Extra III - Work

3748 Words
Mais uma vez, os trabalhos chatos e infinitos que os professores da Roux passavam com um limite tão pequeno quanto a bondade que eles dispunham com seus alunos. Ela sabia bem que fazia parte da experiência universitária, ultrapassando a escolar. Os piores eram os de grupo, fazendo com que criasse um ódio imediato daqueles colegas ou até amigos que não colaboravam com nada, muito menos comunicar suas desculpas esfarrapadas do motivo pelo qual ignorou todas as mensagens e avisos. Após passar por isso duas vezes, a morena decidiu começar a fazer sozinha, a dor de cabeça era bem menor — ainda que quisesse morrer por ter que fazer todas as partes por si só. E nesse exato momento, só não estava arrancando seus cabelos porque tinha sido uma escolha sua — ela também poderia não entregar, mas aí teria que se garantir nas provas e nem sempre desenvolvia as questões abertas como gostaria. Eram apenas três para o final da semana que vem, um já pronto — o mais difícil entre eles, aprendendo que deveria começar por sua maior dificuldade. O segundo estava quase pronto, faltando as referências e seu humor era ótimo por ter conseguido avançar tão rápido, antigamente demorava quatro dias para fazer um trabalho sequer. Porém, não sabendo como tinha se distraído daquele jeito, completamente longe do objetivo em que estava meia hora antes — viu um anúncio sobre descontos ótimos na maior loja virtual de livros do mundo, encontrando o box da saga que mais amava desde adolescente. Era sua chance perfeita para comprá-lo, só tinha um empecilho — não tinha dinheiro. Charlotte recebia uma bolsa — assim como todos os alunos da universidade —, mas a usava para as despesas essenciais da casa, assim como Louise. Ela podia muito bem pedir para sua mãe, no entanto, não faria isso mesmo se estivesse morrendo e seu pai não a respondia quando mandava qualquer mensagem para ele, focado na nova família dele. Deixando as atividades de lado, pensando em como conseguir dinheiro — sabendo que precisaria trabalhar, ainda que fosse apenas um mês —, mas queria algo imediato ou a promoção acabaria e perderia a chance. A noite de quinta chegou, a morena se encontrava deitada na sua cama, os olhos bem abertos e os joelhos dobrados para cima em total concentração, sem ter chegado a nenhuma conclusão boa. Sua barriga roncava, contudo, m*l percebia que tinha passado praticamente o dia inteiro sem comer nada. A verdade era que estava muito triste, negando as possibilidades mais fáceis porque não gostava de depender de ninguém, principalmente da família. Em situações normais, qualquer um pediria, mas Lottie era uma jovem adulta universitária que deveria se virar sozinha e ela poderia, só não tinha achado sua solução. Louise chegou da aula, chamando a melhor amiga para jantar que tinha comprado no caminho, sabendo que ela teria passado o dia estudando, sem ter energia para cozinhar nada — a ruiva sendo o desastre que era, evitava se aventurar ali para que ninguém precisasse ir ao hospital. Quando não obteve resposta, andou até o quarto, achando que estivesse cochilando o merecido sono depois de tantas horas seguidas de estudo, no entanto, ao encontrá-la paralisada daquela forma engraçada, riu levemente, acreditando que sua amiga tinha pifado. — Lottie? — Nenhuma resposta. — Trouxe janta, não quer ver o que tem? A morena piscou com a voz da ruiva bem perto de si, virando o rosto para ela. Charlotte não tinha certeza, mas achava que tinha dormido de olhos abertos, já que ardiam bastante. Ela fitou as esmeraldas da amiga, abraçando-a sem dizer nada e Louise retribuiu o aperto, ainda sem entender o que estava acontecendo. Depois que a Roux explicou o tinha que feito durante aquele dia interminável e sobre sua tristeza de ter perdido o box mais lindo que teria na vida, Lou a recompensou com uma comida quentinha e um suco natural de laranja que ela amava. Isso a acalmou, voltando a sorrir e fazer as piadas que tanto amava fazer — elas saíam tão natural, que era sua primeira língua. Mas isso não foi tudo o que a Fontaine tinha trazido, dois creme brulée estavam na geladeira esperando para que a morena os devorasse. Ela observou a melhor amiga comer as duas sobremesas, um sorriso satisfeito no rosto de cada uma. Ao terminar, Lottie nem se lembrava mais o motivo da chateação, era difícil se preocupar com a barriga cheia daquele jeito. Ela até sugeriu assistirem um filme antes de dormir, aproveitando que o final de semana chegaria daqui a pouco, começando a descansar dois dias antes. Charlotte saía da última aula na sexta, esperando a multidão de estudantes que saía em conjunto pelos blocos, era horário de almoço e todo mundo queria encontrar seus devidos restaurantes ou lanchonetes o mais vazio possível. No início de cada bloco tinha um mural com anúncios e avisos, tanto da universidade quanto dos alunos, sendo muito ignorada pela maioria que passava por eles, contudo, algo invisível puxou Charlotte, desviando dos alunos que paravam do nada para conversar, esquecendo que havia outras pessoas ao redor. Ela teve que esperar alguns segundos para conseguir atravessar aquele corredor infinito e, sentindo uma irritação subir pela boca do estômago, olhou para os lados, impaciente — foi quando viu a sua salvação. Ao chegar no dormitório, a morena esperava que a ruiva já tivesse chegado da sua aula também, precisava compartilhar todas as emoções felizes que sentia e, quem sabe, comemorar do jeito que só elas sabiam. Aquele estava sendo um dia de sorte, tudo dando certo — ainda que ela não esperasse por isso —, Louise tinha acabado de sair do banho, uma toalha enrolada no cabelo, vestindo um pijama confortável. Charlotte sorriu abertamente ao que corria para abraçar a melhor amiga, gargalhando alto e as balançando de um lado para o outro, Fontaine entrando no clima, mesmo sem saber do que se tratava, vê-la feliz era melhor do que qualquer coisa. — Lou, mon amour — começou assim que se separaram, os olhos brilhando. — Consegui um emprego. A ruiva gritou, puxando-a para seus braços novamente e pulando em círculos pelo quarto, como se fossem duas crianças que acabaram de ganhar o brinquedo que tanto sonhavam. — Me conta tudo! — exigiu, levando-a até a cama mais próxima. — Você sabe que nunca presto atenção em nada, principalmente nos murais, mas, hoje, fiquei presa entre um e os idiotas que ficam conversando no meio do corredor, empatando a vida de todo  mundo. Nem vou reclamar muito porque foi assim que tive a oportunidade de conseguir o que tanto procurava. Louise riu, concordando com a falta de senso da maioria dos estudantes, nunca pensando nos outros. — Onde é? O que você tem que fazer? — Serei a famosa babysitter — Charlotte confessou em um sussurro, colocando uma das mãos na frente da boca. — Liguei mais cedo para o solicitante e cuidarei da pequena Amélie e o Émile, eles são dois fofos. — Ainda bem que gosta de crianças, porque não é fácil. — Louise admitiu, lembrando do sufoco que teve com suas irmãs. — Ah, sim! Chlóe disse que não são pré-adolescentes, o que é uma benção. Gosto deles, mas tudo tem limite. — E quando começa? — Hoje mesmo, ela e o marido têm um jantar de trabalho, pedindo para fazermos um teste. Na hora do almoço, quando liguei, eu não sei quem ficou mais feliz, o aviso já estava lá há quase um mês e ninguém a procurou. — É o destino — cantarolou Louise, sabendo bem que a amiga acreditava nessas coisas e Charlotte riu mais um pouco, jogando a cabeça para trás no processo, quase caindo para fora da cama. — Vamos comemorar antes de ir então! A morena levantou, conectando seu celular a caixinha de som que tinham e aumentando o volume, para que dançassem enquanto procuravam uma roupa que fosse profissional e prática para cuidar de duas crianças. Amélie tinha um ano e seis meses, Émile tinha dois, quase três — Charlotte estava inteiramente realizada, sempre quis ter irmãos mais novos, no entanto, tudo o que conseguiu foi ser esquecida pelos próprios pais. Agora era sua chance de aproveitar a fofura daqueles dois por todo o tempo que tivesse ao trabalhar com eles. Chlóe era um amor, jovem, linda e bem sucedida — o evento era do seu trabalho, tinha conseguido uma promoção —, seu marido, Jacques, pareceu ser um cara ótimo também, apoiando a esposa em seus objetivos, esperava que sim, não os conhecendo bem ainda. No entanto, seu sexto sentido confirmava o que sentia. A noite passou tão rápido, que Lottie m*l notou quando seus chefes chegaram, um pouco antes da meia-noite. Ela e os pequenos tinham se divertido com todos os brinquedos que as crianças tinham, depois jantaram para que pudessem tomar banho e dormir. A morena contou uma história para que fossem embalados no mundo dos melhores sonhos que pudessem ter. Os pais a encontraram no sofá da sala, o monitor ao seu lado enquanto lia um livro da faculdade, querendo adiantar o trabalho que deixou de fazer no dia anterior. O final de semana foi no mesmo estilo, apenas os motivos dos pais precisarem que ela ficasse com os filhos que teve seu diferencial — Charlotte realmente não se importava, contanto que precisassem dela. No entanto, os pequenos ficavam tão felizes com sua presença, que Chlóe fechou um contrato específico para que ela ficasse desde as seis da tarde até às onze da noite de segunda à sábado. A única parte r**m era que m*l conseguia ver a melhor amiga por mais de meia hora, deixando uma saudade extrema da rotina pacata que viviam. As mensagens ficaram mais constantes, por mais que morassem juntas e o domingo virou sagrado para não fazer nada, apenas existir uma ao lado da outra. Charlotte fazia o café da manhã, o almoço e, se estivesse com coragem, a janta também e Louise lavava as louças — um pouco da rotina que tinham antes —, deixando todos os trabalhos da faculdade para relaxar. Contudo, Louise tinha um segredo que morria por dentro para contar para a melhor amiga, mas se segurava ao máximo, pois era uma surpresa. Sabendo que a morena não olhava o famoso mural universitário, colocou anúncios para massagens, conseguindo bastante clientes durante a semana. Antes mesmo de ouvir que Charlotte queria intensamente aquele box de livros, a ruiva já vinha providenciando um jeito de presenteá-la. Por mais que a amiga tivesse encontrado um jeito de conseguir sozinha, manteve o plano, apoiando-a por batalhar para conseguir o que queria, ela precisava dessa experiência para crescer pessoalmente, não tinha dúvidas disso. E caso acontecesse dela comprar antes, teriam dois box, então. — Posso escolher o filme hoje? — Lottie perguntou manhosa, sentando-se ao lado da ruiva com um pote enorme de pipoca temperada. Lou pensou por alguns minutos, deixando a morena nervosa com a demora desnecessária. Charlotte intensificou os olhos de cachorrinho abandonado, com um biquinho exagerado nos lábios. — Preciso aprender a dizer não para o seu lado irresistível — a ruiva murmurou, revirando os olhos e entregando o controle para ela. — Todos os meus lados são. — Roux piscou, rindo no final. Louise desviou o olhar, sentindo suas bochechas e pescoço corarem. — Que tal um terror? Estou com saudades de ver algo sanguinolento, só tenho visto Masha e o Urso ultimamente. A Fontaine não teve muito como reclamar, a morena já pesquisava algo bom no catálogo da Netflix, então se aconchegou mais no acolchoado, esperando o momento em que se assustaria infinitamente pelas próximas horas. Assim que escolhido, ela se concentrou em comer a pipoca, evitando olhar a tela da televisão. Charlotte sabia o que ela fazia com os seus filmes e, como sempre acontecia, a morena segurou sua mão, puxando-a para perto, abraçando-a até que estivesse quase em seu colo. O carinho no cabelo um pouco bagunçado da ruiva a acalmou, piscando vagarosamente — criando coragem para assistir ao filme—, dando mais uma chance para o gosto peculiar da melhor amiga. — Só você mesmo — sussurrou, cutucando a coxa da morena, que riu. — O que você tem contra os meus romances? — aumentou a voz. — São melosos e sem graça — confessou, olhando-a de cima. Louise levantou a cabeça, ofendida. Fez uma expressão raivosa, desafiando-a a falar m*l dos seus preciosos. Charlotte entrou no seu jogo, encarando-a cheia de ousadia, com uma sobrancelha erguida. A distância em que estavam já não era das maiores e com aquela aura, aproximaram-se mais um pouco. Elas estavam acostumadas com isso, rindo dois segundos depois — esquecendo totalmente que tinha alguém sanguinário bem à frente. Era uma terça-feira à tarde, Charlotte caminhava calmamente para a casa das crianças mais fofas que tinham conquistado seu coração em tão pouco tempo, quando algo chamou sua atenção em uma das lojas daquela calçada. Ele não tinha brilho nenhum, mas aos seus olhos, era como se fosse uma estrela no meio do escuro. Louise amaria aquele objeto tão simples, contudo, caro — Lottie não se importava com isso, com o dinheiro que tinha juntado até agora, seria mais que o suficiente. O box da sua saga preferida esquecida em um canto isolado da sua memória. A morena saiu da loja sorridente, quase saltitando pelo caminho que restava. Não tinha comprado ainda, apenas procurando uma explicação sobre como funcionava e reservando para dali alguns dias.  Quando chegou, Émile correu para abraçá-la pela perna, gritando que estava com saudades e queria que ela dormisse com eles. Chlóe até pensou sobre, confiando nela desde a vira pela primeira algumas semanas atrás, no entanto, Charlotte recusou gentilmente, não podendo passar a noite. Ele ficou triste por alguns minutos, logo esquecendo ao que brincava com a babá e a irmã. O garotinho era tão carinhoso com Amélie, que era surpreendente para um bebê de quase três anos. A dinâmica que tinham juntos era até estranha no primeiro momento, contudo, qualquer um se acostumaria em pouco tempo. Naquele dia, o loirinho insistiu em assistir um filme com a morena, ligando a televisão sozinho — porque ele já sabia e gostava de mostrar para Lottie as coisas que conseguia fazer sozinho, como comer com a colher, tirar e vestir sua roupa e desenhar sua família. Era toda em rabiscos e cores, mas ninguém diria o contrário. Enquanto a introdução passava, ele correu até a sala para pegar seu kit de canetas e o papel, momentos depois, chamando Charlotte pelo apelido fofo que deu para ela — não conseguindo reproduzir como era. — Ottie! — Puxou o pedaço do vestido que a morena usava, levantando o desenho. — Ottie! A morena teve que segurar as lágrimas com o que viu. Émile segurava a folha na frente do seu rosto, esticando os bracinhos e pernas. Lottie entendeu perfeitamente que era ela ali no meio e os dois irmãos em cada lado. Bem, sua imaginação era tão fértil quanto a dele, por isso foi fácil identificar — além do que Amélie era sempre em amarelo, ele em verde e, bom, Charlotte em azul. — Está lindo, Émile! — elogiou, abaixando-se para abraçá-lo apertado e encher seu rosto fofo de beijinhos. — Posso ficar com ele? O loirinho assentiu, um sorriso enorme nos pequenos lábios, extremamente feliz. Logo depois, sentando-se no sofá — exigindo que a morena fizesse o mesmo — para assistir ao filme que tinha escolhido. — Que fofo, ma bichette — concordou a melhor amiga, analisando a obra de arte da amiga. — Quero um também. — Fez biquinho, olhando para ela. — Será que se você pedir, ele faz um meu? — Com certeza — iniciou, rindo — não! — Quanta maldade — apontou a ruiva, revirando os olhos. — Isso tudo é ciúme das suas crianças? Charlotte demorou para responder, focada em colar a folha no seu guarda roupa, ficando visível sempre que quisesse m***r a saudade do pequeno. — Não — disse simplesmente, terminando o que fazia. — Não quero que você os prefira do que a mim. A morena saiu andando para fora do quarto, morrendo de vergonha por confessar seu ciúme bobo. Odiava qualquer que se aproximasse dela por esse medo h******l e insensato — Louise era livre para conversar e compartilhar momentos que não fossem com ela. Mas como podia evitar? Todos os seus amigos do ensino médio a trocavam em questão de segundos. Ser popular não valia de nada, era tão sozinha quanto se não tivesse muitas pessoas ao seu redor. A Fontaine a seguiu silenciosamente, abraçando-a por trás bem em frente a geladeira. Aquele gesto significava muito mais do que qualquer palavra que dissesse. A morena segurou as mãos da melhor amiga, totalmente gelada — e não podia culpar o clima ensolarado lá fora —, o medo ainda presente em seu corpo. A ruiva a virou, olhando seriamente em seus olhos lacrimejantes, sorrindo de leve.  Pegou rosto pelas bochechas vermelhas, trazendo-a para perto para que seus lábios selassem sua testa carinhosamente, várias vezes até que Lottie risse do jeito meloso dela. No entanto, fez o mesmo, beijando até a ponta do seu nariz. — Estou ficando tão melosa quanto os seus filmes de romance barato — disse, revirando as safiras ao final. Louise se ofendeu, empurrando-a com a mão, as duas gargalhando. Seus corações aquecidos com o momento. A ruiva sabia bem como era se sentir sozinha no meio de tanta gente, odiando seu ensino médio por completo e agradecendo por ter conhecido Charlotte — que sentia exatamente o mesmo sentimento de acolhimento e amor, do qual nunca tinha sentido antes. O domingo novamente chegou e ambas se sentiam ansiosas por ele, cada uma com o seu motivo específico — porém, igual. Louise tinha finalmente comprado o presente para a melhor amiga, sentindo-se apreensiva — e se ela não gostasse? Tentava manter a concentração de que tudo daria certo, tinha até planejado mais ou menos o dia, dependendo da amiga aceitar o que se passava em sua mente. Já Charlotte, queria saltitar — como sempre quando estava muito animada —, disposta a fazer o que a ruiva quisesse, de tão bom que era o seu humor. Para ser sincera, não pensou em como entregar o que tinha comprado ou o que falar, era péssima nisso, deixando para se desenrolar na hora. A Fontaine acordou mais cedo que o normal, ousando tentar fazer um café da manhã para a morena. O que não deu certo, ela queimou a omelete nas três tentativas, decidindo sair para comprar algo decente — ou morreriam intoxicadas. Voltou com um saco de croissants e duas bombas de chocolate para cada uma, faria um suco natural — sendo a única coisa que sabia fazer sem m***r ninguém no processo. Arrumou a mesinha da sala, decorando com um jarro pequeno de flores vermelhas que ficava na bancada. Agora estava em dúvida se acordava a mais nova ou não, sabendo bem que ela odiava que o fizesse. Contudo, não teve que esperar muito, pois a morena logo levantou, encontrando-a no sofá, completamente compenetrada em um livro de romance — não tendo ideia de que ela nem prestava atenção nas palavras que fingia ler. Achou estranho o café estar pronto, era ela quem o fazia todo domingo. Por um momento, questionou-se se Lou sabia sobre o presente, o coração gelando com a possibilidade. — Bonjour, mon amour — saudou, sentando-se ao seu lado, um sorriso de lado. A ruiva se assustou, colocando o livro de lado para olhá-la. Dois segundos se encarando e Lottie a abraçou de surpresa. — Obrigada pelo café — sussurrou em sua orelha, ainda compartilhando o mesmo espaço. — Você merece, tem trabalhado tanto. — Usou uma desculpa, enrolando o momento. Charlotte riu, cutucando-a na barriga. Nenhuma outra palavra foi trocada ao que comiam o excelente pão francês, o suco e aproveitavam a companhia. Logo depois, a morena lavou a louça suja, já que trocaram os papéis. Decidiram começar a maratona de filmes cedo, Lottie deixando que a melhor amiga escolhesse mais um romance mela cueca para assistirem. Estava de tão bom humor que isso não estragaria nada. Talvez devesse seguir os conselhos mudos que eles davam para uma vida amorosa, ainda que tivesse várias corridas em uma montanha russa. Mas antes que começasse, Louise foi ao quarto buscar sua surpresa, não aguentava de ansiedade, querendo ver a reação da morena — desejando que ela gostasse tanto quanto gostou de lhe proporcionar. Charlotte a viu voltar com as mãos nas costas, imaginando o que seria. Estaria com dor? Não podia ser, um sorriso estava estampado no seu rosto bonito. — Tenho um presente para você, ma bichette — disse tímida, tentando sentar ao seu lado sem mostrar o que escondia. — Para mim? — perguntou confusa, não entendendo nada. — Vi que você queria muito e decidi te dar, mesmo que não seja seu aniversário ou natal. Louise viu a melhor amiga rir e, sem enrolar mais, entregou o pacote pesado. Charlotte ainda não acreditou quando pegou e abriu a embalagem, o box que sonhou em ter em suas mãos. — Agora você tem o Adrian Ivashkov bem pertinho do seu coração. Lottie não sabia o que falar, não sabendo nem o que sentir direito, apenas felicidade e amor em abundância. Por isso, se jogou na ruiva, repetindo inúmeros agradecimentos por ela ter feito isso por ela. E antes que abrisse o plástico que os protegia, saiu correndo para o quarto, pegando o seu presente. — Você está com sorte, porque também comprei algo para você — disse, estendendo a sacola para a amiga, sentando-se novamente. Louise paralisou, não esperando de forma alguma que aquilo fosse acontecer. No entanto, com as mãos tremendo, abriu o pacote que tinha no colo. O sorriso começou pequeno e tímido, porém, se alargou ao constatar o que era. Em um dia distante, a ruiva comentou o quão legal era aquela lâmpada portátil que mostrava todas as estrelas e constelações onde quer que fosse ligada e, bom, era exatamente o que ganhou da melhor amiga. Naquela época, tinha sido uma observação inocente, sabendo bem que nunca teria dinheiro para comprar enquanto não trabalhasse ao que estudava. Mas bem ali, as duas compartilham a felicidade de terem surpreendido aquela que amava com algo simples, no entanto, era de momentos assim que se preenchia um coração machucado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD