Capítulo 21. Dias Inocentes

1074 Words
Stateline, South Lake Tahoe, California — Foi bom. A gente fez um desfile e o pai andou com o vestido por toda a casa! — A risada de Chloe era sempre contagiante. — Você tinha que ver! Não sabia o que motivou o sonho com a costura, mas os meus pais sempre incentivaram para ela seguir. O cômodo ao lado de seu quarto era uma casa de bonecas. Como a maquete de uma cidade, ela vestia os cidadãos e fazia as decorações. Amava fazer flores. O lugar era aconchegante e tinha seus muitos desenhos na parede — desde os primeiros bonecos de pauzinho aos bons modelos que ela fazia aos dez. Naquele momento, ela paginava o caderno onde desenhava as flores que conhecia. Estava buscando o hibisco, florzinha vermelha que conheceu no Brasil. — Tinha um monte dela em todos os lugares! — exclamou quando achou o desenho. — Olha! Era mais ou menos assim... Ainda não está bom. — Acanhou-se. — Ah, você há de convir que está muito bom! — falei, olhando-a de soslaio. — Compara com as outras... — As outras são horríveis! — riu, fugindo o olhar. — O pai chamou essa de mato! — exclamou, arregalando os olhos. — Quando tem em todo lugar é mato! — citou uma velha fala do pai com um óbvio desconforto. Acabei rindo enquanto ela fechou o caderno para guardá-lo, ainda parecendo não crer na fala do pai. — Estamos prontos para ir? — perguntei. Chloe já estava arrumada e eu só podia identificar isso pela grossa trança que a mãe sempre fazia para ela ir à rua — isso ajudava a evitar acidentes inusitados com a pequena Rapunzel. Levantei para irmos. Nossos pais estavam reclusos, então só deixei um bilhete e não incomodei. Para evitar distrações que me fariam parar após a fronteira com Nevada, nos dirigi na direção da praia. Teria o sorvete que prometi, pessoas para ver — ela adorava imaginá-las vestidas de forma diferente — e o comércio próximo era intenso o suficiente. Sem contar as lojas de roupa que ela amava ver! Munida de seu caderno e seu lápis, sentamos no lado de fora da sorveteria. Chloe era muito extrovertida, sempre tinha assunto para falar com todo mundo! Muitas se aproximaram para vê-la desenhar e conversar. Não me incomodei, mas também não tinha o menor interesse em dar muito assunto a ninguém. Ela já tinha sua própria dieta, então só aceitou o primeiro sorvete. Passeamos nas lojas de roupa onde demos mais trabalho já que ela queria vê-las e tocá-las. Não era bagunceira, mas chamava atenção dos vendedores, que caíam na armadilha e se aproximavam para ela começar a perguntá-los sobre o tecido. Alguns sabiam responder, outros não. Almoçamos numa pensão. A mulher pareceu gostar de Chloe e ofereceu sobremesa, mas ela negou. — Já comi sorvete. Não posso sair da dieta! — Foi a resposta que fez a mulher se derreter ainda mais. — Disciplinada, como o pai? — A hispânica me perguntou. Devia ter trinta, uma bela mulher. — Não, o pai não tem disciplina! — Chloe riu. — Realmente! — Eu também ri. — A não ser com aqueles gráficos. Tem que ver, a gente briga para ele ser saudável! — Chloe reclamou. Concordei, rindo, e a mulher pareceu confusa, mas não perguntou, apenas voltou ao seu trabalho. — Vou voltar a morar no apartamento — avisei. Ela me olhou e apenas suspirou. — Prometo sempre visitar, tudo bem? — Vai ser como na última vez? — Seu semblante ficou tristonho. — Aquilo foi muito tempo, não!? — Foi muito tempo, mas foi trabalho. Agora, só vou morar perto da praia — expliquei. — Posso te buscar no colégio às segundas, o que me diz? — sorri. — É bom! — Ela sorriu timidamente. — A gente podia ligar para Matheus e ver se ele aparece também... — Vou tentar. Fazemos um churrasco! Seu sorriso alargou e ela assentiu. — Problemas, mano? — Ela me olhou preocupada. — Não, só é mais perto do trabalho — menti, claro. — O pai não estava bem. — Ela se aproximou, falando bem baixo. — Ele está doente? — perguntou. — E-eu... acho que não. — Franzi o cenho. Acabei ficando preocupado também. — O que houve? — Não parecia dormir... e a mãe é péssima! — Ela não mente bem! — ri. — Verei se está tudo bem e prometo avisar. Você me ajuda a vigiá-los? — Ajudo! — Ela assentiu com a cabeça. Fomos ao carro e voltei para casa. Chloe foi direto às escadas. Só dava para ouvir a mãe na cozinha. Eu me recostei na entrada. Distraída, ela fazia o jantar. Assustou-se ao virar e me ver, mas riu e falou: — Deus te abençoe! — Sua benção. Está tendo problemas? — A fala de Chloe simplesmente não saía da minha cabeça. — Acho que não. — Ela riu. — Espero! Fui à mesa para me sentar e olhá-la. Apesar de estar sorrindo, ela ainda parecia preocupada e isso era algo muito difícil da mãe conseguir omitir. — Vivi meses bem difíceis... Não quero falar ainda sobre isso. — Engoli seco, afinal, não me orgulhava. — Acabei dando muito trabalho ao pai nesse ano, sabe!? Seu sorriso apagou e ela respirou fundo. — Ele tem estado estressado e eu não sei bem o porquê — falou. — Ela sempre acaba afetada... pesadelos e essas coisas... Acho que é isso, meu amor. Levantei para me aproximar dela e abraçá-la. — Desculpa por isso! — pedi. — Não se desculpe! — riu, retribuindo o abraço. — Se seu pai está ajudando, eu já fico feliz... Não precisa falar, só lembra que eu te amo muito, tudo bem? — Também amo muito a senhora. — Fica bem! — Ela acariciou meu rosto. — Prometo! — Vai ficar para o jantar? — Ela se virou rápido, respirando fundo. — Ou vai nos abandonar a essa hora? — Preciso sair. Tenho um encontro hoje. Nem sei como essas coisas funcionam, então me deseja sorte! — Já fiquei acanhado, só de imaginar sua reação. — Hm... a fila anda, ‘né!? — Ela virou, sorrindo largo. — Aproveita a noite e arrasa com ela! — riu alto. Deixei a cozinha rindo. — Já vai!? — A pequena desceu correndo. — Sim, já vou. — Eu a abracei. — Seja obediente, se comporte direitinho. Amanhã eu volto aqui, okay?
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