O treino daquele dia começou diferente.
O ar estava mais pesado, o vento cortava mais forte, e Ewan não deu explicações. Apenas aumentou o ritmo. Os golpes vinham mais rápidos, mais próximos do real. Não havia pausas longas. Não havia correções gentis.
Era um treino de guerra.
Rowena sentia o corpo responder, mas também sentia o limite se aproximar. Ainda assim, não pediu para parar.
O erro veio em um instante.
Um passo m*l calculado.
Um giro atrasado.
A lâmina de treino de Ewan atingiu seu antebraço com força suficiente para desequilibrá-la. Rowena caiu de lado, o impacto seco arrancando-lhe o ar dos pulmões. A espada escapou de seus dedos.
Houve um som abafado.
E então, silêncio.
Rowena tentou se mover uma dor aguda subiu pela perna. Não era apenas cansaço. Algo estava errado.
Os guerreiros avançaram instintivamente.
— Majestade!
— Ela se feriu!
Antes que alguém se aproximasse, a voz de Ewan cortou o pátio como aço.
— Parem.
Todos congelaram.
Ewan não correu até ela.
Não se ajoelhou.
Não estendeu a mão.
Ele permaneceu onde estava.
O Lobo não piscava.
Rowena ergueu o rosto, ainda no chão, respirando com dificuldade. Seus olhos encontraram os dele e por um breve instante, viu ali algo perigoso.
Não crueldade.
Exigência.
— Levanta. — disse ele, firme.
Os soldados trocaram olhares, tensos.
— Majestade… — tentou um deles.
— Eu disse parem. — repetiu Ewan, sem elevar a voz. — Ela não é feita de vidro.
Rowena apoiou a mão no chão. A perna falhou.
A dor fez sua visão escurecer por um segundo.
— Levanta. — Ewan disse novamente. — Guerreiros caem feridos. Rainhas também. A diferença é o que fazem depois.
Ela fechou os olhos por um instante.
O pátio inteiro prendia a respiração.
Ele não se movia.
Mas a voz dele não era vazia.
— Se eu te ajudar agora — continuou — ensinar-te-ei que sempre haverá alguém para te erguer. E haverá dias em que não haverá ninguém.
Rowena sentiu o orgulho ferido mais fundo que o corpo.
Apoiou o joelho bom no chão. O corpo tremeu.
Caiu de novo.
Um murmúrio correu entre os homens.
Ewan deu um passo à frente.
— Olha para mim. — ordenou.
Ela ergueu o rosto, os olhos úmidos não de choro, mas de dor contida.
— Levanta como uma guerreira. — disse ele. — Não como minha rainha. Não como minha esposa. Como alguém que se recusa a permanecer caída.
O silêncio era absoluto.
Rowena inspirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Ignorou a dor como aprendera a ignorar o medo.
Apoiou-se na própria perna, rangendo os dentes.
Desta vez, não caiu.
Levantou-se devagar, o corpo inteiro tremendo, mas de pé.
Um dos guerreiros levou a mão ao peito, em respeito.
Ewan caminhou até ela.
Só então.
Ele parou à sua frente, examinando rapidamente o ferimento.
— Agora sim. — disse baixo. — Agora posso ajudar.
Ele apoiou o braço dela sobre o ombro com firmeza não carinho e a sustentou.
— O treino termina aqui. — anunciou. — Vamos ao curandeiro.
Antes que saíssem, ele inclinou-se e murmurou apenas para ela:
— Nunca mais duvides que és capaz de levantar sozinha.
Rowena respirava com dificuldade, mas havia algo novo em seu olhar.
Não dor.
Orgulho.
E os guerreiros entenderam naquele dia:
O rei não estava apenas ensinando a rainha a lutar.
Estava ensinando o reino
o que significa força de verdade.
O dia já se inclinava para o entardecer quando Ewan deixou a sala do conselho.
O pátio havia voltado à rotina, mas o eco da queda ainda permanecia em sua mente não como culpa, mas como avaliação. Ele sabia exatamente onde forçara. Sabia também que, se não tivesse exigido, ela jamais teria descoberto até onde podia ir.
Mesmo assim… havia um peso.
Os passos do rei foram silenciosos ao atravessar o corredor de pedra até os aposentos reais.
A porta estava entreaberta.
Ewan empurrou-a com cuidado.
Rowena repousava sobre a cama, semi-reclinada, o braço enfaixado, a perna elevada sobre almofadas. O curandeiro já se fora, deixando o cheiro leve de ervas no ar.
Ela estava acordada.
Virou o rosto quando percebeu a presença dele.
— Então… — disse ela, com um fio de humor cansado — o Lobo veio verificar se a presa sobreviveu.
Ewan fechou a porta atrás de si.
— Sobreviveu. — respondeu. — E aprendeu.
Ele aproximou-se devagar, parando a poucos passos da cama.
Observou os ferimentos com o mesmo olhar clínico do campo de batalha.
— Nada quebrado. — disse. — Contusão profunda. Ficarás fora do pátio por cinco dias.
Rowena suspirou.
— Detesto quando esta certo.
Um silêncio breve se instalou.
Diferente dos outros.
Mais… humano.
— Não permiti que te ajudassem. — disse Ewan, por fim. — Porque precisava que levantasses por ti.
Ela o encarou com atenção.
— Eu sei. — respondeu.
Ele ergueu o olhar, surpreso por um instante.
— Não odiaste?
— No momento? — ela sorriu de lado — Sim. Um pouco. Talvez muito.
Depois, o sorriso se desfez.
— Mas entendi. — continuou. — Não queres uma rainha dependente. Queria saber se eu quebraria… ou se aprenderia.
Ewan assentiu lentamente.
— O campo de batalha não perdoa títulos. — disse. — Nem sentimentos.
Rowena respirou fundo, sentindo a dor latejar.
— Ainda assim… — disse — houve um momento em que pensei que não levantaria.
Ele permaneceu em silêncio.
— E então ouvi tua voz. — continuou ela. — Não como rei. Como alguém que acredita que eu podia.
Ela virou o rosto para o teto por um instante.
— Isso fez diferença.
Ewan aproximou-se mais.
Sentou-se na beira da cama, mantendo a distância respeitosa.
— Se eu tivesse acreditado que não podias — disse — teria encerrado o treino ali. Para sempre.
Ela voltou a olhá-lo.
— Então não te arrependes?
— Não. — respondeu. — Mas reconheço o custo.
Ele hesitou um segundo… raro.
Depois estendeu a mão e pousou-a sobre o lençol, perto da dela. Não tocou diretamente.
— Descansa. — disse. — Amanhã, não és rainha nem guerreira. És apenas alguém que precisa se recuperar.
Rowena observou a mão dele por um momento.
Então pousou a sua sobre a dele.
Leve.
Firme.
— Obrigada. — disse.
Ewan não retirou a mão.
Não apertou.
Mas ficou.
E naquele quarto silencioso, longe do pátio e das exigências, o Lobo guardava algo raro:
A certeza de que ela não apenas sobreviveria ao caminho que escolhera.
Ela o percorreria
de cabeça erguida.