Elena A cidade ainda mastigava o nosso casamento quando eu assumi a rede de abrigos. Não pedi bênção; dei ordens. Amália espalhou minha voz por corredores e cozinhas: “Crianças e velhos primeiro; remanejamento por rotas Alfa e Éter; senha de passagem Lucerna. Quem assobiar Santa Lucia no portão não entra — nunca.” Os mais antigos estranharam a frieza. A frieza salva. Afago, depois. O padre Orsini me esperava na sacristia com as mãos entrelaçadas, o rosto de quem pratica contrição desde menino, o corpo marcado pela pressa de outros. O ar cheirava a cal, vinho de missa e pano úmido. Sobre a mesa, inventários: velas, azeite, toalhas, hóstias. Tudo muito limpo. Limpeza em excesso costuma esconder sujeira. — Senhora Elena… — ele começou, soprando o meu nome como incenso. — Alegro-me por vê-l

