A casa ficava numa rua tranquila, afastada do centro, cercada por árvores e um muro discreto que escondia o interior do mundo. Era pequena, aconchegante, mas muito mais confortável do que qualquer lugar que Rayca já havia chamado de lar nos últimos anos. Havia janelas grandes, uma varanda com rede e um jardim com girassóis — talvez plantados por alguém que acreditava na luz, mesmo depois de noites escuras demais.
Ela passou os olhos por cada detalhe, segurando a mão de Nina, que já corria para ver os quartos.
— É aqui que você quer que eu more? — ela perguntou, encarando Nico com uma expressão de dúvida, quase incredulidade.
Ele estava escorado na porta, de braços cruzados, um sorriso discreto no rosto.
— Não é o que eu quero. É o que você merece. Um lugar seguro. Sem homens asquerosos na porta. Sem baratas na pia. Sem medo de dormir.
— Nico...
— Eu sei o que vai dizer — ele interrompeu, dando um passo à frente. — Que é demais. Que é caridade. Que você não quer depender de ninguém. Mas não é isso. Eu não tô fazendo por pena, Rayca. Tô fazendo porque me importo. Porque me importo mesmo.
Rayca cruzou os braços, sentindo a voz travar por um instante. Os olhos arderam, mas ela respirou fundo.
— E o que as pessoas vão dizer? Vai aparecer na imprensa que a faxineira da academia está morando de favor num dos imóveis do grande Nicholas Santiago?
— Ninguém vai saber. Essa casa tá no nome do meu empresário. Nunca apareceu nas revistas, nem nos meus contratos. Eu venho aqui às vezes quando quero sumir do mundo. É o meu esconderijo. E agora quero que seja o nosso.
Rayca mordeu o lábio inferior.
— Isso parece... perigoso.
— É. E é por isso que tem que ser segredo. Só nosso. Se a Fabiana descobre, se a mídia pega no ar... pode acabar com tudo o que eu conquistei. E eu sei que isso é injusto com você. Mas eu não tô pronto pra jogar tudo pro alto ainda. E também não tô pronto pra te perder.
Ela abaixou os olhos, lutando contra o impulso de aceitar sem pensar.
— E se um dia você for embora? Se cansar? O que eu vou fazer? Ser jogada na rua?
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, firme, mas com doçura.
— Rayca, você acha mesmo que depois de tudo o que eu vivi... eu ia jogar fora a única coisa verdadeira da minha vida?
Ela piscou, e as lágrimas escaparam. Soltas, quentes, misturadas com medo e esperança.
— Eu não quero viver me escondendo, Nico.
— Eu sei. Mas por enquanto, é isso. Só por enquanto. E eu vou provar, dia após dia, que você pode confiar em mim.
Rayca olhou para a casa mais uma vez. Para a filha correndo e rindo como não fazia há semanas.
Talvez fosse uma prisão disfarçada de liberdade.
Ou talvez... um novo começo.
— Tá bom. Eu aceito.
As semanas seguintes foram como viver num universo paralelo.
Rayca cuidava da casa, levava Nina pra escola, limpava a academia sem chamar atenção. Nico vinha quando podia, sempre à noite ou de manhã cedo, evitando os holofotes. Às vezes passava rápido, só para vê-las, outras vezes dormia ali, no sofá da sala, com o corpo cansado e o rosto aliviado.
Eles riam. Assistiam filmes antigos. Faziam panquecas juntos.
E se beijavam como se o tempo não existisse.
Mas toda felicidade clandestina carrega também a tensão de ser descoberta.
Certa noite, Nico chegou mais tarde que o normal. Estava com o rosto marcado por um novo hematoma e o corpo rígido de cansaço. Rayca o recebeu com um copo de chá e um olhar desconfiado.
— Fabiana ligou? — perguntou, direta.
— Várias vezes. — Ele soltou um suspiro. — A assessoria quer uma entrevista amanhã. Vão perguntar do noivado.
Rayca engoliu seco.
— E o que vai dizer?
— A mesma coisa de sempre. Que tá tudo “indo bem”.
Ela sentou-se à mesa, afastando o chá.
— Nico... até quando isso vai continuar?
— Até eu vencer essa última luta. Depois disso... posso largar tudo. Mudar de rumo. Abrir minha própria academia. Viver longe dessa gente.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é. Mas é possível.
— Só me promete que... quando esse plano mudar — porque eles sempre mudam — você vai me contar. Não vai desaparecer.
Ele se aproximou, segurando a mão dela.
— Eu não vou embora, Rayca. Não mais.
E naquela noite, dormiram abraçados pela primeira vez na cama de casal do quarto pequeno, com a janela aberta deixando o vento entrar e os segredos descansarem por um instante.
Mas o mundo fora do refúgio seguia pulsando.
Na academia, os olhares começaram a pesar. Um treinador notou a ausência constante de Nico no alojamento. Uma das funcionárias viu Rayca entrando num carro de luxo com vidros escuros.
E a própria Fabiana apareceu por lá, fingindo uma visita de cortesia, mas deixando claro para todos que Nico era “propriedade” dela.
Rayca fingiu não escutar os sussurros. Continuou firme. Silenciosa. Focada.
Mas por dentro, o coração andava numa corda bamba.
Naquela noite, quando Nico apareceu, ela não sorriu como antes.
— As pessoas estão começando a desconfiar.
— Eu sei.
— E Fabiana tá mais presente do que nunca.
— Porque sabe que estou me afastando. Ela sente.
Rayca andou pela sala, de braços cruzados.
— Você ainda acha que esconder isso é o melhor caminho?
— Por enquanto, sim.
Ela parou. O olhou de frente.
— E se esse “por enquanto” nunca passar?
Nico se aproximou e a abraçou por trás, com o rosto colado ao dela.
— Então a gente muda as regras. E luta junto.
Rayca fechou os olhos.
Era tudo o que ela queria ouvir.
Mas também tudo que temia que um dia ele esquecesse.