Bijou, South Lake Tahoe, CA
Nós batemos muita perna nas primeiras horas do dia. Paramos na praia para a pequena tomar seu sorvete e ver as roupas de banho e os turistas.
— Uma raridade sairmos... — Sofia falou.
— Verdade — ri. — Quer uma cerveja?
— Hoje pode — gargalhou.
Levantei para pagar a rodada. Estávamos num banco sob um guarda-sol. Ajudava para proteger a pequena do sol — no almoço, ela já estava vermelha.
— O que ‘tá rolando? — Não enrolei ao voltar.
— Não sei... Por quê? — Ela se fez.
— Você mente mäl! — ri.
— Não sei. Só estou preocupada — deu de ombros, olhando para a menina. — Estão sendo anos agitados.
— Posso não ser a pessoa mais presente do mundo, mas ainda sou amiga. Pode contar comigo.
Sofia abaixou a cabeça e respirou fundo.
— Acho que ele está falseando bastante. Mais do que ocorreu nos últimos anos. É bem complicado, sabe?
— Recaída? — Levantei a sobrancelha.
— Pois é. Tem se negado a ir ao doutor, isso me deixa apreensiva. As taxas de estresse crescem e isso não é nada bom... Nem sei o que está havendo.
— Complexo... arlequina.
— Bastante. Sei que Levi teve problemas, mas não sei do que se trata. Fico feliz que Lucas ajude, Matheus veio também — sorriu. — Odeio quando ele negä ajuda.
— Lucas é fodä também! — arfei.
— No fim, é só isso. Chloe fica agitada quando temos problemas... nem sei como! — riu. — A gente não briga ou discute, mas ela ainda sente a tensão, sei lá.
— Terapia para a menina! — Eu a olhei.
Estava com seu bloquinho e seu lápis enquanto observando as pessoas com atenção. Ora estava desenhando, ora estava apenas olhando tudo.
— Já estamos em terapia. — Sofia riu. — Chegando na adolescência, nós já estamos observando como será a puberdade... Se for como Levi, será bem difícil.
— Soube que ele teve problemas.
— Alguns. Felizmente, Lucas sabia como ajudar. Apresentamos a pediatra ao doutor dele e tudo fluiu até bem. Não precisou ser ativamente medicado, nem nada.
— Com ela tem a TPM, ‘né!? — brinquei.
Sofia acabou gargalhando e meneando a cabeça.
— A nossa puberdade ainda é bem diferente.
— Pois é. Fico pensando como os meninos vão lidar quando ela arrumar um namorado. — Sofia me olhou com aquela cara hilária que só ela fazia.
— Vai ser terrível e, não vou negar, se Lucas me mandar matar... eu mato! — Acabei rindo. — Tudo para tentar impedi-la de viver essa merda toda.
— É tenso. Nem posso falar, eu sou uma mulher feliz e realizada, mas sei o quanto é complicado... o quanto foi complicado chegar aqui.
— Tem que ter nervos de ferro, arlequina.
— Como! — Ela riu. — É maravilho e aflito.
— Vai dar tudo certo. Lucas está tentando proteger todo mundo. Ainda não sei o que acontece, mas ele está muito preocupado e eu vou descobrir.
— Acho que é algo com a mãe dele — suspirou. — Ele fala dormindo — sorriu amarelo. — Tem tido noites meio perturbadas ultimamente. Só não sei o quê.
“Merda!”, foi só o que pensei comigo.
— Vou descobrir... e tento ajudar! — sorri-lhe.
— Obrigada. Gosto que esteja mais presente — riu. — Pode até parecer, mas eu não fico nem um pouco confortável com a sua distância.
— Ih, as coisas tão mais próximas do que você imagina! — gargalhei e ela franziu o cenho. — Ignora!
— Okay...
— Levi está tendo problemas com a loira e você sabe, ‘né!? — Ela meneou a cabeça para negar. — Está. Ele descobriu de tudo e ela ainda está em cima dele.
— Entendo. Por isso meu filho ‘tá avoado...
— Ele também tem muito trabalho, mas ter a loira enchendo o saco deve estar colaborando. Sabe que eu transei com seu filho, ‘né!? — ri.
— Quê!? — Ela acabou rindo mais alto.
— Sim, repetiria. Só me esforço para não repetir porque Lucas pediu, mas observo a tensão. Estou bem preocupada com o que ele viveu com essa loira.
— Sei que foi turbulento... — Seu semblante se chateou. — Não tenho muitos detalhes. Assim que se mudou, ele teve um período mais rebelde.
— Paixão — ri.
— Pois é. Espero que se curtam bem. — Ela sorriu. — Não sou de me gabar, mas criei um príncipe!
— Com certeza. Merece os parabéns.
— Eles são tão bons. Dá até pena, sabe? — Ela até estava olhando a menina, mas pareceu distanciar. — O mundo pode ser muito assustador e eu não posso fazer nada para proteger nenhum deles desse mundo.
— Ainda podemos somar forças — sorri-lhe.
— É bom ter ajuda. Obrigada de novo.
— Sou uma cretina do bem! — brinquei e ela riu.
A menina se aproximou da mesa, pediu mais um sorvete e nós pegamos mais uma rodada de cerveja. Demos mais atenção à pequena que já estava cansada.
Mesmo sendo final de semana, a mera quebra do seu cotidiano com um passeio comigo e Sofia acabava deixando a loirinha hiperativa, muito mais extrovertida.
Chloe falou de um vestido que estava costurando para mim. Acabamos voltando e eu acompanhei a pequena até seu ateliê para ver sua obra de arte.
Com o investimento dos pais, ela estava progredindo bem com os desenhos. A máquina de costura mais alta ainda estava parada, aguardando...
Enquanto isso, ela se mostrava hábil com a máquina menor. Era impressionante como o tempo passou e ela conseguiu ter uma infância tão inocente.
Mesmo que não quisesse, não tendo participação alguma, eu ainda podia sentir uma felicidade genuína.
Sem infernos e o caos, ela poderia só se queixar das vezes em que faltou o colégio e isso tirou seu sono — ruïm, mas ainda mais suave do que nossa vida.
No quesito felicidade, definitivamente a loirinha me fazia sentir bem. Era símbolo de muitos sacrifícios, frutificando com uma beleza ímpar.
Sonhadora e sorridente, tudo que queremos para os nossos no futuro. Ali, me vi sem arrependimentos.