A polícia fecha o cerco. Bruna e R.P. têm que sumir. Mas escapar do sistema e da favela ao mesmo tempo…
A favela respira tensão. Bruna e R.P. não têm mais pra onde correr — mas fugir é a única opção. O cerco fecha. A cidade vira uma armadilha. E o preço da liberdade? Alguém vai ter que pagar.
00h47.
O morro do Vidigal dormia num silêncio estranho. Depois de horas de fogo cruzado, as ruas estavam vazias, os becos com cheiro de pólvora e suor. Os corpos já tinham sido levados. As vozes nos rádios baixaram o tom. Mas ninguém estava em paz.
Dentro do bunker improvisado, Bruna tentava estancar um corte no braço de R.P., feito por estilhaços.
— "Você tem que ir pro hospital."
Ele segurou a mão dela.
— "Se eu sair daqui, não é hospital que me espera. É cova."
Ela engoliu seco.
— "Então vamos fugir. Sério. Agora. Tem que ter um jeito."
Ele hesitou. Passou a mão no rosto, pensativo.
— "Tem um caminho. Um dos nossos conhece uma trilha pelo mato, sai na Rocinha. De lá, consigo pegar uma rota pra fora do Rio. Mas não é garantido. E se formos, é pra nunca mais voltar."
Bruna olhou pra ele.
— "Eu não tenho mais pra onde voltar."
Enquanto isso, na base da PM, Caio tentava convencer o Coronel:
— "Eles vão fugir. Se a gente continuar cercando o Vidigal, vai morrer mais gente. E sua filha pode ser uma delas."
— "Ela escolheu morrer com ele."
— "Ela escolheu viver o que a gente nunca teve coragem."
O Coronel Álvaro deu um soco na mesa.
— "Organize o cerco. Fechem todas as entradas. Helicóptero sobrevoando. Carros nas avenidas. A partir de agora, R.P. e Bruna estão na lista vermelha."
02h03.
R.P. e Bruna saíram pela trilha. Só um parceiro acompanhava — um soldado de confiança chamado Neguinho do Brejo. Magrelo, olhos atentos, armamento leve. Conhecia cada árvore daquele mato.
— "Vamos andar em silêncio. Nada de celular, nada de luz. A qualquer barulho, a gente volta pro buraco."
A descida era íngreme, escorregadia. Bruna caiu duas vezes, arranhou as pernas, sentiu o peso da vida sem conforto. Mas não reclamou. R.P. não soltava a mão dela nem por um segundo.
No meio da trilha, já perto da Rocinha, ouviram passos atrás. Um barulho seco. E logo depois, o grito abafado de Neguinho.
— "CORRE!"
R.P. puxou Bruna com tudo. Mas antes que pudessem sumir na mata, foram cercados.
Três homens, fardados. Mas sem identificação.
— "Acabou pra vocês."
R.P. mirou a arma, protegendo Bruna com o corpo.
— "Se atirar em mim, acerta ela também."
— "Ordem é levar os dois. Mas se resistir, a gente mata e diz que foi confronto."
Silêncio tenso. Um deles levantou a arma.
E aí… um tiro ecoou. Mas não foi deles.
O soldado caiu. Um buraco no peito. Do alto da trilha, Caio aparecia — arma na mão, suado, ofegante.
— "Corre, R.P.! Leva ela!"
— "Você tá com a gente agora?"
— "Tô contra o sistema. Isso é suficiente?"
Eles correram. Bruna olhou pra trás e viu Caio trocar tiros com os dois últimos soldados.
— "Ele vai morrer por minha causa..."
— "Não, princesa. Ele escolheu. Assim como a gente."
03h12.
Saíram na Rocinha. Pegaram carona com uma van clandestina. Sem destino, sem garantia. Mas vivos.
A cidade dormia. Mas a história deles… tava só começando.
Bruna e R.P. estão fora do morro, mas não fora de perigo. Agora o Rio inteiro tá de olho neles. E viver escondido é mais difícil do que parece — ainda mais quando o coração quer paz, mas a realidade só oferece caos.
03h57.
A van passou direto por um dos túneis da zona sul. Com os vidros fechados e o banco de trás ocupado só por eles dois, Bruna tremia. Mas dessa vez, não de medo — e sim de exaustão.
Ela encostou a cabeça no ombro de R.P., os olhos pesados, ainda com resquícios de lágrimas e fuligem.
— "Pra onde a gente tá indo?"
— "Um amigo meu tem uma casa em Paraty. Fica num sítio, afastado, sem vizinhos. Pelo menos por uns dias, a gente vai sumir do radar."
A cidade amanhecia devagar. O céu ficava claro, mas o dia deles ainda era escuro.
No rádio da van, uma notícia começava a circular:
"... a filha do Coronel Álvaro, chefe da PM do Rio de Janeiro, está oficialmente foragida junto com o traficante mais procurado do Estado, Rodriguinho, conhecido como R.P. As investigações apontam que Bruna estava com ele durante a operação no Vidigal e, segundo fontes, pode ter colaborado com a fuga..."
Bruna fechou os olhos, como se pudesse se esconder do mundo.
— "Eles me viram como cúmplice."
— "Você não é. Você é só alguém que teve coragem de amar."
— "E você é alguém que vai morrer por isso."
Ele riu de canto.
— "Quem nasce aqui já nasce condenado, princesa. Só muda o motivo."
07h28.
Chegaram no sítio. Um lugar escondido no mato, sem placas, sem estrada de asfalto. A casa era simples, mas segura. O dono era um velho parceiro de R.P., chamado Tonhão, um ex-bonde que largou o morro pra plantar alface e criar galinha.
— "Fica o tempo que precisar. Mas não pisa fora do portão. Aqui tem polícia rural, helicóptero, até drone passando às vezes."
Bruna entrou no quarto e deitou numa cama de madeira, dura como pedra, mas parecia um hotel cinco estrelas comparado à última noite.
R.P. se sentou ao lado dela.
— "Sabe qual foi o primeiro lugar que eu sonhei fugir quando era pivete?"
Ela virou o rosto, curiosa.
— "Uma praia deserta. Só eu e uma mina bonita, deitada no meu peito. Sem tiro, sem sirene, sem guerra."
Ela sorriu, fraco.
— "Agora só falta a praia."
Silêncio. Eles se olharam. Não tinha mais desculpa, nem esconderijo. Ali, só os dois. O beijo veio lento, dolorido, com gosto de terra e sal. Não era paixão de novela — era amor sujo, vivido, real.
O mundo podia acabar. Mas naquele quarto, naquele instante, eles ainda estavam vivos.
Enquanto isso…
Na sala da PM, Coronel Álvaro observava imagens de câmeras de rodovia. Drones. Escutas.
Ele parou diante de uma tela com a ficha de R.P.
E ao lado, uma foto antiga de Bruna.
— "Eu vou encontrar vocês. Nem que eu tenha que virar o inferno de ponta-cabeça."