BEAUMONT

427 Words
A casa parecia silenciosa demais, como se todos os móveis e paredes estivessem segurando a respiração. Eu precisava sair. Precisava sentir que ainda havia algo meu naquele mundo novo, mesmo que fossem apenas alguns minutos. Então me arrumei rapidamente, peguei minha jaqueta favorita e caminhei até o café que tio Robert havia me indicado: Beaumont. Segundo ele, era aconchegante, com aquele cheiro de pão e café fresco que fazia qualquer um se sentir em casa, mesmo que por pouco tempo. O sol de domingo banhava as ruas de uma luz dourada, e o aroma de café fresco me envolveu assim que empurrei a porta. Pequeno, elegante, com mesas de madeira escura e janelas enormes que deixavam a luz entrar suavemente… tudo ali parecia cuidadosamente pensado para transmitir conforto. E, por alguns segundos, consegui acreditar que minha vida ainda poderia ter momentos normais. Foi então que eu o vi. Ele estava sentado na mesa do canto, perto da janela distraído, mas ao mesmo tempo impossível de ignorar. O cabelo castanho acobreado-dourado caía suavemente sobre a testa, refletindo a luz da tarde de um jeito que parecia mágico. E os olhos, marrom profundo quase avermelhado, me atravessaram de forma estranha, como se me conhecessem antes mesmo de eu perceber sua presença. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Um arrepio percorreu minha espinha, uma pontada quente na clavícula, algo que parecia despertar dentro de mim. Eu não entendia o que era, mas sabia que não era normal. Cada movimento dele parecia perfeito, natural e ainda assim impecável. A postura, o leve inclinar da cabeça… tudo nele parecia feito para prender olhares. Eu não conseguia desviar os meus. Cada detalhe, cada gesto, cada reflexo de luz no cabelo e na pele parecia me puxar para algo que eu não podia nomear. Nossos olhares se encontraram por um instante. Apenas um instante, mas suficiente para que tudo ao redor desaparecesse. Senti algo antigo e desconhecido vibrando dentro de mim, uma energia invisível que reagia à presença dele. Meu coração acelerou, e, por um momento, foi impossível respirar normalmente. Ele desviou o olhar como se nada tivesse acontecido, mas eu sabia que ele também sentiu. Algo silencioso, poderoso e inexplicável havia passado entre nós, e eu sabia, sem entender como, que nada seria igual depois daquele instante. Sentei-me na minha mesa, tentei fingir normalidade, mexendo no café com mãos ligeiramente trêmulas. Mas mesmo assim, não consegui parar de olhar. Ele estava lá, quase perfeito, como se cada detalhe de sua existência tivesse sido esculpido para impressionar ou testar algo dentro de mim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD