A sala estava vazia quando a noite caiu.
As tochas foram acesas uma a uma, lançando sombras longas pelas paredes de pedra. O castelo dormia, mas Ewan não. Nunca dormia quando algo precisava ser criado ou decidido.
A forja estava viva.
O fogo rugia baixo, controlado, alimentado com precisão. Ewan arregaçou as mangas, expondo os braços marcados por cicatrizes antigas, cada uma lembrança de uma guerra diferente. Pegou o aço que escolhera para Rowena e o colocou no coração das chamas.
O metal começou a mudar de cor.
Vermelho.
Laranja.
Quase branco.
Ewan observava com a mesma atenção que dedicava a um campo de batalha. Cada detalhe importava. Cada segundo.
Quando o aço atingiu o ponto exato, ele o retirou com as tenazes e o levou à bigorna. O primeiro golpe do martelo ecoou pela sala, forte e ritmado.
Clang.
Não havia pressa.
Ele trabalhava como lutava: com método.
Entre um golpe e outro, pensamentos surgiam indesejados, mas inevitáveis.
Rowena segurando a espada do pai dele com cuidado.
Rowena observando o aço como quem entende o peso das escolhas.
Rowena pedindo, não implorando.
Clang.
Ewan ajustou o ângulo, afinando a lâmina.
Ela precisava de equilíbrio.
Velocidade.
Resistência.
Não podia ser pesada demais isso a cansaria rápido. Nem leve demais isso a tornaria vulnerável. Ele lembrava do jeito como Rowena se movia no treino, da maneira como compensava força com inteligência.
Ela aprende rápido, pensou.
O martelo desceu novamente.
Clang.
O calor fazia o suor escorrer por sua têmpora, mas ele não parava. Não até sentir que o aço começava a obedecer.
Quando a lâmina tomou forma, Ewan a mergulhou na água fria. O vapor subiu, enchendo o ar com um som sibilante.
Ele observou.
Nenhuma fissura.
Nenhuma falha.
— Boa — murmurou para si mesmo.
Sentou-se por um instante, apoiando os antebraços nos joelhos, a lâmina ainda quente diante dele.
Era ali que sempre parava.
O momento em que entendia o que havia feito.
A espada de Rowena não era uma arma comum. Ele percebia agora. Não era apenas para defesa. Nem apenas para treino.
Era um reconhecimento.
Ela não o temia.
Ela não recuava.
Ela permanecia.
Ewan voltou a se levantar.
Trabalhou na empunhadura com o mesmo cuidado. Madeira escura, firme, confortável na mão. Sem ornamentos desnecessários. Apenas um pequeno entalhe próximo ao punho: um traço simples, quase invisível.
Um lobo.
Não para marcar posse.
Mas para lembrar: quem empunhasse aquela lâmina deveria lutar com inteligência… e lealdade.
Por fim, ele passou a mão pela espada pronta, sentindo o equilíbrio perfeito.
— Ela vai te honrar — disse em voz baixa, sem saber se falava da espada… ou da mulher.
Apagou parte das chamas, deixando a forja adormecer lentamente.
Ao sair da sala, o Lobo carregava consigo uma certeza que nenhuma guerra lhe dera antes:
Algumas batalhas não se vencem com sangue.
Mas com aço forjado em silêncio