O esconderijo que parecia seguro começa a mostrar rachaduras. A tensão sobe. O amor esquenta. Mas a guerra, essa nunca dá trégua. Porque quando você se torna o alvo… até o silêncio pode te matar.
13h09.
Bruna acordou com o som dos galos e o cheiro de café forte. R.P. já estava na varanda com Tonhão, olhando o mato. A arma dele repousava no colo como extensão do próprio corpo.
— "Movimento estranho lá no alto da trilha. Vi uns caras ontem de noite. Pode ser caçador... ou pode ser PM disfarçado." — disse Tonhão.
R.P. assentiu, sem tirar os olhos do horizonte.
— "Acha que eles tão perto?"
— "Não sei. Mas tão vindo."
Dentro da casa, Bruna vasculhava o celular que mantivera desligado até então. A bateria estava nas últimas, mas o sinal... ainda pegava.
Uma única mensagem não lida do pai:
"Você ainda tem chance de sair disso viva. Me procura. Sozinha."
Ela ficou olhando pra tela como se ela queimasse.
R.P. entrou e viu.
— "Vai responder?"
— "Não sei se ele quer me salvar... ou me prender."
— "Os dois. Seu pai nunca separou amor de controle."
Bruna suspirou fundo.
— "E você separa o quê?"
Ele encarou ela por um instante.
— "Eu? Eu só sei que... se você for, eu vou junto. Mesmo sabendo que pode dar merda. Mesmo sabendo que talvez eu morra."
Ela se aproximou, encarou ele com raiva, com dor, com tudo ao mesmo tempo.
— "Por que você não me manda embora? Por que você não me protege de você?"
R.P. engoliu seco.
— "Porque eu sou egoísta. Porque você é a primeira coisa boa que caiu no meu mundo de merda."
Ela o beijou. Dessa vez, sem pressa. Sem medo. As mãos dele deslizaram pelas costas dela, enquanto os dois caíam na cama de novo.
Entre beijos e sussurros, se esqueceram por algumas horas de que o mundo lá fora queria vê-los separados… ou mortos.
17h44.
Enquanto isso, em um ponto de monitoramento da polícia ambiental, dois agentes encontraram uma câmera de trilha derrubada.
Voltaram à base e puxaram o cartão de memória. A imagem congelou num frame:
Bruna e R.P., de mãos dadas, cruzando a trilha.
O sistema reconheceu os rostos em segundos.
Alerta vermelho ativado.
No mesmo momento, em Brasília, o caso subia de nível. A mídia já falava em sequestro, tráfico de influência, corrupção dentro da PM. Bruna estava no centro de uma tempestade nacional. E o nome dela... já não era mais só dela.
20h32.
De volta ao sítio, Bruna e R.P. estavam na cozinha. Tonhão entrou apressado, celular na mão.
— "Tem viatura da federal em Paraty. Perguntaram de um casal que passou na van de madrugada."
R.P. se levantou.
— "Achou a gente."
— "O que a gente faz?" — perguntou Bruna, pálida.
Ele olhou pra ela, depois pra arma. A decisão era clara.
— "A gente corre. De novo. Só que dessa vez… talvez a gente não consiga juntos."
Às vezes, amar é segurar. Outras vezes… é deixar ir. Quando a fuga exige sacrifícios, nem todo mundo consegue sair ileso. E Bruna vai ter que escolher entre o coração… e a sobrevivência.
00h19.
Chovia fino no mato denso ao redor do sítio. O barulho das gotas nas folhas se misturava com a tensão no peito de Bruna. Ela empacotava roupas numa mochila velha, enquanto R.P. ajustava a arma na cintura.
Tonhão preparava uma moto. Só uma.
— "Duas pessoas chamam atenção. Um vai por cima da serra, o outro pelo litoral. Se passarem juntos, perdem juntos."
Bruna se aproximou, com a mochila nas costas.
— "E se a gente nunca mais se encontrar?"
R.P. olhou pra ela com aquele olhar duro de quem viu muita morte, mas nunca soube lidar com o amor.
— "Se a gente não se encontrar mais… é porque o mundo não merecia a gente junto."
Ela deu um meio sorriso, molhado de lágrimas.
— "Você é a pior coisa que já me aconteceu… e também a melhor."
— "E você é a única coisa que me fez querer viver além da guerra."
O beijo foi rápido, desesperado. Como quem sabe que talvez seja o último. As mãos se apertaram. Os olhos se disseram tudo que a boca não teve tempo.
Tonhão entregou a Bruna um mapa, um rádio pequeno e um colar.
— "Isso aqui era da minha filha. Ela morreu por causa de um tiro que não era pra ela. Leva contigo. Dá sorte."
Ela aceitou, sem conseguir falar.
01h07.
A moto partiu pela trilha estreita. Bruna seguiu pela mata a pé, com uma lanterna apagada, pisando leve como sombra.
R.P. pegou um carro que Tonhão mantinha escondido — um Fiat antigo, com placas frias. Entrou sozinho, com o rosto coberto por um boné.
No rádio, o som estático. Depois, uma voz:
"Rodriguinho, se me escuta… sei que tá aí. Mas não adianta correr. Essa história só acaba de um jeito."
Era Caio, o parceiro da PM. A voz dele carregava o peso da guerra e da culpa.
"Se ainda tem um pingo de esperança… leva ela pra longe. Mas saiba: o cerco tá fechando. E dessa vez, não tem milagre."
03h36.
Bruna chegou a um posto de gasolina, combinada como ponto de encontro com um contato de R.P. Um carro preto a esperava.
O motorista era jovem, expressão neutra. Tatuagem no pescoço. Sem falar nada, ele abriu a porta.
Bruna entrou.
— "Pra onde a gente vai?"
— "Minas. Depois São Paulo. Depois... ninguém sabe."
Ela olhou pra trás, como se pudesse ver R.P. surgindo no retrovisor.
Mas o banco vazio só devolvia o eco do silêncio.
Enquanto isso…
Na serra, R.P. dirigia em alta velocidade. Um drone passou por cima. Ele desviou o carro por uma estrada de terra. Mas o farol de outro carro apareceu logo atrás.
Sirene desligada. Mas o sinal era claro.
Polícia.
R.P. acelerou.
A estrada virou fumaça e barro. O carro deslizou, quase caiu numa ribanceira, mas ele segurou firme. No rosto: raiva, desespero, amor.
Porque ele sabia… que agora, o inimigo não era só a lei.
Era o tempo.