Al Tahoe, South Lake Tahoe, CA
— Estou me separando... Vou voltar para minha casa. — Van falava enquanto eu dirigia. — A filha da putä sumiu... — Confesso que senti pena ao ouvi-lo.
Para o meu azar, o parceiro do dia era o Van.
— Sumiu... como? — Olhei-lhe de soslaio.
— Sumiu! — arfou. — Notifiquei. Está foragida por tentar matar o pequeno. Ele está em casa. Consegui uma babá... Meu pai está voltando da Alemanha.
— Sinto muito por isso.
— Obrigado pela ajuda, Levi.
Apesar do meu incômodo, foi um dia de trabalho tranquilo. Pouco conversamos, eu ainda não estava confortável com isso, mas ele era extrovertido demais.
Sempre foi o mais comunicativo de nós dois — mesmo com isso, ainda se conteve bastante e isso ficou bem claro. Não tivemos mais atrito e isso foi bom.
Consegui solicitar a colaboração do perito na operação que tinha em mente. Seria um pouco extraoficial e ele não se incomodou com a ideia.
O major ainda seria comunicado, mas apenas no momento certo. O objetivo não era resgatar um colega, mas resgatar um civil — e o perito parecia ser como eu.
Isso facilitou o contato. Com sua ajuda pronta, eu só precisaria me encontrar com Natasha para estipularmos nossa linha de ação no resgate.
Saindo do trabalho à noite, havia um burburinho pelo caminho até a garagem e Natasha estava sentada no capô do meu carro — causando os cochichos.
Vestida no catsuit, fumava seu cigarro de pernas cruzadas. Ao me aproximar, eu apenas tirei seu cigarro para apagar, apontando a placa que avisava “Não fume”.
— Nossa, senhor certinho! — Ela revirou os olhos.
— Vamos! — Estendi-lhe a mão para ajudá-la a descer. — Veio sem moto hoje? — perguntei.
Ela aceitou a ajuda e desceu.
— Sim, preciso de carona — riu.
Assenti com a cabeça, rindo. Passei na lixeira para jogar os restos de seu cigarro, ignorando as reclamações que ela fazia, e lhe abri a porta do carro.
— Poderia fingir que se importa com a lei — falei ao entrar no carro. — Como estamos com o mapa?
— Na minha casa. Consegui expandi-lo um pouco com algumas poucas informações que comprei hoje — falou, me olhando. — Pode deixar. Não fumo mais aqui.
— Obrigado! — Dei partida para seguirmos.
— Como foi o dia?
— Razoável. Van fala muito, foi meu parceiro por hoje — dei de ombros. — Lindsay sumiu no mapa... Deixou ele e o garoto... Está foragida.
— Eita! — Ela gargalhou. — Que mulher maluca.
— Pois é... Falei com o contato no DP. Vamos observar pela semana e, com fé, a operação vai longe!
— Ela precisará de proteção, já pensou nisso?
— Sim — assenti com a cabeça. — Há uma guerra de influência em curso. Publicizar o caso é muito perigoso, mas também muito favorável...
— N-não está pensando em-
— A idade da vítima colabora para um maior sigilo no caso até a segunda ordem. Precisamos da ajuda do seu cliente para fazer isso acontecer. Programa de proteção à testemunha deve bastar...
— Tsc, você está louco! — Ela riu.
— Não. Com uma vítima surgindo, provavelmente vamos nos mover para termos agentes. O contato pode levar a notícia ao major, aumentando essas chances...
— Hmm... Vocês vão se expor demais... não!?
— Duvido. Nem eu sei quem é agente infiltrado aqui e quem não é — dei de ombros. — Falando não só dos meus homens, mas de homens corruptos também.
— Estamos no escuro, mas o cenário não é ruim... — Soou pensativa. — Entendo. Vale a pena o risco. Se incomodaria de encontrar o meu cliente?
— Não tenho problemas... Só mantenha, por favor, a discrição quanto ao meu trabalho no Exército. Sou apenas um policial californiano...
— De boa... — Ela deu de ombros.
A viagem até seu apartamento foi tranquila.
Na sala, o mapa estava estendido na mesa de centro. A cartolina ocupava toda a superfície da mesa.
— Infelizmente, não consegui nada concreto quanto ao suposto subsolo, mas comprei tudo que pude sobre a instalação e tudo está aí. — Ela falou.
Segui ao mapa para observá-lo. Era um ambiente extenso. O térreo tinha a diversão pública, mais casual: uma boate entre dois clubes de strippers.
— Por que delinear diferentemente? — Eu a olhei, apontando a linha pontilhada que ela colocou para dividir a boate de ambos os ambientes.
— A boate é separada desses dois ambientes por um vidro grosso. Até onde sei, essa parede se retrai. — Ela apontou para baixo. — Desce. O que acaba reiterando a ideia de haver um subsolo sendo usado.
— Já lidou com o lugar aberto?
— Fui numa social fechada há um tempo e as paredes não estavam de pé, sabe essas orgias bem doidas de rico? — sorriu de canto de boca. — Foi fodä!
— Foco, ruiva! — ri, apontando ao mapa.
Ela acabou rindo, mas se ajoelhou ao meu lado.
Apontou os elevadores e passou a primeira cartolina ao lado para eu ver a segunda parte do mapa que exibia os quartos dos dois andares superiores.
— Cuidei de separar também o estacionamento. — Ela mostrou a terceira cartolina. — Também é o primeiro andar, às costas do edifício.
— Por que separou?
— Vi esquisitices no estacionamento quando investiguei. Tem quatro elevadores, incluindo um enorme elevador de carga. — Ela apontou no mapa, mais perto da saída. — O ambiente é proposto para receber caminhões bem grandes. O teto é muito alto.
— Se chega mercadoria viva...
— Se recebem dessa forma, é num ponto fácil de se ver. Claro, fácil num sentido bem figurado — riu.
— Às costas, não tem nada... — Peguei o telefone para checar o mapa e, dali ao sinal de vida mais próximo, era um quilômetro de mato e água.
— Um bom ponto para fazer merda...
— Sem dúvida. — Respirei fundo, meneando a cabeça. — Enfim, isso ajudou. Já sei o que fazer e como vou entrar. Só precisa me ajudar a sair.