CAPÍTULO 6

1052 Words
CECÍLIA GRASSO Atrasado. Ele está atrasado, meu noivo, meu algoz, meu destino mais c***l, está atrasado, não o culpo por desistir. Quem em sã consciência se casaria com alguém que nunca viu, e a decepção quando me ver será grande. Ajeito o véu ridículo tapando meu rosto, Eleonora me fez usar um, diz que e para meu noivo não se assustar quando me ver, pra ter a decepção depois de assinar os papéis, ela é uma maldita. Estamos ela, meu pai e umas amigas tão malditas quanto ela, rindo e debochando de mim, o juiz a nossa frente impaciente. Estou no altar, sozinha, pálida, tremendo, meu coração bate tão alto que acho que o padre consegue ouvir. O véu cobre meu rosto inteiro, ainda bem, porque eu sei que devo estar ridícula. O vestido parece cortina velha, o tecido coça, a costura arranha meus braços. Eleonora escolheu a dedo, lógico. Ela queria que eu tivesse vergonha até do meu oxigênio. E deu certo. Respiro fundo. Dois dias atrás eu estava trancada num quarto sem janela. Agora estou aqui… indo direto pra boca do lobo. Literalmente. “Você vai morrer”, eu mesma sussurro na cabeça. Todo mundo sabe quem é Fillipo Trentino. O mais c***l dos trigêmeos. A arma viva da família. A sombra que some com quem respira errado. Meu marido. O pensamento me dá náusea. O juiz pigarreia, como se tentasse disfarçar o constrangimento de estar celebrando um casamento que parece funeral. Nem música colocaram, nem flor, nada, só o silêncio que pesa como pedra. Então… A porta abre. E eu vejo. Primeiro, o som. Aquele passo firme, que ressoa pelo chão como se o piso tivesse medo de não obedecer. Depois a imagem, alta, larga, imponente. Ele entra como se fosse o dono do mundo. Talvez seja. Minha respiração trava. O véu cobre meu rosto, mas eu vejo o suficiente pra perder o ar. Ele é lindo, .as não o tipo de beleza suave. Não. Ele é afiado, perigoso, belo como faca nova. E está sujo de sangue. Sangue seco no colarinho, manchas frescas nas mãos. Como se tivesse acabado de matar alguém e viesse direto cumprir essa formalidade, nem lavou, nem trocou de roupa. O estômago vira. Ele anda rápido até mim, nem olha, nem tenta, só para ao meu lado com aquele cheiro metálico no ar, como se carregasse morte no perfume. — Anda logo com isso, juiz. A voz dele retumba, grave, direta, cheia de impaciência, meio rosnado, meio ordem militar. Meu pai sorri. Eleonora ri baixo, as amigas dela se abanam, como se estivessem assistindo algo divertido. Eu engulo seco, meus dedos gelam no buquê que Eleonora fez questão de me dar, murcho, pobre, quase simbólico. Ele olha para mim pela primeira vez. E eu quase desabo, não de medo, mas do quanto ele é bonito, olhos azuis intensos, cabelos pretos, caídos nos olhos, um pouco rebelde, a camisa com botões abertos, o sangue nela, o deixavam estranhamente mais bonito, me sinto ainda pior. Um nada diante de tamanha beleza e imponência. — Que merda de vestido é esse. Horroroso. As palavras cortam mais que o tapa de Eleonora, sinto o rosto pegar fogo debaixo do véu, não respondo, nem posso, meu medo prende meu queixo, trava minha língua, o padre tenta continuar, tropeçando nas palavras. — Faremos a cerimô... — Rápido. Preciso ir. Vamos logo pro “aceito”. Não é uma cerimônia. É um contrato, uma pressa, uma obrigação,.ele.quer correr daqui, e isso é nítido. Eu digo “aceito”. Minha voz sai baixa, quase um sussurro desesperado. Ele diz “aceito” como quem assina um recibo. E antes de eu entender que agora sou casada, ele já está se virando para ir embora. — O motorista vai te levar até minha casa. É tudo que ele diz, nada mais, nem olha pra mim, nem espera. Sai do altar como entrou: impaciente, arrogante, coberto de sangue. E eu fico. Parada, ridícula, sozinha no altar com um anel leve demais e um destino pesado demais. Meu pai ri. Eleonora respira perto da minha orelha, venenosa: — Não vai durar um dia, bastarda. O próximo sangue na roupa dele vai ser o seu. Prometo chorar muito no seu velório. Ela está feliz, radiante, porque minha vida agora não pertence mais aos Grasso, pertence a uma morte ambulante. Sou guiada, quase empurrada, até o carro dos Trentino, nem abraço, nem parabéns, nem olhar, nada,.um casamento que ninguém queria assistir e que acabou antes de começar. O motorista nem fala comigo, só dirige, saímos de Napoli, cruzamos estradas, túneis, colinas. Horas passam, meu coração bate o tempo todo, uma dor constante no peito. Quando finalmente chegamos, vejo. Não é casa. É castelo. Pedras antigas, torres, portões de ferro. Guardas armados, bandeiras discretas, parece cenário de filme sobre reinos, mas aqui o sangue é real. Minha boca abre sem querer, eu… vou viver aqui? Bom, se eu viver. O motorista não me dá tempo pra pensar. Ele só abre a porta do carro e aponta. — Por aqui. Passo por corredores enormes, frios, silenciosos, tudo é grande demais, bonito demais, morto demais. A casa cheira a poder. E perigo. E algo mais… vazio. Nenhum sinal dele. Nenhum olhar curioso, apenas o meu, eu não saio desde meus dez anos, tudo é novo para mim, isso seria mágico, senão fosse trágico para mim, tudo é tão lindo, tão perfeito, passei minha vida num quarto minúsculo que nem tinha janela, e o mundo eno4me que nem vou chegar a ver. — Anda. Uma mulher segura meu braço, me levando para dentro do castelo, sou arrastada e levada para o andar de cima, tem vários andares esse castelo. — O sr. Trentino, mandou tomar banho e vestir a lingerie que deixou na cama. Ela diz me colocando no quarto, logo ela fecha a porta e me vejo num quarto gigantesco, era bonito, sofisticado como nunca vi, a cama gigantesca, e o capete combinando com os móveis, eu olhei a cama, céus a anos não vejo uma cama, não toco, não sento, e essa era tão grande que caberia umas vinte pessoas. Me aproximo e vejo a lingerie obscena. Era vermelha, transparente, minúscula. Ele vai me tomar hoje, céus, vou ter que t*****r com aquele homem enorme? Merda.
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