Depois que Addison saiu para brincar, Adam ficou me encarando boquiaberto. Ele estava encarando, e não era para menos. Addison era encantadora, qualquer pessoas que conversasse um pouco com ela entende o quanto ela é incrível e bondosa. Eu deveria ter pensado nisso antes de apresentá-los um ao outro. Respirei fundo. Não podia dar o braço a torcer. Marchei até o carro na tentativa de ignorar sua presença.
— Quando vai ser a próxima? — Adam indagou, seguindo-me.
Eu pausei os passos.
— Não vai haver uma próxima vez. Você queria conversar com ela, e pronto, isso aconteceu. Acabou. Todos podemos voltar normalmente as nossas vidas ordinárias e você pode voltar de onde quer que tenha saído.
Ele franziu a testa.
— Não. Isso não é suficiente — Bateu o pé. Eu revirei os olhos. Não era possível.
Voltei alguns passos, ficando bem próxima dele, coloquei meu dedo indicador em seu peito e exclamei:
— Eu fiz o que prometi, tá legal? Agora deixa a gente em paz!
— Não é suficiente — Repetiu — Eu quero um relacionamento com ela. Quero que ela me conheça de verdade.
— Você nunca vai me deixar em paz, né? — Indaguei, sem forças para retrucar. Estava exausta de todo esse martírio. Não aguentava mais isso.
— Se você não quiser me ajudar, eu tenho meus meios de fazer isso sozinho.
— Sério, Adam. Eu não queria envolver o Jasper nisso! — Supliquei.
— E não deveria. Porque no segundo em que o Jasper descobrir isso, você sabe que sua vida vai virar de cabeça para baixo.
Eu não queria admitir, mas ele tinha razão. Contar ao Jasper seria decretar de uma vez por todas que aquilo era real. E seria questão de dias ou até mesmo horas até que Addison fosse envolvida também.
Eu me calei. Não sabia o que falar. Precisei pensar um pouco mais no que iria dizer em seguida. Não queria meter os pés pelas mãos.
— Eu nunca havia reparado — Disparou em certo momento.
— O que?
— Colocou o nome dela de Addison por minha causa? — Indagou, encantado.
— É, porque achei que você estava morto. — Expliquei, ríspida — Achei que havia tido um gesto altruísta, mas só estava sendo o mesmo Adam de sempre, mais egoísta e egocêntrico que nunca. — Acrescentei.
— É isso que acha que eu fui? Egoísta e egocêntrico? Tudo que eu fiz foi tentando proteger vocês! Proteger você! — Estabeleceu — Eu podia simplesmente m***r todos eles, mas eu queria ser digno de voltar. Eles haviam descoberto sobre você e sobre a Addison, Safira. Não acha que estavam atrás de você? Se eu não tivesse fingido minha morte, não sei o que haveria acontecido. E entre ver você triste e ver você morta, eu prefiro a primeira opção.
— Nada disso teria acontecido se você não fosse um criminoso, em primeiro lugar!
— Até quando vai me punir por isso? — Explodiu — Eu estou tentando mudar! Estou tentando ser melhor. Não tenho mais uma fonte de renda de verdade, larguei a fabricação de drogas, dispensei meus capangas. Estou vivendo com o que consegui juntar durante os anos. Eu estou tentando arrumar um emprego, mas é difícil algo correto quando seu rosto está estampado em alguns jornais.
Eu abaixei a cabeça.
— Você largou a fabricação de drogas?
— Eu já disse. Largaria tudo por vocês duas. É tudo que eu tenho feito.
— Ok. — Cedi — Vou marcar um próximo encontro. Mas preciso pensar bem porque ela vai acabar desconfiando de alguma coisa se ver que você está muito presente nas nossas vidas.
— Do jeito que achar melhor!
— E tudo será sobre a minha vista. Não vai ficar sozinho com ela. Nunca. Jamais.
— Tudo bem. — Aquiesceu.
— E tem que me prometer que vai parar de imprimir identidades e currículos falsos. Isso ainda é crime! — Ordenei.
— Eu prometo.
— Você tem um telefone? Para eu te avisar quando souber o local e o dia.
— Quando quiser me encontrar, saberá onde.
Addison voltou para minha direção naquele momento, e nós duas entramos no carro. Como eu suspeitei, aquilo não tinha tido um impacto muito grande na sua vida a ponto dela desejar comentar sobre isso depois e nem mesmo o nome dele foi mencionado outra vez por ela.
Eu respirei aliviada.
Em casa, por volta das 19 horas, recebi uma ligação da professora de balé da Addison, que parecia radiante no telefone. Ela me explicou que havia repensado e que seria maravilhoso ter a Addison como A Fera esse ano no festival. Quando eu a questionei o motivo, ela respondeu simplesmente:
— Agradeça aquele homem gentil que conversou comigo depois do expediente.
Havia sido o Adam.
Corri até o quarto da Addison para lhe contar a novidade, ela puxou em cima de mim e agarrou meu pescoço em um abraço de tirar o fôlego.
— Obrigada, obrigada, obrigada, mamãe!
— Na verdade, não foi a mamãe que conseguiu. Foi o amigo da mamãe. Aquele que você conheceu esta tarde.
Ela deu uma risadinha afirmando com a cabeça que se lembrava.
— Então, da próxima vez que você ver ele, diga que eu disse "obrigada". — Pediu — Ah, e dê um pirulito a ele por mim. Ele merece — Acrescentou, sorrindo.
Eu concordei, cobri ela com o edredom, desliguei a luz do quarto e fechei a porta. Jasper nos serviu uma taça de vinho, e nós dançamos já zonzos na sala.
Eu me sentia péssima por estar mentindo para ele. Sabia que não merecia nada disso, não era justo com ele. Além disso, prometi que não faria mais isso. Mas como poderia? Contar a verdade incluía riscos que eu não estava pronta para correr.
— Você está bem? — Jasper perguntou, com os braços em volta da minha cintura.
— Sabia que sua filha será a "A Fera" no festival de natal?
Jasper abriu um sorriso, surpreso.
— Sério?
Eu concordei.
— E ela está bem com isso? — Quis saber.
— Na verdade, foi ela quem pediu. — Informei, bebericando o vinho.
Ele sorriu, achando a situação engraçada.
— Ela tem personalidade forte. De quem será que ela puxou isso?
Jasper disparou essa frase o que me ligou diretamente ao que Adam disse. Então foi nesse momento que eu percebi, que eles não estavam falando deles mesmos e sim, de mim.