentro do peito, e uma onda de êxtase me percorre. Esse homem me deixa completamente insana. E, como se soubesse exatamente o poder que exerce sobre mim, ele me observa, sustentando meu olhar com uma intensidade quase crüel. Sou alta, mas Alessandro me sobrepuja com facilidade. Sua presença é avassaladora, esmagadora, e o domínio que exerce sobre mim é inegável. Meu corpo já cedeu antes mesmo que minha mente possa resistir—estou derretendo nos braços dele. Então, a porta da sala se escancara abruptamente. Meu corpo se enrijece no instante em que vejo a figura feminina adentrando sem cerimônia. Xiaomei. Reconheço-a de imediato. Alessandro solta-me com uma calma calculada, mas seu olhar se estreita, sombrio. Xiaomei esboça um sorriso ao encará-lo, claramente satisfeita consigo mesma. — Quem você pensa que é para entrar na minha sala sem sequer se anunciar, Xiaomei? — Sua voz sai cortante, ríspida. A tensão no ar é palpável. Mas Xiaomei sequer hesita. Em vez disso, avança alguns passos, destemida, com o olhar carregado de ironia. — Oh, sinto muito por interromper sua intïmidade, vice-diretor Alessandro. — Seu tom é venenoso. — Não sabia que estava utilizando sua Onna-bugeisha para outros propósitos. As palavras dela deslizam pelo ar como lâminas afiadas, mas não me atingem. Pouco me importo com suas insinuações. Volto-me para Alessandro, mantendo-me impassível. Apenas o cumprimento formalmente. Ele assente, um brilho indecifrável nos olhos, e me dispensa com um simples gesto. Sem olhar para trás, deixo a sala, sentindo ainda o peso daquela presença que quase me consumiu. Ao sair da sala do vice-diretor Alessandro, sinto meu corpo ainda tomado por uma energia inquietante. Minha mente tenta se reorganizar, mas os resquícios do que aconteceu ali dentro permanecem cravados em mim como brasas incandescentes. Respiro fundo e sigo meu caminho, concentrando-me no próximo passo. Caminho de volta para meus aposentos, os passos calculados, mas minha mente ainda vagueia. Antes de me retirar, despedi-me do pessoal que veio comigo, instruindo-os a me encontrar na casa de Logan à noite. Passei dinheiro e endereço e agora só me resta aguardar o horário. Foco na tarefa que me foi designada. Organizo os arquivos, deixando-os perfeitamente dispostos, e então me dirijo para entregá-los. Mas, ao chegar ao destino, deparo-me com uma mulher loira, de olhos azuis penetrantes. Informam-me que ela é a secretária do Sr. Alessandro—e, além disso, irmã de sua ex-noiva. A informação paira no ar como um veneno sutil, mas ignoro a pontada incômoda que me causa. Estou aqui para cumprir minha missão, nada mais. Quando avanço na direção dela, seus olhos logo se voltam para mim. Seu olhar é intenso, calculista, mas sua expressão permanece indecifrável. Não faço questão de compreendê-la. Após um instante tenso de observação mútua, ela sorri—um sorriso ensaiado, talvez falso. — Em que posso ajudá-la? — sua voz é educada, mas há algo subjacente ali, algo que me faz querer cortar qualquer interação desnecessária. — Estou aqui para entregar arquivos ao vice-diretor Alessandro. Ela inclina levemente a cabeça, mantendo o sorriso polido. — Pode deixá-los comigo, eu os entrego a ele. Minha resposta é imediata e firme: — Não. Fui designada para entregar pessoalmente. O tom da minha voz é definitivo, e meus olhos sustentam os dela sem hesitação. Não dou espaço para que argumente. Ela parece medir minhas palavras por um momento, mas percebe que insistir seria inútil. Sem mais nada a dizer, aguardo para cumprir o que me foi ordenado, sentindo que cada interação dentro deste lugar se torna um jogo de poder, uma disputa silenciosa que se desenrola a cada olhar trocado. O telefone toca, e a mulher à minha frente o atende com rapidez. Seu tom permanece neutro, mas meus ouvidos captam perfeitamente a voz grave e imponente do outro lado da linha. — Aurora, mande Kira entrar. Mantenho a postura rígida enquanto avanço para dentro da sala, cada passo calculado, carregado de uma presença austera e dominante. Assim que cruzo a porta, meu olhar afiado capta um detalhe inesperado—Xiaomei está saindo. Quase duas horas se passaram desde que deixei esta sala para organizar os documentos. E, durante todo esse tempo, ela esteve aqui? Minha expressão permanece impassível, mas minha mente trabalha rápido. Meu instinto diz que há algo a mais nessa situação. E a confirmação vem no instante seguinte. Xiaomei se aproxima de Alessandro com a intïmidade de quem se sente à vontade demais ao seu redor. Então, sem o menor pudor, inclina-se para cochichar algo em seu ouvido. O gesto me irrita mais do que deveria. Vejo quando os olhos dele se estreitam, analisando-a, mas o que vem depois faz meu sangue ferver. Com uma ousadia quase provocativa, Xiaomei desliza a ponta do dedo indicador pelo peito dele, em um toque atrevido. A resposta de Alessandro é imediata. Sua mão se fecha em torno do pulso dela com força, seus dedos afundando em sua pele em um gesto de advertência silenciosa. O olhar que ele lhe lança é de pura fúria contida. Por um instante, o tempo parece congelar. O ar pesa na sala. Mas ele não diz nada. E o fato de ele permanecer calado me incomoda mais do que qualquer palavra poderia. Ela sai da sala com passos calculados, carregando um ar de superioridade que me irrita instantaneamente. Quando passa por mim, desacelera ligeiramente, apenas o suficiente para lançar um sorriso cínico antes de sussurrar, venenosa: — Então, bonequinha, o vice-diretor te aguarda. Mas não se iluda… Ele só amou uma mulher. E ela está morta. A provocação desliza pelo ar como uma lâmina fria, afiada e precisa. Sinto um aperto no peito, mas minha expressão permanece inabalável. Não lhe dou o prazer de uma reação. Não desvio o olhar, não hesito, não tropeço. Apenas continuo meu caminho, ignorando-a como se fosse insignificante. Ao atravessar a sala, minha presença preenche o espaço com uma firmeza que faço questão de manter. Paro diante de Alessandro e, sem uma única palavra, coloco sobre a mesa todas as pastas com documentos, seguidas de dois estojos. Dentro deles, dezenas de chips que recuperei da Dra. Chambers. Meu olhar se mantém fixo nele, avaliando sua reação. Mas, no fundo, a voz de Xiaomei ainda ecoa em minha mente como um fantasma indesejado.
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