Thiago - PettitGattô
O risoto estava impecável, mas para mim, cada garfada tinha o peso de uma bigorna. Eu mastigava mecanicamente, sentindo a textura cremosa do arroz arbóreo e o toque picante da pimenta-do-reino, mas meu paladar estava anestesiado pela adrenalina. Arthur comia com uma calma irritante, me observando por cima da taça de vinho como se eu fosse um espécime raro em um laboratório. Ele não era apenas um cliente, ele era um buraco n***o de carisma e perigo, e eu estava sendo sugado para o centro dele sem qualquer equipamento de segurança. Depois que terminamos, ele me guiou até o sofá de couro italiano na sala de estar. A vista de São Paulo lá fora era um borrão de concreto e luz, mas ali dentro, o ar era denso, quase sólido. Arthur serviu dois cálices de um tinto encorpado, um Cabernet que tinha a cor de sangue sob a luz âmbar da cobertura. E numa mistura de um todo, a comida e a bebida estavam deliciosos.
— Beba, Thiago — ele disse, entregando a taça. — Você parece que vai entrar em combustão espontânea a qualquer momento.
— É só... a pimenta — menti, dando um gole generoso. O vinho era aveludado, mas desceu queimando. — a comida estava maravilhosa, eu só não estou acostumado com pimenta, então... mas estava deliciosa.
Ficamos em silêncio por um momento, apenas o som distante do tráfego e o tique-taque do meu relógio de pulso. Eu tentava mentalmente organizar os documentos que tinha visto, as notas de importação, as notas de compras... mas Arthur não me deixou escapar para a segurança dos números por muito tempo. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, a taça balançando entre os dedos longos. Ele me encarou com uma seriedade que me fez murchar no estofado. Eu poderia sinceramente me enfiar em um buraco.
— Eu não sou homem de rodeios, e acho que você já percebeu isso — ele começou, a voz descendo para aquele tom baixo que ele usava nas lives. — Eu te trouxe aqui porque, além da auditoria, eu tenho uma proposta. Uma necessidade, para ser mais exato — eu assenti, segurando a taça com as duas mãos para esconder o tremor. — Eu quero um parceiro de fo.da, Thiago — ele disparou, sem aviso, sem anestesia. — Faz tempo desde que tive um de verdade, e você me atrai muito. Mais do que eu esperava que um nerd certinho atrairia.
O mundo parou. Eu estava no meio de um gole de vinho quando as palavras dele atingiram meu cérebro. O líquido pegou o caminho errado, e eu entrei em um colapso de tosse violento, o vinho manchando levemente o canto da minha boca e me fazendo perder o ar.
— Calma, respira — Arthur disse, levantando-se instantaneamente.
Ele se sentou ao meu lado no sofá e bateu com firmeza, mas com cuidado, nas minhas costas. A mão dele era enorme e quente, e o toque atravessou minha camisa como se eu estivesse nu. Quando a tosse finalmente cedeu, eu estava com os olhos lacrimejando e o rosto tão vermelho quanto o Cabernet.
— Você... o quê? — consegui perguntar, a voz saindo num guincho.
Arthur não se afastou. Ele permaneceu ali, perigosamente perto, uma de suas mãos agora descansando no encosto do sofá, atrás da minha cabeça, me cercando.
— Eu disse que quero você na minha cama, que quero que seja meu parceiro de se.xo... P.au amigo, sabe como é? — ele repetiu, a paciência dele sendo a coisa mais aterrorizante da sala. — E antes que você comece a gaguejar sobre ética profissional ou sobre como isso é loucura, me deixe explicar o contexto.
Eu olhei para ele, totalmente paralisado. Meu cérebro de garotinho ingênuo e de família — só que não — estava tentando processar a informação, procurando uma categoria para proposta de sexo casual com cliente bilionário, mas o sistema estava dando erro 404.
— Minha vida é uma vitrine, cara. Você viu os números, viu os gastos com equipamentos, os cenários, os brinquedos... — Ele fez um gesto vago com a mão livre. — Eu sou o Viking. As pessoas pagam para me ver em cena, para ouvir minhas histórias, para entrar na fantasia que eu crio. Mas a verdade é que o Viking está ficando sem combustível.
— Sem combustível? — repeti, como um eco i****a, era tudo o que eu conseguia dizer.
— Eu estou há meses sem uma interação real. Sem tran.sar de verdade, sem alguém que esteja disponível, e que não vai fofocar por aí quem é o Viking de verdade. E isso está afetando meu trabalho. Eu sinto dificuldade em levar histórias novas para a live, em manter aquela energia de quem sabe do que está falando porque viveu aquilo na noite anterior. A ficção precisa de raiz na realidade, e a minha realidade está seca. E eu não posso simplesmente sair com qualquer um, tem que ser alguém de extrema confiança.
Ele suspirou, e por um momento, a sombra daquela foto que encontrei na caixa voltou ao rosto dele. Uma vulnerabilidade rápida, logo substituída pela determinação predatória.
— Eu confio que, se eu começasse a sair com você, se a gente explorasse isso... minha performance iria melhorar. Você tem algo, Thiago... essa tensão reprimida, esse jeito de quem quer ser quebrado mas tem medo de pedir. Eu vejo o jeito que me olha, e não me olha como um simples cliente, eu vejo desejo transbordando dos seus olhos, então... porque não?
Eu surtei internamente. O PetitGattô dentro de mim queria gritar de alegria, queria se jogar no colo dele e aceitar qualquer contrato de exclusividade carnal, as noites de sonhos idio.tas e inalcançáveis chegaria ao fim. Estaria sentando no p.au do Viking, e isso era... uau.... Mas o Thiago, o contador de 22 anos, que tinha medo de ser demitido ou de ser descoberto como o "hater/fã" numero um, estava em pânico absoluto.
— Isso é... isso é um absurdo! — eu disse, levantando do sofá, precisando de espaço para não colapsar. — Você está me propondo um... um acordo de benefícios para melhorar o seu engajamento nas redes sociais? Eu sou seu contador, Arthur! Eu cuido dos seus impostos, não da sua libido! Isso é... insano!
Arthur deu uma risadinha, mas permaneceu sentado, observando minha caminhada nervosa pela sala.
— Eu estou propondo uma parceria onde ambos saem ganhando. Eu ganho o estímulo que preciso para o meu conteúdo e para o meu prazer pessoal, e você... — Ele se levantou, caminhando até mim com uma lentidão calculada. — Você ganha o que tem desejado desde que me viu pela primeira vez... Sabe, eu até desconfiei de que era um espectador... Pelo jeito que me olhou.
— Não! Eu não fico de madrugada consumindo... porn.o.grafia!
— Ok... tudo bem. Mas não negue, Thiago. Eu sinto o cheiro do seu desejo daqui.
Ele parou a um passo de distância. Eu estava de costas para a janela, a cidade de São Paulo brilhando atrás de mim como um mar de diamantes, e Arthur era a única coisa sólida no meu universo. A coisa sólida fazendo propostas indecentes. Gostosas, mas muito indecentes. E eu... um virgem de vinte e dois anos, que se acaba tocando pu.nheta enquanto assiste o gostoso que quer me comer, estava surtando, o eu verdadeiro, estava em surto total.
— É uma troca honesta. Sem joguinhos, sem mentiras. Apenas nós dois, explorando o que você obviamente quer explorar, mas não tem coragem de admitir. Eu seria seu, exclusivamente seu, seu parceiro, e você me daria o material humano que eu preciso para continuar sendo o melhor no que eu faço. Sem riscos, sem cobranças, sem amor... Só... Só se.xo! Nada além disso.
Minha mente estava em um loop de terror e êxtase. Eu imaginava o que a Amanda diria. Pois isso era mais louco do que assinar um contrato com um Dominador. Mas, principalmente, eu imaginava as mãos do Arthur em mim, não para ajustar o óculos ou bater nas minhas costas, mas para me levar para o paraíso com estoc.adas fortes.
— E se eu disser não? — perguntei, a voz fraca.
— Se disser não, terminamos essa auditoria, eu te pago o bónus que prometi, e voltamos a ser apenas cliente e contador. Eu sou um homem de consentimento, Thiago. Mas nós dois sabemos que, se você sair por aquela porta hoje sem aceitar, você vai passar o resto da vida se perguntando como seria ser o meu parceiro.
Ele deu um passo final, invadindo meu espaço pessoal. Eu podia sentir o calor que emanava do peito dele, o cheiro de vinho e alecrim. Ele era uma força da natureza, e eu era apenas um burocrata de cabelos ruivos tentando não desmoronar. Arthur inclinou a cabeça, seus olhos verdes fixos nos meus, devorando qualquer rastro de resistência que ainda restasse. Ele não me tocou, mas a pressão da sua presença era mais forte do que qualquer algema.
— E então? — ele sussurrou, a pergunta pairando no ar como uma sentença. — O que me diz, Thiago? Você quer ser apenas o homem que conta o meu dinheiro, ou quer ser o homem que me ajuda a ganhá-lo entre os lençóis?
O silêncio que se seguiu foi o mais longo da minha vida. Eu olhei para ele, para o Viking que estava ali, despido de fantasias mas carregado de intenção, e soube que minha vida nunca mais seria organizada em colunas de débito e crédito.