A terça-feira começou devagar, como se a cidade inteira estivesse respirando preguiçosamente. Scarlett tentava focar nas aulas, mas sua mente não parava de voltar ao domingo, ao café, ao olhar daquele garoto estranho. Algo dentro dela ainda pulsava, inquieto, sem explicação.
Durante a aula de biologia, a caneta tremia levemente em sua mão. Um arrepio percorreu seu braço, e ela se obrigou a olhar para fora da janela, respirando fundo. Um detalhe simples, um reflexo do sol em um vidro próximo, e a sensação retornou — rápida, sutil, mas impossível de ignorar.
— Tudo bem, Scar? — Robert perguntou mais tarde, quando eles estavam sozinhos na cozinha da casa.
— Não sei… é estranho — admitiu ela, sentando-se à mesa. — Hoje na escola senti algo, de novo. É como se… algo estivesse me chamando, ou me avisando.
Robert assentiu, com a expressão séria.
— É normal. Vocês estão começando a perceber sinais que antes passavam despercebidos. Mas não se preocupe, é apenas parte do aprendizado. A marca tem suas maneiras de se manifestar.
— E Steven… — disse Scarlett, desviando o olhar para o irmão que mexia distraidamente em seu caderno — ele está incrível nesses treinos. Melhorou muito.
— Sim — concordou Robert, sorrindo com orgulho — você nota que ele aprende rápido, mas também se diverte no processo. E isso é importante. Para um caçador, habilidade e instinto andam juntos.
Após o café da tarde, Robert sentou-se com Scarlett para falar sobre algo maior.
— Agora que você está percebendo essas sensações, é hora de entender o mundo em que estamos. — Ele fez uma pausa, observando a filha de seu irmão. — Há um clã de vampiros que existe há séculos. Conhecemos alguns deles, como Lucien. Mas não se preocupe, os nomes e detalhes de todos ainda não são importantes. O que você precisa saber é que o perigo existe, e nossa família sempre esteve preparada para lidar com ele.
— Entendi… — disse Scarlett, absorvendo cada palavra, tentando equilibrar a normalidade da vida escolar com a gravidade daquele mundo oculto. — Mas meus pais… — ela baixou a voz, quase em um sussurro — eles estão seguros?
— Estão — disse Robert, firme. — Mas a situação exige cautela. Não podemos relaxar. Eles confiam em nós para manter vocês seguros enquanto estão fora.
Ela assentiu, sentindo o peso da responsabilidade e a estranha vibração no peito que não entendia. Algo dentro dela parecia reagir a cada palavra, a cada pensamento.
Ao final da tarde, enquanto Scarlett guardava os livros, a sensação retornou. Um arrepio sutil, quase imperceptível, mas suficiente para fazê-la parar e respirar fundo. O coração acelerou sem motivo aparente. Ela não sabia o que aquilo significava, mas havia algo dentro dela que insistia em despertar.
E, mesmo sem saber exatamente o quê, Scarlett sentiu que algo grande estava prestes a acontecer. Algo que mudaria tudo.