Foto

1850 Words
Thiago - PettitGattô A semana que se seguiu ao meu "delírio" no escritório não foi uma semana, foi um teste de resistência psicológica do qual eu quase fui de arrasta para cima. Cada vez que o interfone da minha mesa tocava, meu coração dava um triplo carpado e eu sentia o gosto do café voltando na garganta, cada vez que eu via a Amanda sorrindo para o celular — provavelmente trocando mensagens com o Master — eu sentia uma mistura corrosiva de inveja, pavor e uma curiosidade que me queimava por dentro. Eu m*l conseguia olhar para a minha própria mesa de trabalho sem sentir um fantasma de calor nas minhas costas e o peso de um desejo que eu não tinha o direito de nutrir. Trabalhar se tornou um exercício de masoquismo mental. Eu revisava balancetes, mas via o rosto do Arthur entre as colunas de débito e crédito. O domingo, que deveria ser um dia de descanso para qualquer contador são, era agora o marco zero da minha possível ruína emocional, já que tinha aceitado o trabalho extra e o convite para almoçar. Quando cheguei ao prédio do Arthur, um desses arranha-céus em que o vidro reflete o céu de São Paulo como se fosse uma joia, minha mão tremia tanto que quase deixei cair o laptop. O elevador subiu silencioso, rápido demais, e as portas se abriram diretamente na cobertura. O impacto foi instantâneo... O lugar era... Lindo, não alcançável com o meu salário. O apartamento era amplo e de conceito aberto. Tinha uma vi.be industrial e moderna. O lugar cheirava a uma alquimia doméstica irresistível. O aroma pungente e terroso do alho dourando na manteiga de garrafa flutuava pelo ar, misturando-se à doçura herbácea do alecrim fresco que acabara de ser picado. Havia também a nota ácida e sofisticada de um vinho branco seco que já reduzia no fogo, prometendo um risoto inesquecível. Isso fez meu estômago dar cambalhotas. E, acima de tudo, havia o cheiro dele. Aquele perfume amadeirado, caro, que parecia ter se fundido ao aroma da comida e ao calor do ambiente. Arthur estava de costas para mim, próximo à ilha de granito n***o que servia como o centro nervoso da cozinha gourmet. Ele usava uma calça de moletom cinza que caía perfeitamente nos quadris largos, evidenciando uma estrutura atlética que nem o melhor terno conseguia descrever por completo. A camiseta preta era justa, o tecido esticado sobre os músculos das escápulas enquanto ele se movia com uma graça quase predatória. Por cima de tudo, um avental de couro marrom, pesado, com manchas de uso que lhe davam um ar de artesão rústico. — Você é pontual. Gosto de pessoas que respeitam o tempo alheio — disse, sem se virar. A voz dele, aquele barítono que fazia os meus pelos da nuca se arrepiarem, ressoou pela sala ampla, competindo com o chiado suave da panela. — O almoço sai em quarenta minutos. Pode se acomodar naquela mesa lateral. Os documentos que eu mencionei estão na caixa ao lado do sofá. Seja bem vindo. Tentei focar no meu papel. Coloquei minha mochila em uma cadeira e me aproximei da caixa. O apartamento era inundado pela luz âmbar do final da manhã, o que dava a tudo um aspecto de santuário. Sentei e comecei a tirar os papéis de dentro da caixa. Eram notas antigas, registros de uma vida pré-fama, de quando a agência era apenas um projeto em um quarto alugado, foi o que deu para concluir com poucas olhadas nos documentos. Eu estava mergulhado em recibos de 2018 quando, ao puxar um contrato de locação amarelado, algo deslizou de entre as folhas e caiu no meu colo. Era uma fotografia, levemente gasta nas bordas, com as cores um pouco saturadas pelo tempo. Nela, um Arthur muito mais novo — sem a barba densa, o cabelo mais curto e revolto — sorria com uma entrega que eu nunca vira nele, nem mesmo nas li.ves. Como se estivesse em estado de felicidade máxima. Ele não estava sozinho. Estava abraçado a um homem alto, de cabelos escuros e um olhar profundamente gentil. Os dois estavam numa praia, o sol poente transformando o mar em ouro líquido atrás deles. O braço do Arthur envolvia o pescoço do outro cara, e os dois riam de algo que a câmera capturou para sempre. Não era uma foto de amigos. Havia uma i********e na inclinação das cabeças, uma posse carinhosa que me fez sentir um intruso, um voyeur de uma felicidade que eu não sabia que ele tinha conhecido. Senti um aperto estranho no estômago. Uma pontada de algo que eu me recusava a chamar de ciúme, mas que doía como tal. — O que você achou aí? — A voz do Arthur soou subitamente próxima, cortando o meu transe. Ele estava parado ao meu lado, segurando uma colher de madeira. Quando seus olhos verdes pousaram na fotografia em minhas mãos, vi a máscara do Viking vacilar. Por um microssegundo, a expressão predatória desapareceu, dando lugar a uma sombra de melancolia, um rastro de algo que ele parecia ter enterrado profundamente. — Ah... — Ele estendeu a mão e pegou a foto da minha mão. Seus dedos roçaram os meus por um instante, um contato que me fez queimar. — Eu não lembrava que isso ainda estava aqui. Achei que tivesse se perdido na mudança de 2021. O silêncio que se seguiu foi denso, preenchido apenas pelo aroma de alecrim e pelo som que vinham da cozinha. Arthur ficou olhando para a imagem por alguns segundos, o polegar traçando o contorno do rosto do homem na foto com uma lentidão quase reverente. — É uma bela foto — arrisquei, sentindo minha garganta seca como se tivesse engolido areia. — É... — ele respondeu, a voz um tom mais rouca do que o normal. Ele hesitou por um segundo e, em vez de devolvê-la à caixa, guardou a foto no bolso da calça de moletom. O gesto pareceu-me dolorosamente íntimo. — Já viu se alguma coisa ai serve para restituição? A mudança brusca de assunto me deu um desconforto, e uma curiosidade a cima de tudo. — Nada ainda... Ele voltou para a cozinha sem dizer mais nada. O clima mudou instantaneamente. O barulho da faca batendo na tábua de madeira ficou mais rápido, mais rítmico, como se ele estivesse descontando alguma frustração silenciosa no preparo da comida. Eu tentei voltar para os documentos, mas minha mente estava presa naquela praia, naquele sorriso. Quem era ele? E por que o Arthur parecia tão... humano ao olhar para ele? Tão feliz, radiante... — Droga — ele resmungou de repente. — Thiago, pode me dar uma mão aqui? Levantei, o coração começando a acelerar sem minha permissão. Caminhei até a ilha de granito, onde o calor do fogão era quase opressor. — O risoto está entrando no ponto de finalização, eu não posso parar de mexer ou ele passa do ponto — explicou ele, sem tirar os olhos da panela. — E esse nó... — Ele indicou com a cabeça as tiras do avental de couro que tinham se soltado nas suas costas. — O couro é pesado, está escorregando. Pode apertar para mim? Senão essa coisa vai cair e eu vou acabar fazendo uma bagunça com o caldo quente. Caminhei para trás dele. Arthur era uma parede de músculos. A proximidade era perigosa, quase proibida. O calor que emanava do corpo dele competia com o calor das chamas do fogão. Eu conseguia ver a nuca dele, os fios escuros perfeitamente aparados, e o cheiro do vinho branco evaporando misturado ao suor leve da pele dele me deixou zonzo. Minhas mãos tremiam visivelmente quando alcancei as tiras de couro na altura da sua cintura. Eu estava tão perto que conseguia ouvir o ritmo da sua respiração. — Pode apertar — ele disse. O tom melancólico de minutos atrás fora substituído pela voz de comando. Baixa, firme, absoluta. — Eu preciso sentir o peso do avental firme contra o corpo, é uma mania minha. Segurei as tiras e puxei com força. Meus nós dos dedos roçaram na camiseta preta dele, sentindo a dureza dos músculos das costas e a curvatura da lombar. Eu podia sentir o movimento do seu tórax se expandindo a cada inspiração profunda. O couro do avental gemeu sob a pressão das minhas mãos. — Assim? — perguntei, minha voz saindo num sussurro trêmulo que eu odiei assim que ouvi. — Mais, pode apertar mais um pouco — ele comandou, inclinando a cabeça levemente para o lado, expondo a linha forte do pescoço. Dei o nó final com uma firmeza que me surpreendeu. Por um segundo longo demais, minhas mãos permaneceram ali, as palmas quase encostadas na lateral dos seus quadris, sentindo o calor do seu corpo atravessar o tecido fino da camiseta. O silêncio na cozinha era agora preenchido pelo borbulhar rítmico do risoto e pelo som do meu próprio sangue pulsando ensurdecedoramente nos meus ouvidos. Arthur parou de mexer a panela por um instante. Ele se virou lentamente, ainda dentro do meu espaço pessoal. Como minhas mãos ainda estavam perto da sua cintura por causa do nó, acabamos ficando a centímetros de distância. Ele era muito mais alto, o que me obrigava a inclinar a cabeça para encará-lo. Arthur olhou para baixo, para o meu peito que subia e descia rapidamente, e depois subiu o olhar para os meus olhos por trás das lentes dos óculos. O brilho predatório voltara, mas havia algo a mais — um desafio, uma fagulha de diversão c***l. — Você tem mãos cuidadosas, cara — ele disse, a voz vibrando tão perto que eu senti o eco dentro do meu próprio peito. — Thiago, na verdade, eu te convidei pois queria conversar com você — segurei um suspiro nervoso, dei uma passo atrás. —Sobre o que? — tomebi a cabeça levemente para o lado. —Primeiro, vamos almoçar, e depois, podemos conversar com mais calma, não é nada... de tanta relevância, então, não fique ansioso. Eu estava entre extremidades, uma fria, e uma quente demais. Atrás de mim, a bancada de granito frio, na minha frente, o calor de um homem que parecia saber exatamente como destruir todas as minhas defesas. Eu olhei para a boca dele, lembrando do meu delírio no escritório, e o ar pareceu se tornar escasso na sala. — Eu...bem, tudo bem, Sr. Arthur — tentei dizer, mas a mentira soou patética até para mim, não estava nada bem... num conjunto geral de acontecimentos. Arthur deu uma risadinha baixa, um som sombrio e sedutor. — Ok, já já o almoço fica pronto — Ele estendeu a mão e, com uma audácia que me fez perder o fôlego, tocou levemente a haste dos meus óculos, ajustando-os no meu nariz. — volte para os documentos. Ele se afastou, deixando ali, parado, com as pernas bambas e a certeza de que aquele domingo seria o começo de algo do qual eu jamais conseguiria escapar. O aroma do alecrim e do vinho agora parecia o cheiro de um baeta problemão.
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