capítulo 13

973 Words
CAPÍTULO 13 — O CORRE DO ASFALTO E A SOMBRA DA DÍVIDA Larissa. O cheiro de tecido sintético cortado a laser, óleo de máquina e ferro quente invadiu meu peito assim que a porta de ferro da confecção no Bom Retiro se abriu. Barracão barulhento, dezenas de carrinhos de linha indo e vindo, zunido constante das overlocks e falatório das costureiras disputando espaço com rádio velha tocando pagode antigo. Eu já tava sentada na minha máquina, ajustando tensionador da linha, mas eu não tinha dormido na minha casa. Tinha dormido na cama do dono do morro. Ainda sentia cheiro dele no meu cabelo. Perfume caro, cigarro e lençol limpo. Minhas mãos tremiam na linha. Manu apareceu na porta da gerência parecendo furacão desregulado. Calça jeans larga, blusa com estampa de banda que nem sei se conhecia, gesticulando enquanto tentava convencer encarregado. Manu: — Amiga, juro por Deus que vi o d***o cruzando ladeira hoje cedo! Tribunal do Crime do morro dá mais medo que filme de terror de domingo à noite. Se eu escorregar na escada da biqueira de novo, peço as contas antes de começar. Eu: — Fala baixo, Manu. Quer chamar atenção da chefe no primeiro dia? Manu sentou do meu lado, largando bolsa no chão com estrondo, ajeitando cabelo cacheado num coque torto. Manu: — Tô falando normal, guria! Só tô dizendo que nossa realidade é dura. Enquanto a gente tá aqui com coluna torta por dois salários mínimos, tua irmã tá lá em cima achando que novela da Record é documentário, querendo bancar rainha da biqueira. Engoli seco. Menção ao nome da Bia travou minha garganta. Vinte e três anos, Bia conseguia destruir num fim de semana tudo que eu tentava reconstruir mês inteiro. Não queria saber de costura, ponto na CTPS, ajudar em casa. Sonho dela era desfilar de shortinho curto no baile funk, colar com vapor e conseguir aval de gerente pra virar fiel oficializada. Enquanto isso, nossa mãe passava dias limpando casa em prantos, pressão nas alturas, nome no SPC por causa das contas que Bia acumulava e drogas que trazia pra dentro de casa fiado. E adivinha quem tinha que cobrir rombo? Eu. Trabalhar de sol a sol na confecção era único jeito de juntar dinheiro pra pagar taxas que Leão vinha cobrar na porta toda vez que Bia metia pés pelas mãos. 80 mil. Oitenta mil de pó, de fuzil, de baile. Manu: — Não fala dela, Manu. Por favor. Se eu começar pensar em quanto Bia deve pra boca do Rafael, não consigo nem passar linha na agulha. Manu me olhou estranha. Manu: — Lari... tu tá com cheiro diferente. Perfume de homem caro? Tu não dormiu em casa não? Dona Lúcia falou que Leão te buscou três da manhã. Meu rosto queimou. Larissa: — Ele me buscou pra proteger. Vila Nova ia cobrar dívida da Bia hoje. Manu: — Proteger aonde, Lari? Na casa dele? Fiquei quieta. Não sabia responder. --- Enquanto a gente mergulhava no ritmo pesado da produção, a quilômetros dali, clima no alto do morro não tinha nada de pacífico. Rafael sentado na cadeira de coro sintético do escritório, girando caneta preta entre dedos longos, olhos fixos num relatório de faturamento que Leão tinha acabado de deixar na mesa. Movimento na biqueira normal: playboys subindo pra abastecer fim de semana, moradores resolvendo burocracia com associação controlada pelo tráfico, fluxo girando. Mas mente do Patrão não tava na contabilidade da droga. Tava na garota da confecção. Rafael: — Leão. Leão, escorado no batente da porta limpando canivete, levantou rosto. Leão: — Fala, Patrão. Esquema do asfalto deu r**m? Rafael: — Não. Tô pensando naquela menor. A irmã daquela infeliz que deve pra gente. Leão deu sorriso irônico, cruzando braços grossos. Leão: — A tal da Larissa? O que tem ela? Tá trabalhando que nem condenada lá no centro pra pagar que irmã caloteira estourou na biqueira. Quer que aperte prazo dela? Rafael parou de girar caneta. Olhar escuro e cortante fixou-se num ponto qualquer na parede de tijolo à vista. Não era pena. Era curiosidade irritante, enigma que postura daquela garota impunha sobre ele. Nenhuma mulher olhava pra ele daquele jeito — sem medo, sem bajulação, sem interesse nos cordões de ouro ou na arma na cintura. Rafael: — Não. Não aperta prazo ainda não. Leão franziu testa, estranhando ordem. Leão: — Vai deixar passar pano pra moradora caloteira, Patrão? Tu nunca foi de aliviar pra ninguém. Rafael levantou-se devagar, tragando final do cigarro antes de apagar com força no cinzeiro. Rafael: — Eu não alivio pra ninguém, Leão. Só quero ver até onde vai marra daquela menina antes de quebrar cara de vez. Deixa ela correr atrás do dinheiro dela no asfalto. Quando corda apertar no pescoço dela de verdade... ela mesma vai vir bater na minha porta. Leão: — E se ela não vier? Rafael deu sorriso frio. Pela primeira vez, sorriso de dono que já sabe que é dono. Rafael: — Ela já tá na minha porta, Leão. Ela dormiu na minha cama hoje. E quando eu quero, eu não peço. Eu tomo. E ela já é minha. Só não sabe ainda. Ele pegou chave da moto. Rafael: — Avisa pros moleque: ninguém encosta na costureira do Bom Retiro. Ninguém cobra ela na rua. A dívida da irmã drogada dela agora é comigo. E quem encostar nela, morre. E desceu a ladeira de moto. Não pra cobrar playboy. Pra buscar a costureira na porta da confecção na hora do almoço. Porque quando ele não quer, ele não quer. Quando quer, não pede. Toma. NOTA DA AUTORA Meninas, ele falou: ELA JÁ É MINHA, SÓ NÃO SABE AINDA! 😍 E vai buscar ela na porta da confecção! O que vocês fariam se o dono do morro aparecesse de moto na porta do seu trabalho pra te buscar? Comentem!
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