LII

479 Words
A sala estava vazia quando a noite caiu. As tochas foram acesas uma a uma, lançando sombras longas pelas paredes de pedra. O castelo dormia, mas Ewan não. Nunca dormia quando algo precisava ser criado ou decidido. A forja estava viva. O fogo rugia baixo, controlado, alimentado com precisão. Ewan arregaçou as mangas, expondo os braços marcados por cicatrizes antigas, cada uma lembrança de uma guerra diferente. Pegou o aço que escolhera para Rowena e o colocou no coração das chamas. O metal começou a mudar de cor. Vermelho. Laranja. Quase branco. Ewan observava com a mesma atenção que dedicava a um campo de batalha. Cada detalhe importava. Cada segundo. Quando o aço atingiu o ponto exato, ele o retirou com as tenazes e o levou à bigorna. O primeiro golpe do martelo ecoou pela sala, forte e ritmado. Clang. Não havia pressa. Ele trabalhava como lutava: com método. Entre um golpe e outro, pensamentos surgiam indesejados, mas inevitáveis. Rowena segurando a espada do pai dele com cuidado. Rowena observando o aço como quem entende o peso das escolhas. Rowena pedindo, não implorando. Clang. Ewan ajustou o ângulo, afinando a lâmina. Ela precisava de equilíbrio. Velocidade. Resistência. Não podia ser pesada demais isso a cansaria rápido. Nem leve demais isso a tornaria vulnerável. Ele lembrava do jeito como Rowena se movia no treino, da maneira como compensava força com inteligência. Ela aprende rápido, pensou. O martelo desceu novamente. Clang. O calor fazia o suor escorrer por sua têmpora, mas ele não parava. Não até sentir que o aço começava a obedecer. Quando a lâmina tomou forma, Ewan a mergulhou na água fria. O vapor subiu, enchendo o ar com um som sibilante. Ele observou. Nenhuma fissura. Nenhuma falha. — Boa — murmurou para si mesmo. Sentou-se por um instante, apoiando os antebraços nos joelhos, a lâmina ainda quente diante dele. Era ali que sempre parava. O momento em que entendia o que havia feito. A espada de Rowena não era uma arma comum. Ele percebia agora. Não era apenas para defesa. Nem apenas para treino. Era um reconhecimento. Ela não o temia. Ela não recuava. Ela permanecia. Ewan voltou a se levantar. Trabalhou na empunhadura com o mesmo cuidado. Madeira escura, firme, confortável na mão. Sem ornamentos desnecessários. Apenas um pequeno entalhe próximo ao punho: um traço simples, quase invisível. Um lobo. Não para marcar posse. Mas para lembrar: quem empunhasse aquela lâmina deveria lutar com inteligência… e lealdade. Por fim, ele passou a mão pela espada pronta, sentindo o equilíbrio perfeito. — Ela vai te honrar — disse em voz baixa, sem saber se falava da espada… ou da mulher. Apagou parte das chamas, deixando a forja adormecer lentamente. Ao sair da sala, o Lobo carregava consigo uma certeza que nenhuma guerra lhe dera antes: Algumas batalhas não se vencem com sangue. Mas com aço forjado em silêncio
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