ISABELA FERRARI
Termino as cópias do contrato e corro para entregá-las ao Sr. Alencar.
Ele m*l levanta os olhos da tela, só estende a mão e pega os papéis.
Sem “obrigado”, sem “bom trabalho”.
Simpatia passou longe.
Volto para minha mesa com a mesma velocidade, determinada a começar logo a missão impossível: organizar aquele monte de documentos encalhados desde a época dos dinossauros.
Tô tão focada, tão imersa, que só percebo a presença dele quando a voz chega do meu lado:
— Oi.
Assusto levemente, mas disfarço.
— Oi. O senhor... deseja algo? — pergunto educada, mas sem muita cerimônia.
— Primeiro: me chame de Scott. Sem “senhor”. A menos que queira me envelhecer. — diz com um sorriso simpático.
— Isabela Ferrari. — respondo, estendendo a mão.
Ele a aperta com leveza.
— Prazer, Isabela. Uau... você está afundada até o pescoço, hein? — comenta, apontando para a pilha de papel.
Dou um sorrisinho cansado.
— Um pouquinho, acho.
Olho para a montanha e penso se as ex-secretárias realmente trabalhavam.
Se não... o que exatamente elas faziam aqui? (“Além de aquecer a cama do chefe”, responde a minha consciência ácida.)
— Não vai almoçar? — ele pergunta, surpreso.
— Ainda não está no horário.
— Já passou das onze, Isabela.
— Nossa, nem percebi. Mas não vou, quero terminar isso e entregar dentro do prazo.
— Você tem a semana toda, não?
Solto uma risada irônica.
— Aí que está. O Sr. Alencar me deu até amanhã pra deixar tudo organizado.
— Uau. O Victor pegou pesado.
Dou de ombros.
— Acho que é castigo... eu... sem querer... derramei café na camisa dele ontem.
Scott dá uma gargalhada.
— Foi você? A responsável pela “tragédia da camisa italiana”?
— Foi um acidente! Eu juro. — falo, meio envergonhada.
— Agora tudo faz sentido. — comenta divertido. — Boa sorte com os papéis. E com ele.
— Obrigada, Scott.
Ele se despede com um aceno e sai.
Pelo menos ele é simpático. Bem diferente do sócio ogro e m*l-humorado.
Olho no relógio: já passou do meu horário de saída.
Organizo minha mesa, separo os documentos que ainda faltam e coloco na bolsa.
Sim, vou levar trabalho pra casa. Se for preciso, viro a noite — mas eu vou terminar isso.
Minha barriga ronca alto. Desde o almoço — que nem aconteceu — só bebi café.
Tô faminta.
Comeria até um boi vivo.
E esses saltos? Tortura autorizada por lei.
Suspiro aliviada por não ter cruzado mais com o Sr. Alencar hoje.
Mas... claro que falei cedo demais.
Ali vêm ele e Scott, saindo do elevador.
Victor: cara fechada, terno impecável, olhar afiado como uma lâmina.
Scott: sorriso de sempre, tranquilo, sociável.
— Oi. — Scott acena com leveza.
— Oi. — respondo, forçando um sorriso cansado.
— Vai nos acompanhar no elevador? — pergunta.
— Não. Vou de escadas.
— De escadas?! Com todo esse monte de papel?
— Sim... Não sou muito fã de elevadores.
— Sério? Eu também não gosto muito. — ele sorri.
— Vamos, Scott. Chega de conversa fiada. — interrompe Victor, seco como sempre, sem nem olhar pra mim.
— Tchau, Isabela. — diz Scott gentilmente.
— Tchau. — murmuro, observando as portas se fecharem.
Enquanto o elevador desce com o ogro m*l-humorado e o senhor simpatia, eu começo a encarar os degraus.
Respira, Isa.
Você sobreviveu ao primeiro dia.
Falta só... o resto da vida.