Bijou, South Lake Tahoe, CA
— Não pode se deixar manipular por isso — dizia a distante voz do pai. — Vou marcar uma consulta ao doutor, mas ainda precisa colaborar.
Franzi o cenho, abrindo os olhos para observar onde eu estava. O pai estava sentado à beira da cama com o semblante preocupado, era o quarto onde cresci.
— Vou ser o melhor amigo que eu puder, se você deixar. Alguns assuntos vão incomodar, mas eu gostaria que conseguisse superar o incômodo para falar comigo.
— E-eu... não queria.. ela-
Os olhos lacrimejaram e eu fitei minha mão.
— Foi muito forte! — Respirei fundo.
Segurei forte na cama, sentindo o mesmo calor apavorante espalhar no corpo. Talvez eu tivesse catorze e a primeira experiência com Lindsay foi muito intensa.
O pai ficou sério e me observou do jeito que eu já sabia ser para analisar — era seu jeito de invadir nossa mente, saber exatamente o que sentíamos.
— Sentiu dor? — Ele cruzou os braços.
Acabei levando a mão ao peito, tentando manter a respiração sob controle — inutilmente, a mera lembrança da sensação já me fazia sentir ofegante.
O coração já ficava sobrecarregado, como eu não sabia ser possível, nem mesmo nos meus dias de exercício mais intensos — e eu pegava bem pesado!
— Vocês estavam de acordo? — Ele arguiu.
— S-sim... e-eu parei quando ela... pediu. — A timidez parecia que me mataria primeiro. — V-voltei... e...
— Essa parte eu já sei! — Ele riu. — Foi só uma primeira experiência, pode ser que não se assemelhe daqui para frente, mas ainda seja cauteloso.
— E-eu vou... tentar.
— O doutor ajudará com tudo que eu não puder, mas precisará de sua confiança. Por ora, só vou dar o conselho que mais recebi na vida: não exagere!
***
Despertei com a sensação de falta de ar, apesar de me sentir calmo. Respirei fundo e olhei ao redor, era meu apartamento felizmente.
Natasha estava deitada ao meu lado. Consegui me comportar pela noite e manter a sono de barriga para baixo — e isso foi a causa do incômodo ao acordar.
Segui ao banho. Sonhar com o pai não era tão habitual, principalmente uma memória tão distante.
Terminado o banho, eu vesti uma bermuda e fui ao espelho do banheiro. A barba não foi tão abusada no crescimento, mas aparar já era uma boa ideia.
Cuidei da barba para sair à academia.
Não queria pensar na noite e esse era o motivo para eu me esforçar em ocupar a cabeça. Podia ser qualquer coisa, eu só não queria lembrar.
Apenas duas mulheres estavam na academia do prédio àquela hora. Sorriram e acenaram, apenas lhes sorri para ter meus quarenta minutos de exercício.
Saí para comprar o café da manhã e, voltando ao apê, Natasha vestia uma das minhas blusas, estava na sala com a televisão ligada, mexendo no telefone.
— Pensei que tinha me abandonado... — Ela me olhou sobre os ombros e eu apenas respirei fundo.
— O café... — Foi só o que consegui falar.
— Ótima ideia! — sorriu, se levantando. — Ajudo.
Seguimos à cozinha e ela tomou tudo para servir a mesa enquanto eu tive pouca reação. Sentei para observá-la e ela apenas retribuiu o olhar com gentileza.
— Desde sempre, eu imagino... — Ela desviou o olhar de mim para falar, sentou do outro lado da mesa após me servir. — Já teve suas consultas... talvez.
— Só quando era mais novo... O pai deu a ideia e eu fui. Achei que estava doente mesmo — suspirei. — No fim, nem precisei de tanta coisa para melhorar.
— Qual o diagnóstico? — Soou curiosa.
— Não sei — dei de ombros. — O pai disse para eu me acautelar, tentar ter uma atividade de lazer e o médico receitou calmantes, que nunca precisei usar.
— Entendo... Vou falar com seu pai depois. — Ela assentiu com a cabeça. — Como está se sentindo?
Eu respirei fundo para pensar o que responder.
— Ehrr... bem, eu acho.
— Demorou tanto que quase dormi — riu.
— Só acho que exagerei e isso me faz sentir culpa. — Desviei o olhar para a refeição. — Além de culpa, uma ansiedade para exagerar de novo... só um pouco.
Engoli seco e o corpo arrepiou. Suspirei e o silêncio acabou se instaurando. Não voltei ao olhá-la enquanto comíamos para conseguir manter o foco.
— Já me banhei. Quer uma carona ao trabalho? — Natasha se levantou ao terminar. — Vamos com seu carro e não me incomodo em buscar a moto a pé.
— É bom... Não me sinto tão bem para dirigir — assenti com a cabeça. — Às vezes me sinto... tonto...
— Odeio que vá ao trabalho! — Ela riu, meneando a cabeça enquanto deixando a cozinha. — Só me dá cinco minutos antes de ir ao seu quarto.
Nem lhe respondi, apenas comecei a recolher a louça para lavar. Limpei a pouca bagunça que fizemos na mesa e isso foi mais que suficiente para ela se vestir.
— Imagino que não tenha o hábito de tocar uma por aí... — Natasha parou na entrada da cozinha, cruzando os braços e me olhando. — Estou enganada?
— Você tem umas dúvidas... — Acabei rindo.
— Estou tentando te conhecer para te ajudar!
— Não. Sempre levo os conselhos do pai muito a sério — dei de ombros. — Mesmo quando mais julguei precisar, eu ainda assim evitei a masturbaçäo.
— Menino... — Ela me mediu de cima a baixo, mas agitou a cabeça para falar: — Enfim, okay... se não costuma fazer, então não vou me preocupar que fará.
— Não precisa mesmo. Suporto... — sorri-lhe.
Segui ao meu banho. Talvez ela ter falado seja o que me fez pensar duas vezes, mas eu consegui apenas me arrumar para encontrá-la na sala.
— Já pedirei que alguém observe a aproximação do meu colega — falei enquanto descíamos. — Com sorte, esse é o ano em que a mocinha volta para casa.
— Gosto do otimismo, loiro! — Natasha riu.
— Não é só otimismo, mas certeza que não falharemos. Conseguiria traçar um mapa dos ambientes que conheceu? — pedi.
— Claro. Eu te busco à noite e mostro.
— Obrigado, ruiva.