Stateline, South Lake Tahoe, California
— Foi bom. A gente fez um desfile e o pai andou com o vestido por toda a casa! — A risada de Chloe era sempre contagiante. — Você tinha que ver!
Não sabia o que motivou o sonho com a costura, mas os meus pais sempre incentivaram para ela seguir.
O cômodo ao lado de seu quarto era uma casa de bonecas. Como a maquete de uma cidade, ela vestia os cidadãos e fazia as decorações. Amava fazer flores.
O lugar era aconchegante e tinha seus muitos desenhos na parede — desde os primeiros bonecos de pauzinho aos bons modelos que ela fazia aos dez.
Naquele momento, ela paginava o caderno onde desenhava as flores que conhecia. Estava buscando o hibisco, florzinha vermelha que conheceu no Brasil.
— Tinha um monte dela em todos os lugares! — exclamou quando achou o desenho. — Olha! Era mais ou menos assim... Ainda não está bom. — Acanhou-se.
— Ah, você há de convir que está muito bom! — falei, olhando-a de soslaio. — Compara com as outras...
— As outras são horríveis! — riu, fugindo o olhar. — O pai chamou essa de mato! — exclamou, arregalando os olhos. — Quando tem em todo lugar é mato! — citou uma velha fala do pai com um óbvio desconforto.
Acabei rindo enquanto ela fechou o caderno para guardá-lo, ainda parecendo não crer na fala do pai.
— Estamos prontos para ir? — perguntei.
Chloe já estava arrumada e eu só podia identificar isso pela grossa trança que a mãe sempre fazia para ela ir à rua — isso ajudava a evitar acidentes inusitados com a pequena Rapunzel.
Levantei para irmos. Nossos pais estavam reclusos, então só deixei um bilhete e não incomodei.
Para evitar distrações que me fariam parar após a fronteira com Nevada, nos dirigi na direção da praia.
Teria o sorvete que prometi, pessoas para ver — ela adorava imaginá-las vestidas de forma diferente — e o comércio próximo era intenso o suficiente.
Sem contar as lojas de roupa que ela amava ver!
Munida de seu caderno e seu lápis, sentamos no lado de fora da sorveteria. Chloe era muito extrovertida, sempre tinha assunto para falar com todo mundo!
Muitas se aproximaram para vê-la desenhar e conversar. Não me incomodei, mas também não tinha o menor interesse em dar muito assunto a ninguém.
Ela já tinha sua própria dieta, então só aceitou o primeiro sorvete. Passeamos nas lojas de roupa onde demos mais trabalho já que ela queria vê-las e tocá-las.
Não era bagunceira, mas chamava atenção dos vendedores, que caíam na armadilha e se aproximavam para ela começar a perguntá-los sobre o tecido.
Alguns sabiam responder, outros não.
Almoçamos numa pensão. A mulher pareceu gostar de Chloe e ofereceu sobremesa, mas ela negou.
— Já comi sorvete. Não posso sair da dieta! — Foi a resposta que fez a mulher se derreter ainda mais.
— Disciplinada, como o pai? — A hispânica me perguntou. Devia ter trinta, uma bela mulher.
— Não, o pai não tem disciplina! — Chloe riu.
— Realmente! — Eu também ri.
— A não ser com aqueles gráficos. Tem que ver, a gente briga para ele ser saudável! — Chloe reclamou.
Concordei, rindo, e a mulher pareceu confusa, mas não perguntou, apenas voltou ao seu trabalho.
— Vou voltar a morar no apartamento — avisei.
Ela me olhou e apenas suspirou.
— Prometo sempre visitar, tudo bem?
— Vai ser como na última vez? — Seu semblante ficou tristonho. — Aquilo foi muito tempo, não!?
— Foi muito tempo, mas foi trabalho. Agora, só vou morar perto da praia — expliquei. — Posso te buscar no colégio às segundas, o que me diz? — sorri.
— É bom! — Ela sorriu timidamente. — A gente podia ligar para Matheus e ver se ele aparece também...
— Vou tentar. Fazemos um churrasco!
Seu sorriso alargou e ela assentiu.
— Problemas, mano? — Ela me olhou preocupada.
— Não, só é mais perto do trabalho — menti, claro.
— O pai não estava bem. — Ela se aproximou, falando bem baixo. — Ele está doente? — perguntou.
— E-eu... acho que não. — Franzi o cenho. Acabei ficando preocupado também. — O que houve?
— Não parecia dormir... e a mãe é péssima!
— Ela não mente bem! — ri. — Verei se está tudo bem e prometo avisar. Você me ajuda a vigiá-los?
— Ajudo! — Ela assentiu com a cabeça.
Fomos ao carro e voltei para casa. Chloe foi direto às escadas. Só dava para ouvir a mãe na cozinha.
Eu me recostei na entrada. Distraída, ela fazia o jantar. Assustou-se ao virar e me ver, mas riu e falou:
— Deus te abençoe!
— Sua benção. Está tendo problemas? — A fala de Chloe simplesmente não saía da minha cabeça.
— Acho que não. — Ela riu. — Espero!
Fui à mesa para me sentar e olhá-la. Apesar de estar sorrindo, ela ainda parecia preocupada e isso era algo muito difícil da mãe conseguir omitir.
— Vivi meses bem difíceis... Não quero falar ainda sobre isso. — Engoli seco, afinal, não me orgulhava. — Acabei dando muito trabalho ao pai nesse ano, sabe!?
Seu sorriso apagou e ela respirou fundo.
— Ele tem estado estressado e eu não sei bem o porquê — falou. — Ela sempre acaba afetada... pesadelos e essas coisas... Acho que é isso, meu amor.
Levantei para me aproximar dela e abraçá-la.
— Desculpa por isso! — pedi.
— Não se desculpe! — riu, retribuindo o abraço. — Se seu pai está ajudando, eu já fico feliz... Não precisa falar, só lembra que eu te amo muito, tudo bem?
— Também amo muito a senhora.
— Fica bem! — Ela acariciou meu rosto.
— Prometo!
— Vai ficar para o jantar? — Ela se virou rápido, respirando fundo. — Ou vai nos abandonar a essa hora?
— Preciso sair. Tenho um encontro hoje. Nem sei como essas coisas funcionam, então me deseja sorte! — Já fiquei acanhado, só de imaginar sua reação.
— Hm... a fila anda, ‘né!? — Ela virou, sorrindo largo. — Aproveita a noite e arrasa com ela! — riu alto.
Deixei a cozinha rindo.
— Já vai!? — A pequena desceu correndo.
— Sim, já vou. — Eu a abracei. — Seja obediente, se comporte direitinho. Amanhã eu volto aqui, okay?