Thiago - PetittGattô
A pergunta de Arthur ficou suspensa no ar, vibrando como uma corda de violoncelo que acabara de ser tocada com força excessiva. O silêncio que se seguiu não era vazio, era denso, carregado com o cheiro do vinho tinto e a eletricidade estática que parecia emanar de cada poro da pele dele. Minha mente estava presa num turbilhão de pensamentos, o que beirava ao insano por algumas vezes.
Eu comecei a andar de um lado a outro.
Meus pés, calçados em meias sociais caras, deslizavam pelo tapete de fios longos da sala. Doze passos até a janela panorâmica, onde São Paulo parecia um tabuleiro de Banco Imobiliário que eu não sabia mais como jogar. Doze passos de volta, passando pelo sofá onde Arthur permanecia sentado, observando minha agitação com a paciência de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr. Eu realmente não tinha mesmo para onde correr, e na verdade, não sei se queria mesmo correr.
Minha mente que, agora eu sabia ser bem igênua, geralmente tão organizada, estava em chamas. Eu tentava criar uma planilha mental para aquela situação, mas simplesmente não conseguia, quer dizer, até dava para organizar alguns fatos na minha cabeça. Talvez lidaria com isso como se fosse um trabalho.
Ativo: Arthur Valente, o Viking, quer o meu corpo.
Passivo: Minha sanidade, meu emprego, meu coração de virgem i****a.
Saldo: Um desastre iminente revestido de prazer proibido.
— Como... — minha voz falhou e eu limpei a garganta, parando abruptamente a dois metros dele. — Como exatamente isso vai funcionar, Arthur? Se eu... se eu aceitasse, quais seriam as... como posso dizer? A suas exigências?
Eu precisava de estrutura. Precisava que ele transformasse aquela loucura em algo que eu pudesse entender, algo burocrático, para que eu pudesse fingir que não estava apenas vendendo minha alma ao meu maior ídolo e pecado. Arthur descruzou as pernas e se levantou. Ele se moveu com uma economia de movimentos que me intimidava, caminhando até a mesa para pousar sua taça. Quando se virou para mim, seus olhos verdes estavam frios e focados, o que me deixava com a sensação de estar afogando.
— É simples, Thiago. — Ele começou a caminhar em minha direção, reduzindo o espaço com cada palavra. — Primeiro, disponibilidade. Eu sou um homem de impulsos. Minha criatividade para as lives muitas vezes surgem de madrugada ou em momentos inoportunos. Se eu sentir que preciso de você para... reabastecer minha inspiração, eu quero que você esteja lá. Seja aqui, seja no seu apartamento, ou em um hotel se estivermos viajando — engoli em seco. A ideia de ser chamado por ele, de ser uma necessidade física constante, fez meu sangue borbulhar — Segundo, compensação. — Ele continuou, agora a apenas um passo de distância. — Eu sei o quanto você ganha na Lacerda. Acredito que deseja receber mais. Vou acrescentar uma porcentagem generosa aos seus honorários de consultoria. Consideraremos isso como horas extras de auditoria de campo. Se o meu engajamento subir por causa da nossa... interação, uma parte dos lucros das lives também será sua.
— Você quer me pagar para trans.ar com você? — perguntei, sentindo uma pontada de humilhação misturada a uma excitação doentia — como se eu fosse... um cara do job?
— Eu quero valorizar o seu tempo e o seu esforço, Thiago. No meu mundo, tudo é um investimento. Não quero que pense que será visto dessa forma — Ele estendeu a mão, mas não me tocou. Seus dedos ficaram a milímetros do meu braço, como se ele estivesse testando minha resistência. — Mas há uma regra, da qual eu não abro mão.
Eu sustentei o olhar dele, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina.
— Qual?
Arthur inclinou a cabeça. O sorriso divertido desapareceu, substituído por uma expressão de uma seriedade que ainda não tinha visto ele esboçar.
— Eu não aceito que você se apaixone por mim.
O ar pareceu ser sugado para fora dos meus pulmões. Eu senti uma dor física no centro do peito, uma pontada aguda que se irradiou pelas costelas. Era como se ele tivesse acabado de me dar um soco invisível.
— Eu sou uma pessoa que não pensa em amor. Não acredito em relacionamentos, não quero romance, não quero cobranças — A voz dele era plana, desprovida de qualquer calor. — Eu quero um parceiro de fo.da. Alguém que me entenda, que se entregue a mim, que aceite ser explorado e que desfrute disso tanto quanto eu. Mas sem... romance.
Eu desviei o olhar para o chão, sentindo o peso daquela proibição. A ironia era tão amarga que eu quase conseguia sentir na língua. Eu, Thiago, o homem que passava noites em claro assistindo às suas lives, que tinha uma conta secreta dedicada a ele, que era virgem porque nunca ninguém pareceu ser suficiente perto da imagem que eu criei dele... eu estava sendo proibido de amar a única pessoa que eu realmente desejava.
O peito doía. Doía porque ele estava me dando tudo o que eu sempre sonhei em segredo, mas estava arrancando a liberdade de sentir. Ele me queria como um objeto de inspiração, uma ferramenta para o seu império digital. Uma "refeição", como eu mesmo pensei antes. Mas então, um pensamento sombrio e desesperado cruzou minha mente. Se eu dissesse não, eu voltaria para o meu escritório. Eu veria Arthur apenas uma vez por mês para assinar papéis. Eu o veria nas telas, sabendo que ele estaria procurando por outro parceiro. Eu veria outro homem ocupando o lugar que ele estava me oferecendo agora. Outro cara sentindo o peso do corpo dele, ouvindo aquele barítono gemendo no ouvido...
Essa ideia era insuportável. Era pior do que a dor de não poder ser amado.
Mesmo que eu comece a amá-lo ainda mais...
Pensei, as unhas cravadas nas palmas das mãos.
Eu posso esconder. Eu sou um contador, droga. Eu sei esconder valores. Eu sei maquiar planilhas. Eu posso maquiar meu coração.
Eu olhei de volta para ele. Meus olhos azuis deviam estar brilhando com uma mistura de desafio e rendição.
— Você quer um parceiro de fo.da que seja disponível e que não te dê trabalho emocional — resumi, minha voz ganhando uma firmeza que eu não sabia que possuía.
— Exatamente — ele confirmou, os olhos verdes brilhando.
— E você acha que eu sou o homem certo para isso? Mesmo sendo... quem eu sou?
— Eu tenho certeza, Thiago. Ainda mais por você me atrair, sem ao menos tentar...
A verdade bruta das palavras dele me desarmou. Eu não conseguia mais fingir. Eu queria ser dele. Queria que ele fizesse comigo tudo o que eu vi ele descrever nas lives e muito mais. Se o preço para entrar naquele paraíso particular era trancar meus sentimentos em um cofre e jogar a chave fora, que fosse.
— Eu aceito — eu disse.
As duas palavras saíram como um suspiro, uma entrega total. Arthur não sorriu. Ele simplesmente deu o passo final, eliminando qualquer distância entre nós. O calor que emanava dele era opressor, maravilhoso. Ele era tão grande perto de mim, uma montanha de músculos.
— Tem certeza, pequeno contador? Uma vez que começarmos, não terá volta.
— Eu tenho certeza — respondi, inclinando o rosto para cima, o desafio brilhando por trás das lentes dos meus óculos.
Arthur soltou um rosnado baixo, quase animal, e suas mãos finalmente me tocaram. Uma mão subiu para o meu pescoço, os dedos fortes apertando a nuca com uma firmeza que me fez arfar, enquanto a outra mão agarrou minha cintura, puxando contra ele com tanta força que senti o volume rígido entre as pernas dele pressionando minha coxa.
E então, ele me beijou. Não foi nada como os beijos que eu imaginava nos meus sonhos de adolescente. A boca de Arthur tinha gosto de vinho tinto e de desejo, desejo ardente. Ele invadiu minha boca com a língua, uma exploração autoritária que não pedia permissão, apenas reivindicava território. Eu soltei um som abafado, um gemido de pura surpresa e prazer, enquanto minhas mãos subiam desesperadamente para os ombros dele, agarrando o tecido daquela camiseta preta como se minha vida dependesse disso.
O beijo era faminto. Arthur me beijava como se estivesse morrendo de sede e eu fosse a única fonte de água em um deserto. Ele mordeu meu lábio inferior, um puxão firme que me fez estremecer da cabeça aos pés, enviando choques elétricos diretamente para o meu baixo ventre. Meus óculos escorregaram um pouco no nariz, mas eu não me importei. Eu estava perdendo o chão. O perfume dele estava em todo lugar, me asfixiando de um jeito que eu nunca quis que parasse. Eu retribuí o beijo com toda a fome reprimida de anos de solidão e obsessão silenciosa. Eu queria mostrar para ele que, embora eu fosse um contador certinho, eu tinha um incêndio dentro de mim que só ele poderia apagar. Ou aumentar.
Arthur interrompeu o beijo por um segundo, apenas o suficiente para sussurrar contra meus lábios:
— Você não tem ideia do que acabou de aceitar.
— Então me mostre — eu desafiei, minhas mãos subindo para o cabelo dele, puxando levemente.
Ele riu, um som sombrio e delicioso, antes de me atacar novamente com outro beijo, este ainda mais intenso, mais profundo. Ele me empurrou para trás até que minhas costas batessem contra o vidro frio da janela panorâmica. O contraste entre o gelo do vidro e o fogo do corpo de Arthur era quase demais para os meus sentidos aguentarem. Eu estava ali, na cobertura mais luxuosa da cidade, sendo possuído por um beijo pelo homem que era a definição da minha obsessão. Meu peito ainda doía pela regra que ele impôs, mas conforme a mão dele descia para apertar minha b***a por cima da calça social, eu decidi que o amanhã não importava.
Se eu não podia amá-lo com palavras, eu o amaria com cada gemido, com cada marca que ele deixasse na minha pele, com cada centímetro da minha entrega.
O contrato estava assinado. E eu m*l podia esperar pela execução das cláusulas.