O vento da madrugada cortava a pele como navalha quando Cecília chegou ao mirante. O local ficava no ponto mais alto do morro, onde as luzes da cidade pareciam estrelas invertidas. Danilo já estava lá, encostado no parapeito de concreto, com as mãos no bolso e o olhar perdido.
Ela se aproximou em silêncio. Ele virou o rosto devagar, seus olhos carregados de uma tristeza antiga.
— Pensei que você não viesse — disse ele, a voz rouca.
— Eu quase não vim.
— Mas veio.
Ela assentiu. E aquilo bastou.
Danilo fez sinal para que ela se sentasse ao seu lado em uma mureta. Cecília obedeceu, mas sem desviar o olhar.
— Promete que não vai me interromper?
— Prometo.
Danilo respirou fundo, os ombros tensos.
— Meu pai... não era só o dono do morro. Ele era um estrategista. Frio, calculista. Tinha inimigos dentro e fora da favela, mas também aliados poderosos. Gente que você nem imagina: políticos, empresários, até polícia.
Cecília engoliu seco.
— Um desses aliados era o Ramon. Meu pai o tratava como irmão. Era o conselheiro dele, o único que sabia de todos os passos.
Danilo fez uma pausa, os olhos fixos em algum ponto do passado.
— Na semana em que ele morreu, eu percebi que meu pai tava estranho. Evitava conversas, saia à noite sozinho. Eu o segui uma vez, escondido. Vi ele entregando uma maleta a Ramon, e depois os dois discutindo. Não consegui ouvir tudo, mas uma frase me marcou: “Se isso vazar, você morre antes de abrir a boca.”
— O que tinha na maleta? — Cecília perguntou, sem conter a ansiedade.
— Eu não sei. Mas no dia seguinte, meu pai foi encontrado morto a tiros num beco da zona norte. Execução limpa, sem testemunhas. E Ramon desapareceu.
O silêncio caiu entre eles como um manto pesado.
— Por que nunca contou isso a ninguém?
— Porque ninguém quer ouvir. Quem governa o morro com medo perde. E eu... precisei me tornar alguém que até meu pai respeitaria.
Cecília se levantou, andou de um lado para o outro.
— Você acha que Ramon ainda está vivo?
— Tenho quase certeza. E que ele voltou.
— É ele que está fazendo perguntas?
Danilo assentiu.
— Alguém quer reabrir o passado. E eu não vou descansar até descobrir quem.
Cecília parou diante dele.
— Você tem ideia do que está dizendo? Se isso for verdade, você vai estar comprando uma guerra que não tem fim.
— Eu já estou em guerra, Cecília. Desde o dia em que meu pai caiu no chão e eu tive que carregar o corpo dele nos braços. Desde aquele dia, eu deixei de ser filho. Me tornei comandante.
Ela viu a dor por trás da força, e algo dentro dela se quebrou.
— Você ainda é filho, Danilo. Você só esqueceu o que é ser amado.
Ele a olhou como se aquelas palavras tivessem perfurado uma armadura de anos.
— E você... você me faz lembrar.
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Enquanto desciam do mirante, Ivan os observava de longe, escondido entre as sombras. A expressão dele era uma mistura de frustração e alívio. Por mais que odiasse ver Danilo vulnerável, não podia negar: Cecília estava mexendo com ele de um jeito que ninguém jamais conseguira.
Ivan ligou para alguém.
— Eles estão juntos. E se ela continuar por aqui, não vai demorar muito pra tudo explodir. A gente precisa agir antes que seja tarde demais.
Do outro lado da linha, a voz era firme.
— Continue vigiando. E me avise se houver qualquer movimento em direção ao porto antigo.
Ivan desligou, o rosto sombrio. Ele sabia mais do que dizia — e escondia mais do que devia.
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Naquela noite, Cecília voltou à casa de apoio com o coração em chamas. Ela tinha visto o verdadeiro Danilo: o filho, o herdeiro, o homem partido. E, apesar de tudo, queria ficar. Não apenas por ele, mas por si mesma. Pela mulher que queria ser.
Lívia a esperava acordada, com um olhar curioso.
— Você foi, né?
— Fui. E ouvi tudo.
— E agora?
— Agora... eu preciso entender como amar um homem que vive em guerra.
Lívia se aproximou, segurou suas mãos.
— Se você for forte o suficiente pra isso, vai conseguir mudar o destino de muita gente.
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Enquanto isso, Danilo voltava para o galpão onde guardava os registros antigos do pai. Havia caixas, pastas, cadernos com anotações cifradas. No fundo de uma delas, encontrou uma folha amarelada com o nome “R. M.” no canto superior.
E uma data.
— Isso é um contrato... — murmurou. — Assinado duas semanas antes da morte dele.
Era uma aliança de proteção com um tal “Grupo Alvorada”. Nenhum outro nome. Nenhum outro detalhe.
Mas Danilo sentiu o estômago revirar. Ele já ouvira aquele nome antes — sussurrado em corredores do tráfico como uma organização que financiava grupos armados nas comunidades para influenciar eleições e negócios.
— Era maior do que eu pensava...
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No dia seguinte, Cecília foi até o galpão com uma desculpa qualquer. Precisava vê-lo. Precisava entender onde aquilo os levaria.
Danilo estava sentado no chão, cercado por papéis.
— O que você está procurando?
— Verdade. E vingança.
— E onde eu entro nisso?
Ele a olhou com ternura e dureza ao mesmo tempo.
— Você entra no que me impede de virar o mesmo homem que matou meu pai.
Ela se ajoelhou diante dele.
— Então me promete que, se for lutar... vai lutar com a cabeça. Não com o ódio.
Danilo tocou o rosto dela, seus dedos ásperos e quentes.
— Eu prometo... se você ficar ao meu lado.
Cecília não respondeu. Apenas o beijou. Desta vez, sem medo. Sem fuga.
Porque agora ela entendia.
Estava presa a ele — não por fraqueza, mas por escolha.
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No fim do dia, Ivan encontrou Danilo no alto do morro.
— A gente tem um problema — disse ele, entregando uma foto tirada por um dos olheiros.
Danilo analisou a imagem. Era Ramon.
Mais velho, com barba rala e olhos fundos, mas inconfundível.
— Ele voltou.
Ivan assentiu.
— E trouxe gente com ele.
Danilo olhou para o horizonte, o peito pesado.
— Então vamos recebê-lo. Mas dessa vez... ele não sai vivo.