A Verdade não Dita

1054 Words
O vento da madrugada cortava a pele como navalha quando Cecília chegou ao mirante. O local ficava no ponto mais alto do morro, onde as luzes da cidade pareciam estrelas invertidas. Danilo já estava lá, encostado no parapeito de concreto, com as mãos no bolso e o olhar perdido. Ela se aproximou em silêncio. Ele virou o rosto devagar, seus olhos carregados de uma tristeza antiga. — Pensei que você não viesse — disse ele, a voz rouca. — Eu quase não vim. — Mas veio. Ela assentiu. E aquilo bastou. Danilo fez sinal para que ela se sentasse ao seu lado em uma mureta. Cecília obedeceu, mas sem desviar o olhar. — Promete que não vai me interromper? — Prometo. Danilo respirou fundo, os ombros tensos. — Meu pai... não era só o dono do morro. Ele era um estrategista. Frio, calculista. Tinha inimigos dentro e fora da favela, mas também aliados poderosos. Gente que você nem imagina: políticos, empresários, até polícia. Cecília engoliu seco. — Um desses aliados era o Ramon. Meu pai o tratava como irmão. Era o conselheiro dele, o único que sabia de todos os passos. Danilo fez uma pausa, os olhos fixos em algum ponto do passado. — Na semana em que ele morreu, eu percebi que meu pai tava estranho. Evitava conversas, saia à noite sozinho. Eu o segui uma vez, escondido. Vi ele entregando uma maleta a Ramon, e depois os dois discutindo. Não consegui ouvir tudo, mas uma frase me marcou: “Se isso vazar, você morre antes de abrir a boca.” — O que tinha na maleta? — Cecília perguntou, sem conter a ansiedade. — Eu não sei. Mas no dia seguinte, meu pai foi encontrado morto a tiros num beco da zona norte. Execução limpa, sem testemunhas. E Ramon desapareceu. O silêncio caiu entre eles como um manto pesado. — Por que nunca contou isso a ninguém? — Porque ninguém quer ouvir. Quem governa o morro com medo perde. E eu... precisei me tornar alguém que até meu pai respeitaria. Cecília se levantou, andou de um lado para o outro. — Você acha que Ramon ainda está vivo? — Tenho quase certeza. E que ele voltou. — É ele que está fazendo perguntas? Danilo assentiu. — Alguém quer reabrir o passado. E eu não vou descansar até descobrir quem. Cecília parou diante dele. — Você tem ideia do que está dizendo? Se isso for verdade, você vai estar comprando uma guerra que não tem fim. — Eu já estou em guerra, Cecília. Desde o dia em que meu pai caiu no chão e eu tive que carregar o corpo dele nos braços. Desde aquele dia, eu deixei de ser filho. Me tornei comandante. Ela viu a dor por trás da força, e algo dentro dela se quebrou. — Você ainda é filho, Danilo. Você só esqueceu o que é ser amado. Ele a olhou como se aquelas palavras tivessem perfurado uma armadura de anos. — E você... você me faz lembrar. --- Enquanto desciam do mirante, Ivan os observava de longe, escondido entre as sombras. A expressão dele era uma mistura de frustração e alívio. Por mais que odiasse ver Danilo vulnerável, não podia negar: Cecília estava mexendo com ele de um jeito que ninguém jamais conseguira. Ivan ligou para alguém. — Eles estão juntos. E se ela continuar por aqui, não vai demorar muito pra tudo explodir. A gente precisa agir antes que seja tarde demais. Do outro lado da linha, a voz era firme. — Continue vigiando. E me avise se houver qualquer movimento em direção ao porto antigo. Ivan desligou, o rosto sombrio. Ele sabia mais do que dizia — e escondia mais do que devia. --- Naquela noite, Cecília voltou à casa de apoio com o coração em chamas. Ela tinha visto o verdadeiro Danilo: o filho, o herdeiro, o homem partido. E, apesar de tudo, queria ficar. Não apenas por ele, mas por si mesma. Pela mulher que queria ser. Lívia a esperava acordada, com um olhar curioso. — Você foi, né? — Fui. E ouvi tudo. — E agora? — Agora... eu preciso entender como amar um homem que vive em guerra. Lívia se aproximou, segurou suas mãos. — Se você for forte o suficiente pra isso, vai conseguir mudar o destino de muita gente. --- Enquanto isso, Danilo voltava para o galpão onde guardava os registros antigos do pai. Havia caixas, pastas, cadernos com anotações cifradas. No fundo de uma delas, encontrou uma folha amarelada com o nome “R. M.” no canto superior. E uma data. — Isso é um contrato... — murmurou. — Assinado duas semanas antes da morte dele. Era uma aliança de proteção com um tal “Grupo Alvorada”. Nenhum outro nome. Nenhum outro detalhe. Mas Danilo sentiu o estômago revirar. Ele já ouvira aquele nome antes — sussurrado em corredores do tráfico como uma organização que financiava grupos armados nas comunidades para influenciar eleições e negócios. — Era maior do que eu pensava... --- No dia seguinte, Cecília foi até o galpão com uma desculpa qualquer. Precisava vê-lo. Precisava entender onde aquilo os levaria. Danilo estava sentado no chão, cercado por papéis. — O que você está procurando? — Verdade. E vingança. — E onde eu entro nisso? Ele a olhou com ternura e dureza ao mesmo tempo. — Você entra no que me impede de virar o mesmo homem que matou meu pai. Ela se ajoelhou diante dele. — Então me promete que, se for lutar... vai lutar com a cabeça. Não com o ódio. Danilo tocou o rosto dela, seus dedos ásperos e quentes. — Eu prometo... se você ficar ao meu lado. Cecília não respondeu. Apenas o beijou. Desta vez, sem medo. Sem fuga. Porque agora ela entendia. Estava presa a ele — não por fraqueza, mas por escolha. --- No fim do dia, Ivan encontrou Danilo no alto do morro. — A gente tem um problema — disse ele, entregando uma foto tirada por um dos olheiros. Danilo analisou a imagem. Era Ramon. Mais velho, com barba rala e olhos fundos, mas inconfundível. — Ele voltou. Ivan assentiu. — E trouxe gente com ele. Danilo olhou para o horizonte, o peito pesado. — Então vamos recebê-lo. Mas dessa vez... ele não sai vivo.
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