Capítulo 9

1107 Words
Eva acordou antes do sol tocar o horizonte de Manhattan. Dormir… não tinha dormido exatamente. O corpo estava exausto, mas a mente não parava. Mesmo envolta nos lençóis caros da suíte de cobertura, ela sentia como se ainda estivesse colada à parede daquele escritório, com o gosto do beijo de Marco entre os lábios — e a lembrança do sangue dele na ponta da língua. Ela encarou o teto escuro por longos minutos antes de pegar o celular e digitar uma mensagem curta: “Hoje trabalho de casa. Entrego tudo ainda pela manhã.” Nada mais. Sem explicações. Sem emojis. Sem voz. Parte dela queria que ele viesse. Outra parte rezava para que não. Ela precisava de espaço para respirar. Para lembrar quem era. E para o que estava ali. "Não é vingança", sussurrou para si mesma, se sentando devagar à beira da cama. A voz era firme. Mas não completamente verdadeira. “Você me promete, Eva… Não se vingue. Isso destrói a alma.” As palavras da mãe vinham como uma brisa suave e fria. Eva havia prometido. E manteve a promessa. Pelo menos até agora. Mas seguir em frente também não era fácil. Os sete anos tinham passado — cheios de prêmios, contratos internacionais, capas de revista. Ela se tornou Ive. Mas nunca deixou de ser Eva. E Eva, por mais que fingisse o contrário, ainda era dele. Nunca mais se entregou. Nunca mais se permitiu ser tocada de verdade. Homens vieram. E passaram. Mas nenhum ficou. Como se Marco tivesse deixado um selo em sua pele, uma corrente invisível em torno da alma. Foi por isso que, quando a Santini Enterprise ofereceu o contrato à arquiteta misteriosa Ive, ela aceitou. Foi a oportunidade que esperava para fechar o ciclo. Ou, pelo menos, tentar. Khaled foi contra. Quase brigaram. Mas ela o convenceu. — Só assim vou conseguir seguir em frente. — dissera, com os olhos brilhando. E ele, por fim, apoiou. Mas agora, sentada sozinha na suíte, Eva se perguntava: E se ela tivesse superestimado sua força? E se ele ainda a destruísse… mais uma vez? O celular em sua mão, atraiu sua atenção. Ela o desbloqueou, sem pensar muito, e fez a ligação que sempre fazia quando tudo parecia escuro demais. A chamada foi atendida em dois toques. A voz do outro lado era suave, animada. E, pela primeira vez desde que pisara em Nova York, Eva sorriu de verdade. — Oi… — sussurrou, encostando o celular na bochecha. A voz do outro lado seguia, contando algo, rindo, perguntando, vibrando com pequenas histórias do dia. Eva fechou os olhos. Ali, naquele instante… ela estava em paz. Falou baixinho, fez perguntas, incentivou, sorriu. Durante aqueles minutos, o mundo parou. Durante aqueles minutos, ela conseguia se lembrar de quem era, e por quem lutava. Enquanto isso, no escritório do décimo andar da Santini Enterprise, Marco encarava o celular como se pudesse arrancar respostas da tela. “Hoje trabalho de casa.” Era só isso. Sem ligação. Sem justificativa. Sem desculpas. As unhas batiam ritmadamente sobre o tampo da mesa. Seus olhos ardiam de raiva. — Onde ela está? — rosnou para Diego, que permanecia calado à sua frente. — Vocês disseram que estavam de olho nela. — Estávamos. Mas… ela sumiu por duas horas ontem à noite. Só retornou para o hotel umas três horas depois que saiu da sua sala — explicou Diego com calma tensa. — E desde então ela não saiu do prédio. — A voz de Marco era cortante. — Acha que eu não conheço Eva? Diego arqueou as sobrancelhas, confuso. — Então, onde ela foi? Marco se levantou bruscamente. Os olhos negros fuzilavam as paredes como se pudessem atravessá-las. Ela estava me desafiando. Querendo que eu imaginasse. Ela sabia que eu colocaria segurança. Fez de propósito. — m***a… — murmurou, chutando a cadeira para longe. O que o deixava mais furioso não era o ciúme — embora ele o estivesse engasgando. Era o jogo. Ela tinha aprendido a jogar. E agora estava vencendo. Talvez ela estivesse com outro homem. Talvez estivesse usando os itens da caixa para brincar com alguém. Talvez estivesse rindo dele agora mesmo. Ou talvez estivesse exatamente onde ele imaginou. No hotel. Trabalhando. Rindo de como conseguia virá-lo do avesso com meia dúzia de palavras. Ele passou as mãos pelos cabelos e soltou um palavrão mais alto. Maldita. Maldita Eva. Como ainda era capaz de deixá-lo nesse estado? Como ainda dominava cada batimento do seu coração? Ele se aproximou da janela do escritório. Manhattan se estendia abaixo, grandiosa, indiferente. Mas para Marco, o mundo inteiro girava em torno de uma única mulher. E ela estava se tornando um enigma impossível de decifrar. "Quer brincar comigo, Eva? Então jogue. Mas eu sempre fui melhor no final." O que Marco não sabia… É que, pela primeira vez, ele estava certo. Eva estava jogando. E jogando bem. Naquela noite — depois de provocar, sorrir, sair com o pen drive e deixá-lo à beira da loucura — ela não voltou imediatamente para o hotel como todos supuseram. Ela também não se encontrou com homem algum. Na verdade, Eva não saiu do prédio. Tão logo cruzou as portas da sala de Marco, ela se moveu rápido e em silêncio pelos corredores da Santini Enterprise, aproveitando o fato de já conhecer a planta arquitetônica do edifício. Ela sabia que estava sendo vigiada. Sabia que Marco tinha olhos nela. E por isso, ao invés de descer, subiu. Evitando o alcance das câmeras, entrou por uma das rotas de manutenção — não era difícil para alguém como ela — e se esgueirou até sua própria sala. Fechou a porta. Trancou. E então… Silêncio. Trabalho. Controle. Ficou ali por duas horas. Revisando desenhos. Refinando cálculos. Com a adrenalina do encontro ainda pulsando sob a pele. Sabia que, em algum lugar, alguém estava procurando por ela. Imaginando. Especulando. Rangendo os dentes. Era exatamente o que ela queria. Queria que Marco acreditasse que ela estava com outro. Que tivesse saído para um encontro. Que estivesse usando os “presentinhos” com outro homem. Queria que ele sentisse na pele a dúvida. A perda de controle. O ciúme. E pelo que conhecia dele, Marco estava se corroendo. Quando finalmente saiu da sala, usou a escada de emergência para evitar as rotas filmadas. Desceu calmamente e deixou o prédio pela entrada de serviço. Voltou para o hotel com um sorriso nos lábios e a cabeça erguida. Ele pensava que ela estava vulnerável, mas estava se esquecendo de quem Eva havia se tornado. Ela aprendeu a sobreviver. Aprendeu a esconder. Aprendeu a fingir. E agora… estava usando tudo isso contra ele.
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