Quatro

3715 Words
Hoseok me amou de um jeito tão intenso, que Jungkook teve que ir me buscar em um hospital. Ainda me lembro perfeitamente como ele me encarou aquele dia. Claro, como eu poderia esquecer? Meu melhor amigo que tinha sempre um sorriso doce nos lábios para mim, daquela vez me encarou repleto de desespero e se derramou em lágrimas como se a minha dor fosse completamente sua, como se fosse ele mesmo que estivesse sentado ali na fila espera, tão miserável e com a maçã e os lábios sangrando, o maxilar visivelmente inchado, um dos olhos roxo e uma possível fratura na costela. Ao menos era isso que percebia na hora, porque meu coração estava tão machucado quanto meu corpo e isso dispersava minha atenção sobre as coisas. Além do mais, eu me senti tão envergonhado por ele estar me vendo daquele jeito, mas não tinha outra pessoa que eu poderia chamar para me fazer companhia ali. No fim das contas era sempre Jeon Jungkook que vinha ao meu socorro e que assistia em primeira fila, cheio de impotência, como aqueles amores me destroçavam pouco a pouco. E Hoseok, meu namorado na época, depois de me agredir com seu tão falado amor foi embora e me deixou pedindo por ajuda no chão frio da nossa sala. — Também vai chamar isso de amor, Yoongi? — a voz falha, pelo choro, de Jungkook me fez sair do choque no qual eu me encontrava desde que tinha dado entrada no hospital. Nenhum soco ou mesmo chute que Hoseok desferiu contra mim doeu tanto quanto ouvir a pessoa mais próxima a mim me perguntar aquilo, mas só assim eu percebi o quanto aquilo havia doído nele também. Eu não era o único sendo machucado, as pessoas a minha volta, que me amavam também sentiam medo por mim e estar em uma sala de espera era a prova viva de seus maiores temores. Após me fazer aquela pergunta, Jungkook sentou-se do meu lado e segurou minha mão, o mais suave possível. Eu acho que ele percebia como aquilo havia sido pesado e eu não o culpava, porque talvez eu precisasse que ele fosse um pouco mais direto, mais realista, para que eu acordasse de vez. Ele me olhou com ainda mais desespero, quando gemi alto de dor, afinal, seu toque havia sido tão sutil. Só que meu corpo estava ferido em locais que nem os olhos podiam ver e ali era um deles. A minha mão, que era meu maior instrumento, estava quebrada ou algo assim. Naquele momento, eu só sabia que doía demais. Já que aquelas mãos que eu costumava usar para tocar piano, de repente eu tive que usá-las para me defender dos golpes descontrolados de amor do meu parceiro e a parte mais insana de lembrar disso é pensar que eu podia ter me defendido. Eu realmente poderia ter revidado, mas eu não conseguia. Eu era diferente daquele homem c***l. Mesmo que Hoseok não se importasse em me golpear, para mim ferir alguém que amo era impensado e até o primeiro golpe me acertar, eu ainda o amava. Eu chorei como nunca naquela sala de espera, pensando no meu namorado agressivo, no meu futuro como pianista e tantas outras coisas. Minha cabeça estava cheia e eu era incapaz de encarar Jungkook, meu melhor amigo, ainda assim ele estava comigo, mais uma vez. Ele não me deixou sozinho por nenhum segundo sequer e me deu todo o apoio do qual eu precisava. Pelo resto da noite, enquanto eu esperava o atendimento, ele me tocava como se eu fosse quebrar a qualquer segundo e qualquer um que visse de longe poderia afirmar que havia algum risco. Eu estava frágil demais, mas fazia muito tempo que eu estava totalmente despedaçado. Aquela sua pergunta havia me feito perceber isso. Muito antes de Hoseok entrar na minha vida, eu já tinha virado fragmentos de Min Yoongi e eu buscava desesperadamente por alguém que pudesse juntar todos os meus pedaços. No entanto, sempre alcançava o oposto disso. Cada amor que eu aceitava, cada relação que eu entrava só piorava tudo… A cada vez eu só me estilhaçava mais. Depois de algumas horas de faixas, analgésicos, curativos e algumas mentiras — porque eu não queria prolongar a noite em um longo interrogatório cheio de descaso em uma delegacia que eu sabia que ia menosprezar o caso de um homem gay agredido por seu namorado violento. Com certeza eles me iriam apenas indagar porque eu não havia me defendido, alegando que eu não era frágil como uma mulher e poderia dar conta de outro homem, como se eu estivesse fazendo nada mais do que perder o precioso tempo deles — Jungkook me levou para sua casa, devidamente tratado — ao menos na superfície do meu corpo — e me deixou dormir em sua cama espaçosa. E mesmo que eu lhe dissesse que ele podia deitar ao meu lado, já que tinha tanto espaço, Jungkook me disse que tinha medo de me machucar enquanto dormia, mas que não queria sair do quarto. Ele não estava pronto para me deixar sozinho e, para ser honesto, eu também não estava. Eu queria que ele continuasse ao meu lado, mesmo que isso fosse doloroso para ele também. Meu amigo arrastou uma poltrona para perto da cama e sentou-se nela, me dizendo que ali era confortável o suficiente. Apesar dele ter sorrido, no intuito de me deixar mais calmo e menos culpado por lhe dar uma noite tão desconfortável e ainda tirá-lo de sua cama, eu sabia que era apenas uma mentira gentil que ele dizia para que eu me sentisse melhor. Além do mais, mesmo com os pensamentos em um turbilhão, eu não tive muito tempo para me preocupar. Todos os remédios que haviam me dado, começavam a fazer seus efeitos e o mais forte deles era a sonolência. Por conta disso, por mais inesperado que pudesse ser, depois de tudo o que ocorreu até aquele ponto, eu dormi a noite inteira muito, muito tranquilo. Eu simplesmente apaguei, sem pensar em todas as coisas que tinham se passado nos últimos meses, mas o dia não ia me daria nenhuma folga, eu o teria inteiro para relembrar tudo. Bastou que meus olhos se abrissem, para tudo que se apagou com meu sono pesado, voltar de uma vez, como uma avalanche que levava tudo junto consigo, causando uma bagunça que parecia irremediável. Só precisou que meus olhos se ajustassem a luz e que meu cérebro se despertasse de vez. Diversas pontadas de dor, por todo o meu corpo me fizeram recordar por que eu estava no quarto de outra pessoa, porque seu dono me encarava tão ansioso de uma poltrona que não parecia confortável o bastante para uma noite inteira e porque meu coração doía mais do que cada machucado que me despertara em agonia. Meus olhos se encheram, encarando as orbes negras de Jungkook. Seu olhar era tão reconfortante e a expressão tão límpida que me fazia chorar ainda mais. Ele sempre tinha esse efeito de me fazer mostrar a ele tudo o que eu era e tudo o que eu sentia. Depois de passar horas me ouvindo chorar, enquanto sua mão suave afagava meus cabelos e sua voz doce me dizia que eu era alguém incrível que merecia mais do que aquilo, a primeira coisa que Jungkook fez foi garantir que eu nunca mais ia deixar Hoseok se aproximar de mim. Ele disse que sabia bem como caras como ele agiam, se fazendo de arrependidos, para depois me mandar para o hospital de novo ou coisa pior. Meu amigo me fez prometer que não o encontraria de novo, que não ouviria suas desculpas e que jamais o perdoaria. Ainda deixou claro que se ele visse o “maldito Jung” por aí o faria conhecer a verdadeira dor. “É claro que nunca mais quero vê-lo de novo, Jungkookie”, o respondi apenas mentalmente, porque meu choro sufocava minha voz. Ele levantou-se sem minha resposta e foi buscar algo para que eu comesse. O que me deu um tempo sozinho. Um precioso tempo onde eu pude analisar a situação desde o começo, onde eu poderia organizar meus sentimentos para lhe dizer com todas as palavras que eu não permitiria que aquele homem voltasse para minha vida. Mas não tinha muito o que analisar, não depois do que tinha ocorrido na noite anterior. No começo, Hoseok era o homem perfeito, mas qual deles não era? Kim Namjoon, Kim Seokjin, Park Jimin, todos eles se mostraram homens incríveis, do tipo que você não conseguia evitar se apaixonar perdidamente. Era como um padrão, eles agiam sempre assim, como bons garotos, até conseguirem meu amor, coisa que admito não era difícil. Eu era tão carente, que qualquer resquício de gentileza me prendia e era aí que eles me capturavam em suas teias venenosas. Bastava me conhecerem, para queimar o desejo sujo de tirar vantagem da minha vulnerabilidade, dessa minha falta de afeto que precisava ser suprida. Quando comecei a namorar o Jung, pensei que estava um pouco mais cauteloso, das experiências passadas. Eu o conheci no meu primeiro estágio como professor de piano em uma academia de artes. Ele era um dos meus colegas de trabalho, na realidade, diferente de mim, ele era um professor efetivo — afinal, ele era muitos anos mais velho e experiente na área do que eu — e todos o adoravam. Hoseok lecionava dança e como às vezes eu tocava piano para os alunos de dança contemporânea, acabamos nos aproximando. Ele era o tipo de cara simpático que se dava bem com todo mundo, por causa do seu jeito animado e comunicativo. Ser atraído para dentro daquela sua aura era muito fácil, então acabamos saindo várias vezes, depois do expediente, para tomar café e colocar o papo em dia. Esses encontros acabaram se tornando uma rotina entre nós dois e me faziam voltar para casa — para cuidar dos meus trabalhos da universidade — com um sorriso tão largo quanto o seu, adornando meus lábios. A minha vida parecia estar entrando nos eixos. Eu tinha chegado aos meus 21 anos tranquilamente, sem mais Namjoons, Seokjins ou Jimins. Tinha mesmo sossegado com meus relacionamentos tóxicos e dado um tempo a mim mesmo e a toda a carga pesada da universidade. Durante esse tempo minha solidão compôs músicas incríveis e me trouxe algum prestígio no campus e fora dele. Apesar da minha decisão, a fim de me preservar, eu sentia muita falta de alguém para dormir abraçado comigo, ver filmes entre trocas de beijos e carinhos ou para sussurrar palavras doces que faziam o coração inteiro se aquecer. Não fazia muito tempo que eu tinha decidido morar sozinho e por causa disso eu me sentia constantemente triste pela solidão. Algumas vezes, chegava a ser sufocante e, mesmo com Jungkook passando muito tempo comigo, ele não supria o tipo de companhia que eu desejava. Eu queria mais que um amigo, queria um homem que pudesse me abraçar e passar a noite em minha cama. Algumas vezes, eu cheguei a pensar em seduzir meu melhor amigo e fazer dele meu parceiro s****l — tamanha angústia que me acometia — mas espantei a ideia para longe. Não era discutível pôr nossa amizade em risco. Eu não podia abalar a relação que tínhamos há tantos anos, assim. Sem falar que naquela época Jungkook não me causava esse tipo de atração. Óbvio que ele havia se tornado um homem lindo e conhecê-lo o fazia parecer ainda melhor, no entanto, seu sorriso lhe dava um ar infantil. Mesmo que ele tivesse um corpo másculo e chamativo, ele ainda tinha aquelas feições joviais que pouco me despertavam o interesse. Por mais que eu tivesse repulsa por Namjoon e Seokjin, eu tinha que admitir que era aquele tipo de rosto maduro que me deixava e******o e as atitudes mais sérias. Mais esse era o menor dos motivos, porque no auge da minha solidão, eu realmente me pegava desejando ser mais do que abraçado pelo meu amigo. A única coisa que me segurava era o medo que eu tinha de acabar me envolvendo demais e perder meu porto seguro. Porque era isso que Jungkook era pra mim, ele era a única pessoa que me fazia bem e em quem eu podia confiar. Algumas vezes eu até achava que estava me apaixonando por ele e que se fosse assim, eu realmente poderia tentar seguir em frente com isso, mas no fim eu sempre temia que fosse minha carência desmedida pedindo para eu me agarrar a qualquer resquício de afeto e ninguém cuidava de mim como ele. Eu não queria isso, dar àquela pessoa sentimentos tão fracos que nasceram na carência. Então, naquele momento da minha vida, Hoseok parecia uma nova luz e nos primeiros meses em que começamos a sair como um casal, ele irradiou tudo à minha volta com sua alegria. Dessa vez tudo era mesmo perfeito, até mesmo o sexo que era super quente e apaixonado. A gente praticamente viveu em lua-de-mel por um tempo, já que ambos moravam sozinhos e tínhamos toda a liberdade. Nos víamos sempre que dava vontade e isso era basicamente o tempo todo, então em menos de um mês nós decidimos morar juntos Porque não? As coisas estavam muito bem e a gente quase não saia da casa um do outro. Quando o seu contrato de aluguel acabou e ele foi procurar por um novo lugar, eu fiquei pensativo. Um dia, quando estávamos no sofá da minha casa e eu brincava com os fios castanhos em sua testa, eu lhe perguntei se ele já tinha achado um local. “Ainda não, essa época é um pouco difícil, mas tudo bem, não vão me despejar até que eu ache outro lugar”, me respondeu e sem pensar muito, eu lhe disse: — Você só deveria ficar aqui de uma vez. Ele me encarou e sua expressão era tão apaixonada, como jamais havia visto em outro. — É, eu deveria, não é? — Hoseok deslizou sua mão pela minha e a segurou delicadamente, como se estivéssemos selando um compromisso ainda mais sério entre nós. E eu me senti assim, como se estivéssemos quase casados. Afinal, seríamos um casal vivendo juntos, compartilhando toda uma vida. Meu rosto corou e uma felicidade que não cabia em mim me fez tremer. Eu finalmente tinha achado a pessoa certa, alguém que me olhava com tanto carinho e que ficaria ao meu lado daquele ponto em diante. Era como um sonho. Eu nunca mais me sentiria sozinho de novo. Passamos a morra juntos. Meu apartamento era grande o bastante para caber nossas coisas. O redecoramos para deixar o lugar com nossa cara e nossas novas vidas começaram, unidas. Às vezes eu notava certos comportamentos estranhos nele, mas que eu achava que não mereciam muita atenção. Ele mexia no meu celular, o que isso tinha demais? Eu pensava. Também tinha mania de vigiar os meus horários, mas talvez ele só estivesse preocupado comigo e eu até que achava isso fofo. Só que, de repente, ele passou a me segurar um pouco forte demais quando eu não lhe dava ouvidos por não querer prolongar algumas briguinha boba, dessas que todo casal costumava ter. Outras vezes, ele me dava um longo gelo durante o dia e confesso que nem sempre sabia o motivo, o que me deixava desesperado para descobrir o que eu havia feito para chateá-lo, pois não queria fazer de novo. Isso só foi evoluindo gradativamente, como uma doença infecciosa, até ele começar a levantar sua voz para mim em qualquer lugar. Não importava a plateia ou o ambiente, se ele se aborrecia, gritava comigo como se eu fosse uma criança desobediente e ele também me puxava pelos cantos, me arrastando para onde quer que ele estivesse indo, como se eu não tivesse escolha. Então aconteceu. Aquilo que a maioria de nós conhecíamos como agressão, como se todo o resto fosse ameno demais para se encaixar no padrão, mas não era. Todas aquelas suas ações eram tão ruins quanto quando ele me empurrou pela primeira vez. Eu me assustei, como se ele já tivesse me dado grandes resquícios de seu comportamento agressivo e talvez só por isso eu não tenha ficado surpreso de verdade. No fundo eu sabia do que o meu novo namorado era capaz. Eu percebi que, no fundo, eu esperava que isso acontecesse um dia. Inconscientemente, eu levava em conta todos os seus sinais em nosso dia-a-dia juntos. Eu só nunca quis acreditar que ele realmente seria capaz de me ferir e como ele me pediu desculpa chorando, eu entendi que ele andava estressado por causa do trabalho, assim como ele me dissera. Hoseok me abraçou e passou a noite inteira me dizendo que me amava e que tinha medo de me perder por um erro bobo e que ele jamais me machucaria. Poucas pessoas acreditariam, mas eu o amava e sabia que ele me amava também, sendo assim, eu o abracei e disse que estava tudo bem, que eu sabia que ele não iria mais longe do que aquilo. Sabe, às vezes as pessoas perdiam o controle e eu preferi acreditar que aquilo não havia sido nada mais que um episódio. No entanto, Hoseok fez questão de me provar o contrário alguns dias depois, quando mais uma vez ele me empurrou e dessa vez com tanta força que eu caí por cima de um móvel e ganhei alguns hematomas na barriga e nas coxas. O motivo que ele me deu foi bem parecido com o anterior. Ele estava estressado e acabou perdendo o controle com nosso pequeno desentendimento, mas parte daquilo era culpa minha que ficava lhe provocando ciúmes toda hora. Afinal de contas, por que outro homem — Jungkook — ficava me ligando tão tarde da noite e por que eu sempre olhava a tela sorrindo? Mas tudo bem aquela bobagem — me empurrar ou meu flerte descarado com outro homem — não ia afetar nosso amor, eu só tinha que perdoá-lo de novo que a próxima vez realmente não ia acontecer e agora que eu sabia o que lhe aborrecia, poderia evitar futuras discussões. Como se fosse simples ou culpa minha. Só que Hoseok não sabia que eu já conhecia aquele velho jogo de atribuir a culpa de tudo a mim, não era exatamente isso que todos os meus ex faziam? Perceber aquele comportamento me aterrorizou tanto. Dessa vez aquilo não ia colar. Claro que naquela altura eu tinha medo de ficar sozinho em casa com ele, porque eu sabia que ia acontecer de novo, sim, e que não haveria mais espaço para diálogos naquela relação. Ou eu fazia as coisas como ele queria, ou sentiria em minha pele sua fúria. Compelido pelo medo, tive a grande ideia de ir me refugiar na casa de Jungkook. Eu não lhe contei nada e nem pretendia, tudo o que eu queria era um lugar onde me sentisse seguro. Mas ele andava bem desconfiado, como não estaria? Aquele homem me conhecia bem demais para não perceber que eu estava estranho. E, como se quisesse insinuar que eu não podia mentir para si, ele me disse, muito aleatoriamente no meio de uma conversa qualquer, que eu já não parecia mais tão alegre ao lado do Hoseok, que eu parecia estar assustado. Apesar dos olhos negros tão inquisidores sobre mim, eu disse que era bobagem sua e ri. Deixamos o assunto de lado, aproveitamos o tempo juntos. Fazia tempo que eu não passava a noite na sua casa e antes era algo tão frequente. Não queria me preocupar com mais nada. No dia seguinte, quando eu voltei para casa depois das aulas, fui recebido por xingamentos pesados, apenas por ter passado a noite fora. Hoseok foi rápido em me acusar de ter “dado a noite inteira para o meu amiguinho” — ele nem conseguia dizer o nome dele sem contorcer o rosto em asco — porque agora eu tinha medo que ele me tocasse e também porque eu era “a p***a de uma v********a carente que precisava de um homem para me fazer feliz”. Minha boca se escancarou ao ouvir aquilo e meus olhos arderam. Ele conseguiu pegar um problema que eu tinha e deturpar com palavras tão baixas. Aquilo foi o cúmulo, eu me senti tão humilhado que de imediato pedi para que ele fosse embora da minha casa e da minha vida. Não havia mais um pingo de respeito em si. Ele me encarou furioso e foi muito bizarro ver aquele rosto que eu amei por ser tão gentil, desfigurado em ódio. No fim das contas, Hoseok fez o que eu lhe pedi, ele se foi, mas só depois me deixar no chão chorando de dor. Diferente do que Jungkook pensava, ele nunca voltou pra se desculpar. Foi a última vez que eu o vi e na realidade isso me deixou aliviado. Eu estava com medo de voltar ao meu apartamento, mas quando Jungkook e eu chegamos lá não havia nenhum resquício de que ele tinha vivido ali comigo por tanto tempo. A única coisa que ele deixou para trás foi uma pequena cicatriz em meu rosto, para que eu me lembrasse dele para sempre. Embora ela fosse quase imperceptível por fora, essa pequena cicatriz havia criado longas raízes dentro de mim. Eu finalmente havia chegado ao meu limite. Antes de entrar naquele apartamento só meu de novo. Foram naqueles poucos minutos preciosos em que Jungkook preparava meu café-da-manhã e eu me perdia em mil um pensamentos de como tudo havia dado errado de novo. No momento em que meu melhor amigo voltou com um sorriso melancólico e uma bandeja cheia e sentou-se ao meu lado, eu suspirei. Meu olhar devia estar muito vazio, quando eu o encarei, porque era assim que eu me sentia. — Jungkook, o amor não existe. — sentenciei. — Eu estou cansado disso. Eu finalmente percebi que o amor que me ensinaram era doloroso. Não existia esse tal jeito de amar. Assim como na infância eu decidi aceitar essa mentira para consolar minha dor de ser uma decepção para meu pai, eu continuei aceitando por toda a minha vida até ali, apenas para suprir minha solidão e manter todos aqueles homens abusivos na minha vida.
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