O início da semana chegou rápido demais. Segunda-feira parecia mais pesada do que qualquer outra, e mesmo com os pensamentos ainda presos no domingo, não havia tempo para descansar. Escola, aulas, anotações tudo ainda me lembrava de que minha vida estava mudando, mesmo que eu tentasse ignorar.
Mas depois das primeiras aulas, o que me esperava de verdade era o treino. Tio Robert insistia que a prática era tão importante quanto a teoria, e Steven estava mais animado do que nunca, como sempre. Saímos pelos fundos da casa, onde uma pequena floresta se estendia, perfeita para corridas, lutas e exercícios de caça.
— Pronta, Scar? — perguntou Robert, ajeitando a mochila com estacas e alvos improvisados pendurados nas árvores.
— Pronta? Acho que vou sobreviver… — respondi, tentando soar confiante, mas meu coração já batia mais rápido.
— Confiança demais ou de menos, não importa. É treino — disse ele, com aquele sorriso sério que indicava que não estava brincando.
Steven já estava correndo entre as árvores, saltando troncos e rindo.
— Vamos, Scar, não fica para trás! — gritou ele, quase como se quisesse me provocar.
Começamos com corridas. Robert me ensinou a medir respiração, ritmo e passos, enquanto Steven fazia manobras impetuosas para me testar. Eu tropeçava algumas vezes, mas aprendi a ajustar o ritmo rapidamente. A floresta era perfeita para treinos de velocidade, resistência e atenção aos arredores.
Depois, passamos para arremesso de estacas. Robert colocou alvos em árvores e mostrou a técnica correta: postura firme, força do braço e precisão.
— Lembre-se, Scar — ele disse, observando meu movimento — não é apenas força. É controle, foco. Cada estaca é vital.
— Entendi — disse, concentrada. Lancei a primeira. A estaca cravou com perfeição no tronco. Um sorriso involuntário escapou.
— Muito bem! — Robert aprovou. — Isso! Agora vamos ver se consegue manter a precisão em movimento.
Steven decidiu me desafiar correndo entre os alvos, desviando das estacas que eu tentava arremessar.
— Ei! — gritei, tentando acertá-lo com uma estaca de brinquedo — Não vale correr assim!
— Vale sim! — ele riu, esquivando-se com agilidade.
Depois da prática de arremesso, passamos para lutas corpo a corpo. Robert me ensinava movimentos de defesa, golpes rápidos e como usar a própria força do inimigo contra ele. Steven me desafiava, atacava de todos os ângulos, e eu precisava pensar rápido. Cada golpe exigia concentração máxima e reflexo apurado.
— Scar, seus reflexos melhoraram muito — Robert comentou, observando. — Mas não esqueça: atenção aos arredores é tão importante quanto força. Um caçador distraído não sobrevive.
— Eu sei, tio — respondi, respirando fundo. — É só… muita informação ao mesmo tempo.
— Vocês estão cansados? — Steven perguntou, com um sorriso travesso. — Porque eu ainda aguento mais algumas corridas!
— Isso é treino, pirralho, não brincadeira — disse Robert, mas riu também.
— Ah, mas ele sempre exagera — disse eu, jogando uma estaca em direção a um tronco próximo.
O sol começava a se pôr, e a floresta estava cheia de sombras longas, dando um clima quase mágico à prática. Cada corrida, cada golpe, cada estaca arremessada me fazia sentir viva de um jeito estranho — perigoso, intenso, mas necessário.
Enquanto respirava fundo, Robert se aproximou e disse:
— Semana que vem vamos aumentar o ritmo. Mais corridas, mais precisão, lutas mais complexas. Quero que vocês estejam preparados para qualquer coisa.
— Preparados para qualquer coisa… — repeti, olhando para Steven, que parecia não levar nada a sério, mas estava absorvendo cada instrução como sempre.
— Sim, pequena, é a vida que vocês escolheram — Robert disse, olhando para mim com aquele misto de seriedade e cuidado.
Quando voltamos para a casa, cansados e suados, mas com a sensação de dever cumprido, algo dentro de mim ainda estava inquieto. Cada treino, cada momento ali na floresta, me lembrava de que essa vida não era comum, e que tudo estava prestes a ficar ainda mais intenso.