Agora eu sabia, definitivamente, que “me amar da sua maneira” era só uma desculpa para acalentar minha dor infantil e eu a carreguei por quase metade da minha vida. Desde os 16 anos eu me envolvi em relacionamentos onde tiraram tudo de mim.
Eu nunca fui maduro demais para minha idade e Kim Namjoon jamais me amou. Tudo o que ele dizia era apenas para me iludir. Para aquele homem, eu nunca passei de uma idealização que era sexy demais para o seu ego. Afinal, na sua idade ainda se sentir atraente o bastante para f***r com um garoto tão jovem e que ainda por cima faria qualquer coisa que ele pedisse por estar apaixonado, era um grande massageador de ego. Além disso, nossa relação acabou servindo muito bem como escape de seus medos, da sua escolha de viver a vida como a sociedade esperando, fingindo ser um homem hétero e ainda se casando com uma mulher.
Kim Seokjin era outro que jamais havia me amado. O que ele amava de verdade era a ideia do namorado perfeito — e, em seu ponto de vista, isso se resumia a alguém completamente submisso aos seus desejos — que só servia com todos os retoques que ele fazia gradativamente. Ele queria ser o centro do mundo de outra pessoa, alguém para quem se tornasse o seu tudo e ganhasse a liberdade de impor seus castigos quando contrariado.
Park Jimin de longe chegou a, sequer, se apaixonar por mim, isso era tão óbvio. Ele não queria nada mais do que levar o cara que rejeitava a todos para a cama e provar que ele sempre tinha tudo aquilo que desejava. Ele era um homem mimado e nunca escondeu isso de ninguém. Eu só havia sido ingênuo demais por toda a gentileza que mascarava todas as coisas sujas que ele fazia. E cruelmente — já que não havia necessidade de levar aquele jogo tão longe — não satisfeito em ter meu corpo, ele quis me humilhar. Ele conseguiu conquistar meu afeto e o usou contra mim. Porque Park Jimin nunca iria aceitar ser insuficiente para quem que fosse. Ele estava acostumado a ser desejado por todos, porque eu tinha que ser diferente? Sendo assim, ele usou todas as suas cartas para me fazer acreditar que era eu aquele que não era o bastante para si.
Hoseok de diferente não tinha nada, era só mais um daqueles homens que nunca me amou. Eu acho que eles nem sabem o que esse sentimento deve significar. Claro, que na época havia sido muito fácil me iludir com sua amabilidade e proteção, mas seu zelo era desmedido e por dentro daquele homem doce existia um monstro que tinha um desejo enorme de me destruir devagar. Por sorte, eu não o deixei ir mais longe e ele serviu para me fazer repensar em todos esses homens em que eu busquei amor e também na forma dolorosa que cada um deles o dava para mim.
Era até engraçado que depois de tudo pelo que eu passei, descobrir o que era amor de verdade foi o que realmente acabou comigo.
Ele — meu novo amor — nunca encostou um dedo em mim se não fosse para fazer carinho, seu olhar era sempre gentil e as palavras de apoio. Desde sempre eu fui sua maior prioridade e não tinha um momento em que ele não estivesse ao meu lado, fosse por questões necessárias ou apenas por sua vontade.
Nossa relação era tão natural — desde a infância — que eu tomei um tremendo susto quando em meus 23 anos, depois de mais uma temporada de solteirice, meu coração começou a dar sinais justo por si. Eu ainda era muito instável e por causa disso sofria desesperadamente por vontade. Quando ele não estava por perto, eu o queria e queria tanto que doía. No fim das contas, meu jeito de amar também era doentio, eu já tinha notado isso. Eu sempre queria homens para me apoiar neles, me proteger e cuidar de mim como se eu fosse uma criança desamparada.
Por isso, a pior coisa que aconteceu na minha vida foi perceber que eu realmente estava apaixonado pelo meu melhor amigo. Dessa vez parecia diferente. Embora eu ainda temesse que fosse um reflexo da minha carência, meu jeito de me sentir a respeito dele não era o mesmo de antes e, com certeza, não se focava apenas na saudade física. Seja lá o que fossem aqueles novos sentimentos — amor mesmo ou medo de estar sozinho — eu não tinha a menor coragem de lhe contar meu novo segredinho e de qualquer forma, enquanto todos esses sentimentos explodiam dentro de mim, Jungkook seguia sua vida e tinha uma novidade para me contar.
Eu nunca tinha visto meu amigo se envolver com qualquer pessoa. Ele era sempre reservado sobre o assunto e se já tinha ficado com alguém, mas nunca era sério. Então, pela primeira vez, com seus 23 anos, Jungkook me contou que estava namorando sério com alguém e isso doeu.
Era bem verdade que Jungkook era o total oposto dos homens aos quais eu estava acostumado a me atrair e me envolver e era difícil realmente saber se eu o amava ou se eu estava iludido com seu carinho. Para começar a gente tinha a mesma idade e até agora Jimin fora o único cara com menos de seis anos de diferença da minha idade com quem me envolvi e o que menos me completou. Era como se ele não tivesse maturidade o bastante para conduzir nosso relacionamento, sempre faltava algo que eu não sabia explicar. De certo modo, hoje eu penso que Jimin não me passava uma sensação segura. Afinal de contas, vergonhosamente ou não, eu gostava de me sentir sob as asas desses homens e foi assim desde Namjoon, que me fazia sentir mais adulto do que eu realmente era, porém me tratava como um garoto carente. Era meio ridículo admitir isso agora, mas o senhor Kim também supria para mim o amor que nunca recebi de meu pai. Um amor que me foi negado e acabou se tornando uma obsessão devastadora em minha vida amorosa.
Por isso, no começo estava sendo difícil para mim mesmo aceitar que talvez eu estivesse apaixonado mesmo apaixonado por aquele amigo. Só depois de ter gasto tanto tempo pensando se eu estava me precipitando com esse novo amor, eu percebi que era algo muito óbvio quando ele me contou do seu namorado. A dor que eu senti em meu peito não era comum de um mero amigo. O ciúme que senti de suas palavras ao dizer aquilo e do sorriso que tinha no rosto, fez meu peito arder e minha vista ficou levemente turva. Era a segunda vez que eu tinha um sentimento como aquele. A primeira fora quando meu pai contou a mesa que Namjoon iria se casar.
Eu fiquei tão relutante com esse relacionamento, que mesmo sendo seu amigo mais íntimo, nunca me dei ao trabalho de decorar o nome do namorado do Jungkook e só o tinha visto uma vez e bem de longe. Já que me angustiava pensar neles juntos e eu tinha medo de achá-lo bonito e me senti inseguro sobre mim mesmo.
Novas sensações começaram a se apossar de mim. O eu que tinha sempre tido Jungkook apenas para si havia se tornado alguém amargo. Eu odiava pensar que Jungkook era tão carinhoso com ele, quanto costumava ser apenas comigo. Que toda a atenção e zelo que antes era dado apenas a mim agora era compartilhado com aquele estranho. Afinal de contas, o que ele tinha de tão especial para conseguir capturar Jeon Jungkook?
De qualquer forma, eu ainda tinha uma certa vantagem sobre ele e eu sabia que era motivo de ciúmes nesse relacionamento. Por mais filho da p**a que eu estivesse sendo, eu não me importava, usava esse informação ao meu favor. Eu nunca desgrudava do meu amigo e eu ligava para ele vir a minha casa no meio da noite. Sabia que eu ainda era sua prioridade e que ele jamais me deixaria sozinho quando eu precisasse. Dessa forma, Jungkook sempre vinha até mim, mesmo que ele soubesse que sua escolha ia resultar em uma briga com seu namorado. Eu o recebia com uma expressão manhoso e o abraçava, usando a mesma desculpa de sempre. Era a solidão de novo, ela estava me enlouquecendo e eu precisava dele comigo, aquele que era o único em quem eu podia confiar, aquele que estava sempre ao meu lado e que cuidava de mim. Como prova das minhas afirmações ladinas, ele ficava ao meu lado a noite inteira e só ia embora de manhã quando meu cheiro e o seu já haviam se tornado um só.
Isso me fazia imaginar como seu namorado se sentia, sabendo que seu homem havia dormido na minha casa e que ainda voltava para junto de si com meu cheiro gravado em suas roupas. Era c***l, eu sabia, mas não me importava, porque eu estava sofrendo e sendo completamente infantil. Já que, no fim das contas, era ele que tinha Jungkook como seu amante. Eu era apenas seu melhor amigo problemático a quem ele sempre estendia a mão, aquele que só podia lamentar-se sozinho por todas as escolhas erradas que tinha feito no passado.
Embora não fosse um passado tão distante assim, mas as coisas estavam mudando devagar. Eu ainda mantinha meus joguinhos infantis com seu namorado, porém em menor frequência, pois eu achava que, apesar de todo o meu esforço em irritar o rapaz, não adiantava nada eu ficar me iludindo com essas bobagens. Mesmo que ele terminasse com meu melhor amigo, Jungkook ainda era demais para mim. Era isso o que eu pensava, eu não merecia ser amado por alguém como ele, ainda mais quando planejava arruinar seu relacionamento usando minha vulnerabilidade para lhe fisgar. Que tipo de amigo eu era, causando problemas a alguém que sempre me deu a mão? E a troco de que? Afinal, todo o carinho que ele me dava, não era romântico.
Foi no meio de todo esse caos que eu conheci o terceiro Kim da minha vida. O Taehyung.