Capítulo 19. Frágil Fraternidade

1070 Words
Bijou, South Lake Tahoe, CA Após o papo estranho do pai, coloquei algumas mudas de roupa, o PC e o dossiê do caso numa mochila. Dei um abraço apertado nas meninas da minha vida e avisei que voltaria apenas no dia seguinte. — Máquina bonita! — O pai elogiou o carro. Acabei rindo e me aproximei para pedir sua benção, ele beijou minha testa e finalmente saí. Foi uma viagem rápida na volta ao apartamento. Na teoria, eu era um oficial de patrulha. Meu único dever era zelar pelas ruas, atender chamados e todas essas coisas de gente pouco importante. Meu acesso aos arquivos do Departamento de Polícia, como um investigador privilegiado, era através da identificação do meu contato policial: o perito. Passei um café para me acompanhar pelo resto do dia. Tomei nota dos nomes que eu atestei na festa em Vegas para sentar na varanda do apê. Mesmo que vivêssemos um dia quente, o vento soprado da Baía em direção às casas era sempre muito fresco e isso ajudava para eu não morrer de calor. Dei uma olhada com calma na ficha de todos os desgraçados. Nem todos foram necessariamente alvo de investigação em algum momento de sua vida. Dos vinte e três policiais, só cinco já sofreram alguma punição na corporação por desvio de conduta — os casos envolviam, em maioria, extorsões. Pertenciam a mesma divisão em Sacramento — o que acendeu um alerta para eu falar com o meu irmão. Após olhar as fichas, foi o momento de fazer um trabalho mais minucioso. Apenas ler sobre as vidinhas deles, quem eram, onde moravam, seus familiares e etc. Isso tomaria muito mais tempo. Fui até a cozinha para pegar uma água, outra dose de café e voltei para as minhas muitas anotações. Era coisa de velho escrever, mas era muito seguro. Nunca fui um expert na guerra cibernética e nem tinha a menor vontade de me envolver com essas porcarias — superficiais demais para mim. Segui até a minha sala após anotar o mínimo deles para voltar a estender a minha cartolina com a réplica do mapa de indivíduos. Comecei a adicionar os familiares devagar, já deixando os nomes ligados aos pontos de constante frequência: locais de trabalho, colégio, faculdade... Estava perdido nessa anotação quando alguém bateu à porta. Eram cinco horas, pensei ser Natasha, então só coloquei a pistola destravada no coldre e abri. A desgraçada figura parada na minha porta com semblante melancólico, vestindo a farda, era Van. — Você tem que estar brincando comigo — ri. — Não, cara. Porrä, a gente precisa... — Conversar ou trocar tiro? — Respirei fundo. — Só conversar. — Na minha casa, só entra desarmado. — Saquei a pistola para apontar na sua testa e estendi a mão. — Devagar. Senão eu prometo que seu filho cresce órfão. — Que isso, cara... Apenas respirei fundo de novo e ele entendeu o recado. Não foi brusco e tirou os coldres para me entregar. Era muito tentador, mas eu dei o passo atrás para deixá-lo entrar, ainda com o dedo no gatilho. — Você tem pouco tempo. Pode sentar. Fechei a porta e mantive a arma em punho enquanto ele se sentava. Assim que sentou, eu guardei a pistola no coldre e desmuniciei as armas dele. — Porrä, não era para ser assim. — Ele falou. — Disso tenho certeza, senhor óbvio! — ironizei. — Era um momento complexo. Só aconteceu... Não foi pessoal... Aí, de repente, tinha o menino. — Não era complexo. — Recostei à porta. — Fiquei em internato por quase um ano; depois fui parar numa maldita guerrilha na África. Não fala de complexidade. — Não tive coragem de falar, você já estava passando aquilo tudo! — Abaixou a cabeça. — Só queria... sei lá... Sei que eu errei para caralhö nessa. — Tenho muita raiva de você, Van. — Respirei fundo, olhando-o. — Mais do que só raiva, eu acho que eu nunca me senti tão decepcionado com alguém... — Perdão, cara! — Ele abaixou a cabeça. — Entendo que tem muita coisa que não é fácil de lidar, mas vai demorar muito para eu entender o que você tinha na cabeça para achar que estava tudo bem. — Tentei só ser amigo dela. Não tem desculpa, eu sei, mas saiu do controle. — Ele levantou e levei a mão à pistola imediatamente. — Calma! — Ergueu as mãos. — Não consigo... Amei muito aquela filha da putä, com certeza! Mas, antes disso, amei você como se fosse meu irmão... matava e morria por você. — Não sei o que fazer para consertar isso, mas eu realmente queria — falou, olhando em minha direção. — Não sei o que conserta isso. — Meneei a cabeça. — Nem sei se tem conserto! Pior ainda... Tenho vontade de só explodir em cima de você, mas você tem um filho. — Obrigado por salvar ele — sorriu amarelo. — E-eu... — Coçou a cabeça. — Vim principalmente por isso. — Não precisa agradecer. Essa é só a minha razão de viver — dei de ombros. — Se quer saber o que houve, eu não menti em nada do que falei com o sargento. — Sei que não mentiria. Ela diz não saber o que houve... acho que o castigo chegou. — Engoliu seco. — Tenho minhas ideias, mas não vou plantar essa semente — dei de ombros. — Nada do que eu posso fazer doerá mais do que seus próprios feitos. Boa sorte! Ele apenas assentiu e pegou ambos os coldres. — Munições nos bolsos — falei e ele só assentiu. Terminou de recolher suas munições e eu abri a porta para ele ir embora. Tinha um motivo para me orgulhar: consegui não perder a cabeça. Acabei perdendo o saco para o trabalho, perdendo a vontade de tudo. Só me deitei no sofá, deixei a pistola sobre a mesa de centro — ao alcance da mão. Não cochilei, nem nada, enquanto observando o céu claro da varanda. Era difícil saber, na maior distância, o que era o céu e o que era a Baía. Fugi dos pensamentos ruins que surgiram — não foram poucos! — e o meu dia acabou se encerrando daquela forma — ao menos, o dia de trabalho. Quando a mente acalmou, só me sentei no sofá para olhar o quadro. Isso facilitou para que, devagar, os pensamentos do serviço voltassem a tomar a cabeça.
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