O contrato da Amanda

2039 Words
Thiago - PettitGattô A segunda-feira de manhã na Lacerda & Associados costumava ser o ápice da minha zona de conforto. O som das impressoras, o aroma de café barato e o silêncio focado de dezenas de contadores debruçados sobre balanços eram o meu refúgio. Mas, naquele dia, o ar-condicionado parecia insuficiente para resfriar a vergonha que queimava no meu peito. E vai por mim, era uma baita vergonha! Cada vez que eu fechava os olhos, ouvia a voz do Arthur na live de ontem: "Eu tive que desabotoar a camisa social impecável desse garotinho...". Eu sentia como se cada colega de trabalho, do estagiário ao sócio sênior, soubesse que eu era o "nerd indefeso" que o Viking carregou para a cama. E sei que isso era o mais perto de se sentir o centro do universo. Mesmo eu não sendo, era inevitável deixar de dar atenção a coisas assim. Tentei focar na tela do computador. Tentei fingir que o lançamento de créditos tributários era a coisa mais importante do universo. Mas então, a porta da minha sala foi aberta com uma força que quase derrubou o meu porta-canetas que estava em cima da mesa. Amanda entrou com a energia de um tufão. Ela não estava com o uniforme padrão de estagiária discreta. Havia um brilho febril em seus olhos e uma pasta preta, sem identificação, apertada contra o peito. E a julgar pelo assunto de sábado, eu sabia que aquela pasta causaria problemas. — Thiago, tranca a porta — ela ordenou, a voz trêmula — Pelo amor de Deus! — Amanda, eu estou em horário de... — Tranca. Agora. Levantei, suspirando, e girei a chave na fechadura depois de tirar do bolso. Antes que eu pudesse perguntar o que estava acontecendo, ela jogou a pasta sobre a minha mesa, em cima do relatório de lucros e perdas de uma empresa que eu estava cuidando há um tempo. — Ele me deu — ela sussurrou, sentando na cadeira à minha frente. — O Hugo. Ele enviou um motoboy hoje às sete da manhã na minha casa, acredita nisso? É o contrato de submissão. Ele disse que, se eu assinar, a primeira live como "Pet" acontece na quarta-feira. Senti um calafrio. Abri a pasta. O papel era de alta gramatura, cheirando levemente a coisa cara — o perfume dele, muito provavelmente. Não era um documento amador. Tinha cláusulas, parágrafos, termos de responsabilidade e uma seção de "Direitos e Deveres" que faria qualquer advogado constitucionalista ter um AVC. — Você é o único em quem eu confio mostrar isso, Thiago — ela disse, inclinando para a frente. — Analisa isso comigo. Eu não entendo metade dos termos técnicos que ele usou aqui, ou entendo mas não consigo concentrar para entender cem por cento. O Contrato do Master, o desespero da minha amiga... e eu no meio de toda essa merda. Nem o suspiro forte que soltei me ajudou a relaxar. Abrimos o navegador em uma aba anônima. Eu me senti um criminoso digital, pesquisando termos de fetiche dentro de um dos escritórios de contabilidade mais tradicionais de São Paulo. Tudo isso para ajudar uma amiga em apuros. — Cláusula 4.2 — li em voz alta, a voz falhando um pouco — A Submissa reconhece que o Master detém o direito de gerenciar sua imagem, rotina e estímulos sensoriais durante os períodos estipulados de Protocolo. Amanda, o que diabos são estímulos sensoriais? — Joga no Google, Thiago — ela pediu, as mãos entrelaçadas. Digitei. O que apareceu na tela nos deixou em silêncio por um minuto inteiro. Imagens de vendas, abafadores de som, eletroestimulação e... Violet Wand. — Violet Wand? — Amanda leu na tela. — Um dispositivo que utiliza correntes elétricas de alta frequência para proporcionar sensações de formigamento, choque ou calor intenso... — Ele quer te dar choque, Amanda? — Eu a olhei, horrorizado. — Não é choque de tomada, bobinho. Olha a descrição... é sobre despertar as terminações nervosas. Ele mencionou isso no sábado, eu acho... Ele disse que eu era reativa. — Ela mordeu o lábio, e eu vi que ela não estava com medo. Ela estava fascinada. EU ESTAVA APAVORADO! Continuamos a leitura. O contrato mencionava termos como "Safe Words" (RNR - Risk-Aware Consensual Kink) e "Aftercare". — Aftercare — pesquisei. — O período de cuidado, carinho e reidratação após uma cena intensa de b**m, focado em estabilizar o emocional do submisso. — Foi o que o Arthur fez com você... — Amanda comentou, sem tirar os olhos da tela — ele te deu banho, te deu comida, cuidou de você. Ele fez um aftercare completo, mesmo sem você ter assinado nada. Sem vocês terem... tra.nsado. — Se era uma forma de me deixar menos horrorizado, você falhou miseravelmente! Eu me senti atingido de qualquer forma. Ela tinha razão. Arthur não estava apenas sendo um bom cliente, ele estava seguindo o instinto de um Dominante que cuida do que é seu. — Cláusula 7, Punições e Protocolos de Disciplina — continuei, tentando mudar de assunto. — O não cumprimento das ordens diretas resultará em penalidades físicas ou psicológicas, incluindo, mas não se limitando a: Cornering, Spanking e Sensory Deprivation. — O que é Cornering? — Amanda perguntou. — A prática de obrigar o submisso a ficar de pé em um canto, voltado para a parede, por períodos prolongados de tempo para induzir a reflexão e a humildade — li, sentindo um nó na garganta. — Amanda, ele quer que você fique no castigo como uma criança. Isso é... muito esquisito! — E é normal assistir um cara se masturbar na frente de uma câmera?! E ainda doar grana? De qualquer jeito, eu quero ficar, quero fazer o que ele mandar — ela respondeu com uma seriedade que me calou — Você não entende? Minha vida inteira eu tive que ser a adulta. Meus pais, a faculdade, o estágio... Eu estou exausta de mandar em mim mesma. O Hugo... o Master... ele me oferece o direito de não ter que pensar. De apenas obedecer e ser cuidada... E isso deveria soar como algo muito bom! Eu olhei para ela, vendo a transformação. A Amanda alegre e impulsiva estava sendo substituída por alguém que ansiava por limites... Eu não sei se me acostumaria com isso. — Ele também colocou uma cláusula de Recompensas — apontei. — A obediência exemplar será recompensada com mimos materiais, experiências de luxo e a 'Consumação Final'. Amanda, ele deixou claro que o sexo é um prêmio. Se você não se portar bem, ele não vai... você sabe... — Ele me disse isso também — ela suspirou, o rosto corado. — Ele disse que eu ia implorar pelo toque dele como se fosse oxigênio. E Thiago... depois do que ele fez comigo no colo dele, eu acredito... Acredito que vou... droga, eu sou uma pervertida, mas tudo isso me encanta... Ficamos ali, no silêncio da minha sala trancada, pesquisando brinquedos que pareciam instrumentos de tortura medieval, mas que, na voz do Master, soavam como promessas de prazer. Vimos o que era uma Roda de Wartenberg, um dispositivo de metal com espinhos que rola pela pele, esquisito pra um cace.te! Vimos sobre Cane, as bengalas de castigo e sobre o uso de Coleiras de Treinamento. — Ele quer que eu use uma coleira, bem, não é tão bizarro. Uma coleira física, com o nome dele gravado por dentro... — E você vai aceitar? — Eu vou pedir para ele colocar agora mesmo, se ele quiser! A intensidade da entrega dela me assustava, porque eu via o reflexo disso em mim. Eu também estava pesquisando secretamente sobre Daddy/boy e Controle Parental desde que o Arthur me deixou na cama. Eu era tão submisso quanto ela, mas a minha máscara de contador era muito mais pesada. E eu tinha princípios que ela nitidamente não tinha... Jamais deixaria minhas vontades serem comandadas por alguém. Amo a minha liberdade! Mesmo sendo pobre. Nada contra ao que ela estava escolhendo fazer... De certa forma era algo bem... sensual, estimulante... mas sei lá... para mim não servia muito. O interfone da minha mesa tocou, cortando o clima, nos dando um susto. Amanda deu um pulo, quase derrubando a pasta preta. — Thiago? — Era a voz do Dr. Lacerda, o dono do escritório. O tom dele era de urgência e, curiosamente, de uma deferência que ele raramente demonstrava. — Sim, Dr. Lacerda? — O Sr. Arthur Valente acabou de chegar. Ele está aqui na recepção. Disse que trouxe pessoalmente a pasta de documentos que você solicitou na sexta-feira. Ele fez questão de subir para entregá-la a você. Meu coração parou. Meus pulmões esqueceram como processar oxigênio. E eu sentia um pré infarto chegando. — Agora, Dr. Lacerda? — minha voz saiu dois tons acima do normal. — Sim, ele já está a caminho da sua sala. Ah, e Thiago... trate-o com a máxima atenção. Clientes com o faturamento dele não aparecem todo dia. O clique do interfone soou como uma sentença de morte inevitável. Olhei para a Amanda. Ela entrou em pânico, tentando enfiar o contrato do Hugo de volta na pasta preta. — Uh, seu boy magia está a caminho — ela sussurrou freneticamente. — Boa sorte, tentando não ficar nervoso... Ah, e vê se não baba em cima dele. — Pu.ta que pariu! Não estava esperando por ele — eu falava meio nervoso, minhas mãos tremendo enquanto eu tentava fechar o Google Imagens, que ainda exibia uma foto de um brinquedo citado no contrato e entre outras coisas. Amanda conseguiu esconder a pasta dentro da gaveta de arquivos mortos segundos antes de ouvirmos duas batidas firmes na porta. Duas batidas que eu reconheceria em qualquer lugar. O ritmo de quem domina o ambiente antes mesmo de entrar nele. E isso descrevia muito bem a postura dele. — Thiago? — A voz do Arthur, aquele barítono suave e perigoso, atravessou a madeira. Amanda destrancou a porta com a mão trêmula e saiu em disparada, m*l olhando para o Arthur ao passar por ele. Ela murmurou um Bom dia e desapareceu em direção ao banheiro. Eu tive que segurar uma risada, Amanda era incapaz de disfarçar que estava nervosa. Arthur entrou. Ele estava impecável. Um terno azul-marinho que custava mais do que o meu apartamento, bem, era o que eu supunha, os cabelos perfeitamente alinhados e um sorriso que era puramente predatório. Ele carregava uma pasta de couro legítimo, mas o modo como ele me olhava dizia que os documentos eram a última coisa em sua mente. E isso me desestabilizava, a forma que me olhava... Como se buscasse algo em mim. Su começava a contar que ele encontrasse em mim, tudo o que queria... Principalmente por ter passado a noite toda imaginando ele... imaginando como seria. — Bom dia, Sr. Thiago — ele disse, fechando a porta atrás de si com um clique suave — Você parece ter visto um fantasma. — Desculpa, não estava esperando por nenhum cliente hoje. Ele caminhou até a minha mesa, colocou a pasta sobre o tampo e se inclinou, apoiando as mãos no meu território. O perfume dele — aquele amadeirado caro — inundou meus sentidos, derrubando todas as minhas defesas de segunda-feira. — Me deculpa por isso. Eu trouxe o que você pediu — ele continuou, a voz baixando para um sussurro que me fez lembrar, com uma nitidez dolorosa, da live de ontem à noite — Mas eu vim principalmente para ver se você se recuperou daquela... bebedeira de sexta feira. Você está bem, Thiago? Ou precisa que eu cuide de você novamente? Eu estava preso entre a cadeira e a presença esmagadora dele. O escritório da Lacerda & Associados nunca pareceu tão pequeno. E eu nunca estive tão perto de perder o controle. Pisquei algumas vezes e ajustei o óculos na ponte do nariz. Arthur franziu o cenho e deu uma risadinha. — Você é tenso... Não sei se já te disseram isso, mas amigos servem para provocar... e eu acho legal que fica nervoso com qualquer minima coisa... É... ele tinha razão, e eu desmaiaria a qualquer momento. — Posso parar se pedir, Sr. Thiago. E eu queria que ele parasse?!
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