Sem almoço...cap..8

589 Words
ISABELA FERRARI  Termino as cópias do contrato e corro para entregá-las ao Sr. Alencar. Ele m*l levanta os olhos da tela, só estende a mão e pega os papéis. Sem “obrigado”, sem “bom trabalho”. Simpatia passou longe. Volto para minha mesa com a mesma velocidade, determinada a começar logo a missão impossível: organizar aquele monte de documentos encalhados desde a época dos dinossauros. Tô tão focada, tão imersa, que só percebo a presença dele quando a voz chega do meu lado: — Oi. Assusto levemente, mas disfarço. — Oi. O senhor... deseja algo? — pergunto educada, mas sem muita cerimônia. — Primeiro: me chame de Scott. Sem “senhor”. A menos que queira me envelhecer. — diz com um sorriso simpático. — Isabela Ferrari. — respondo, estendendo a mão. Ele a aperta com leveza. — Prazer, Isabela. Uau... você está afundada até o pescoço, hein? — comenta, apontando para a pilha de papel. Dou um sorrisinho cansado. — Um pouquinho, acho. Olho para a montanha e penso se as ex-secretárias realmente trabalhavam. Se não... o que exatamente elas faziam aqui? (“Além de aquecer a cama do chefe”, responde a minha consciência ácida.) — Não vai almoçar? — ele pergunta, surpreso. — Ainda não está no horário. — Já passou das onze, Isabela. — Nossa, nem percebi. Mas não vou, quero terminar isso e entregar dentro do prazo. — Você tem a semana toda, não? Solto uma risada irônica. — Aí que está. O Sr. Alencar me deu até amanhã pra deixar tudo organizado. — Uau. O Victor pegou pesado. Dou de ombros. — Acho que é castigo... eu... sem querer... derramei café na camisa dele ontem. Scott dá uma gargalhada. — Foi você? A responsável pela “tragédia da camisa italiana”? — Foi um acidente! Eu juro. — falo, meio envergonhada. — Agora tudo faz sentido. — comenta divertido. — Boa sorte com os papéis. E com ele. — Obrigada, Scott. Ele se despede com um aceno e sai. Pelo menos ele é simpático. Bem diferente do sócio ogro e m*l-humorado. Olho no relógio: já passou do meu horário de saída. Organizo minha mesa, separo os documentos que ainda faltam e coloco na bolsa. Sim, vou levar trabalho pra casa. Se for preciso, viro a noite — mas eu vou terminar isso. Minha barriga ronca alto. Desde o almoço — que nem aconteceu — só bebi café. Tô faminta. Comeria até um boi vivo. E esses saltos? Tortura autorizada por lei. Suspiro aliviada por não ter cruzado mais com o Sr. Alencar hoje. Mas... claro que falei cedo demais. Ali vêm ele e Scott, saindo do elevador. Victor: cara fechada, terno impecável, olhar afiado como uma lâmina. Scott: sorriso de sempre, tranquilo, sociável. — Oi. — Scott acena com leveza. — Oi. — respondo, forçando um sorriso cansado. — Vai nos acompanhar no elevador? — pergunta. — Não. Vou de escadas. — De escadas?! Com todo esse monte de papel? — Sim... Não sou muito fã de elevadores. — Sério? Eu também não gosto muito. — ele sorri. — Vamos, Scott. Chega de conversa fiada. — interrompe Victor, seco como sempre, sem nem olhar pra mim. — Tchau, Isabela. — diz Scott gentilmente. — Tchau. — murmuro, observando as portas se fecharem. Enquanto o elevador desce com o ogro m*l-humorado e o senhor simpatia, eu começo a encarar os degraus. Respira, Isa. Você sobreviveu ao primeiro dia. Falta só... o resto da vida.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD